27.7.14

Que venha agosto sem trazer desgosto.

Quatro madeiras de lei que o cupim não rói.


         Dimensionar perdas inelutáveis e acatar o nunca de novo, é existencialmente difícil, ao finito, mortal ser humano. Engendramos eternidades e distraímo-nos com os infinitos e tantas vezes aleatórios cardápios do viver. Seres sem escolha ao nascer, em nada influímos quando fomos gerados, tampouco como e por quem fomos criados, sob que condições e em que agrupamento social viveríamos, sequer; possuímos  o dicionário das nossas heranças genéticas, aquisições por sucessão, transmissões pelas gerações anteriores, pela tradição, enfim, todos os legados inconscientemente e passivamente repassados. Creio que se fôssemos, com as mesmas características, o único exemplar no mundo, mesmo que imortais, nos extinguiríamos por uma solidão mais devastadora que a de sozinho; aquela que não dá azo à criação, à oportunidade de cogitarmos por outros além de nós, ao motivo de possuirmos esperanças nos seres fora de nós, e especialmente, pela falta de aquecimento, calor que emana dos que interagem conosco cara a cara, coletivo, nacionalidade, crença, fé, esperança, ideologia e assim por diante. Felizmente somos muitos e dependentes uns dos outros. E ao contrário do que se apregoe, conhecemos  e sentimos o significado do amor.
         O mundo que habitamos, ao contrário de tornar-se uma “torre de Babel” pela sua diversidade étnica, linguística e cultural, tornou-se o palco no qual a ganância econômica e bélica de alguns, subjuga e dizima, com sofisticado engenho midiático e militar, um outro mundo, que tem o direito de se autodeterminar e evoluir em todas as suas potencialidades sociais, humanas e culturais.
        Investidas de conquista e subjugo,  travestidos de razões maniqueístas; genocídios e crimes de guerra inomináveis, invadem os meios de comunicação a zombar da consciência humana.
         O mês de julho, antecessor do dito insalubre e miasmático mês de agosto, deste ano de dois mil e catorze, nos ceifou da presença, inteligência e sabedoria de quatro intelectuais brasileiros importantes e insubstituíveis, no tornar mais aperfeiçoada nossa humanidade.
         Começou no dia oito com Plínio de Arruda Sampaio, respeitado político, cassado pela ditadura civil-militar de 1964, eleito em 1986 deputado federal constituinte, árduo defensor da Teologia da Libertação e da reforma agrária. Uma voz sempre atuante e respeitada junto aos jovens ainda que aos seus 83 anos de vida, quando, no ano de 2013, ainda foi às ruas no movimento contra o aumento da passagem. Fomos subtraídos  da convivência corajosa, cívica e vívida, com a esperança, representada por sua coerente trajetória humana. Plinio deixou vários livros publicados, entre estes Por que participar da política, e É o Brasil viável?  

