17.11.14

Poema musical SOU EU: Ivan Lins, Chico Buarque, Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda




25.8.14

Daniel Lima - O Poeta Desentesourado


extrai novo senso. O comprazimento emocional e estético é bem expressar no próprio idioma o além da palavra. É ter a palavra por metáfora primordial. Artesãos da palavra podem ser chamados de artistas e de artistas maiores, os poetas. Não os encontraremos  a admitir à sua arte o que narra a lenda sobre  Michelangelo; que ao ver a perfeição de sua obra teria dito:- Parla   Moisés! Nenhum poeta conclui ou esgota as inumeráveis capacidades da palavra; estas se repetem em recriações associativas até o fim dos tempos.
                  As memoráveis obras de arte plástica estão em museus, as de literatura e poesia em bibliotecas, livrarias, estantes, gavetas, baús e acervos digitais da palavra textual e poética. O panteão da poesia no que concerne à linguagem é a língua nativa posta a comunicar a visão pessoal do artista e de suscitar emoção, enlevo e apreciação estética no leitor. Curiosamente, sem que se perceba, a poesia é repetitiva em sua temática, mas não na sua expressão, e riquíssima em modos de suscitar compreensões do real, ao trazer sobre múltiplos disfarces os embates existenciais humanos sob a ótica múltipla do sentimento de mundo de cada poeta. Ou como diria Daniel, "uma espécie de vômito da beleza. ¨... necessidade de soltar a beleza que percebeu do universo... “... o impulso irresistível de restituir a beleza vista por nós ao mundo a que ela pertence." "...[A poesia] arranca de nós uma visão nova do mundo, como se fosse uma nova criação. O mundo me toca, a beleza acima do tempo e do espaço, me sinto fora de mim mesmo. Se não escrever qualquer coisa, me sinto mal.”
                  Não me admiro que o filósofo Daniel Lima seja um poeta tão imenso quanto o é sua capacidade de interpretar o mundo. O filósofo e o poeta andam juntos, na agonia de captar  e devolver-nos o mundo alumiado. A ele pelos idos de 1970, se não me engano, é atribuída a seguinte frase que até hoje rememoro: "O erudito é um tanque, o sábio uma fonte", sendo por ele próprio arrematada, com o  afirmar de que nos tanques das águas não renovadas proliferavam larvas de mosquitos e que tais. Assim ele próprio,  o sábio que sempre soube ler para além da erudição.
                  Conheci o padre Daniel em Recife, há muitos anos, especialmente por suas aulas, conferências, palestras e algum convívio no seminário onde estudei. Não privei da sua intimidade,  mas alguns de seus amigos mais próximos me transmitiam passagens da sua genialidade, sagacidade, mordacidade e senso de humor.
                  Da orelha de um belo livro de capa dura, encadernação primorosa, sobrecapa verde, com imagem pictórica de um galo de campina, extraio ipsis litteris o sumário biobibliográfico e pinço alguns poemas da rica antologia Poemas. Estou ciente de partilhar com quantos leiam esse espaço o enlevo e privilégio de conhecer um imenso poeta da língua portuguesa.

                   Daniel dos Santos Lima nasceu em Timbaúba, Pernambuco, em 1916. Fez estudos de Teologia e Filosofia nos Seminários de João Pessoa e no Recife. Fundou e dirigiu o jornal A Voz de Nazaré, em Nazaré da Mata – PE, onde residiu por muitos anos. Foi professor de Filosofia, Estética e Latim, na Faculdade de Filosofia do Recife e na Universidade Federal de Pernambuco. Por muito tempo, Daniel Lima orientou e iluminou gerações de jovens e de menos jovens intelectuais em Pernambuco e no resto do Brasil. Tem 27 livros inéditos, de poesia ou versando sobre assuntos referentes à ética, à estética, e à política. Em 2011, com o seu livro Poemas, recebeu o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional.





Alguns poucos
gozam da prerrogativa dos cometas
e estrelas cadentes.
Com infante encantamento,
são esperanças sem prazos.
Num instante súbito,
incendeiam as noites.  
Waldir Pedrosa Amorim


POEMAS DE DANIEL LIMA
Adoeci de Daniel. O mundo é muito importante, eu fico meio desorientado. Para me enquadrar nele eu tenho de sofrer, e adoeço. Daniel Lima

Ao nasceres, tinhas o prefigurado rosto
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste.



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Há misérias nos homens
Os anjos cantam nas nuvens.
Era Sexta-feira Santa
Cristo morria.
Judas se enforcava.
E eu tomava sorvete.

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Eu sou a metáfora de mim.
Por isto, quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.

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Minha mãe era feita de incertezas.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus olhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.
E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.
Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.

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Nada será jogado no vazio.
Nem mesmo o vazio da vida,
porque é vida.

Nem mesmo o gesto inútil,
pois-que é gesto.

Nem mesmo o que não chegou a realizar-se,
pois-que é possível.

Nem mesmo ainda o que jamais se realizará,
porque é promessa.

E o próprio impossível
é vontade absurda de existir.
E nisso existe

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A palavra aproxima, não chega
mas a palavra afasta, distancia.
E então, o silêncio, o gesto
são mais exata palavra
que a palavra.

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Os pássaros são sábios.
Não discutem: cantam.
Cantar é o jeito mais puro de entender
a vida.

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A cada momento,
se não há invento;
o que será, eu mudo.
E se encontro feito,
como não tem jeito
eu