          Dez dias após, em 18 de julho, morre o escritor João Ubaldo Ribeiro, uma figura mais que importante da nossa literatura. Um representante de peso do romance moderno. Seus livros, como o premiado Sargento Getúlio, revelam traços da cultura brasileira, narrando a história de um sargento da polícia militar de Sergipe. João Ubaldo na sua narrativa traz às letras elementos tão tipicamente nordestinos, que,  ele próprio teve o imperativo de traduzi-lo para o inglês. Um outro fantástico, é Viva o povo brasileiro, premiado com o Jabuti e junto com Sargento Getúlio passando a constar da lista dos cem melhores romances brasileiros do século. 
Vários outros títulos da sua obra poderiam ser listados, com idêntica ênfase. Antes de viajar a Berlim, li o seu delicioso Um brasileiro em Berlim e fiquei orgulhoso de encontra-lo nas livrarias daquela cidade.
         Um traço típico de João Ubaldo, além de uma escrita rica e cativante do leitor, foi sua simplicidade, sobriedade e quase timidez, contrastando com a alma generosa e com sua riquíssima erudição e competência literária.
         No dia seguinte, 19 de julho, a sabedoria perdeu  um cicerone. Rubem Alves era uma fonte.
         Um espécime raro no mundo globalizado e enlatado. Tinha afeição por jardins, por música, por culinária; chegou a ter um restaurante. Grande predileção pela poesia, mantinha um grupo, chamado Canoeiros, que se encontrava semanalmente para leitura de poesias.
         Grande leitor, possuía o que outrora chamávamos de vasta cultura geral e que poderíamos traduzir por uma formação eclética, que percorria a teologia, psicanálise, sociologia, filosofia, literatura, poesia, e educação. Tinha gosto por ensinar, por ensinar a ensinar; era um crítico arguto do modelo educacional vigente. Escritor, dedicava-se também à literatura infantil.
Foi autor do livro Da Esperança (Teologia da Esperança Humana), pelo que, muitos estudiosos consideram-no como uma das mais relevantes personalidades no cenário teológico brasileiro; o fundador da reflexão sobre uma teologia libertadora, que logo  seria chamada de Teologia da Libertação.
Lê-lo ou ouvi-lo falar era instigante à inteligência e para que se refletisse sobre padrões diferentes, dos olhares tantas vezes sonolentos, imutáveis ou arraigados de  preconceitos.
Legou-nos uma vasta escritura e palestras e aulas gravadas.
         O humanismo sentiu uma lágrima rolar.
         Que passe logo o mês de julho!
        Quando no dia 23, falece um poeta, um esteta, um prosador, um contador de histórias e estórias, um dramaturgo, um escritor nascido na Parahiba dona de suas primeiras grandes angústias com o assassinato de seu pai, mas dona também de uma parte incalculável do seu coração, do seu fígado bilioso que se aparta para o Recife e que encontra o modo de regenerar numa ficção fadada ao encanto quanto ao encantamento.
         Desse colo que o pernambucano enfeita com bicos, rendas, chita e fitas coloridas e alvo lençol de algodão, talvez vindas às escondidas de Taperoá, para fazê-lo filho, sem negar-lhe as origens, nasce a identificação sua com a alma recifense.  Desse homem ariano, espoca a semente dessa miscigenação nordestina, tão tantos e cheios de simbolismo que somos.
         Dela o desejo e a idealização do Movimento Armorial, com o objetivo de partindo dos elementos da cultura popular do nordeste criar uma arte erudita em todas as expressões artísticas: música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema, arquitetura, entre outras.
         Deve-se a Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho a criação do Teatro Popular do Nordeste, o famoso TPN, na Avenida Conde da Boa Vista, como anteriormente, quando estudantes, a concepção do Teatro do Estudante de Pernambuco.
         Destacamos dentre as tantas obras de Ariano; os romances A História de amor de Fernando e Isaura, (1956); O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, (1971); História d'O Rei Degolado nas caatingas do sertão /Ao sol da Onça Caetana, (1976)
         No teatro, cinema e televisão foi montada sua obra mais conhecida e tida como “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”; O auto da compadecida.
         Consta que este auto tenha precedido a conversão de Ariano ao catolicismo, pois tivera formação inicialmente calvinista e posteriormente fora agnóstico.
         Suas aulas espetáculo, abarrotavam qualquer recinto, por maior que fosse. A derradeira que assisti foi na última Feira Literária Fliporto em Olinda, onde discorria à vontade sobre D. Sebastião e o sebastianismo.
         Imagino um grande círculo onde se suprimem fatias como as de uma pizza. É um círculo de artistas, pensadores, sábios. Nunca os perdemos, mas deixam-nos a sensação do vazio de não serem mais inquilinos do mundo que vivemos.
       Quatro dessas fatias foram suprimidas deixando-nos um invejável legado. Que saibamos valorizá-lo.
        
         Que venha agosto me contando do nascimento do meu pai, do meu primeiro filho e do meu primeiro neto.

Waldir Pedrosa Amorim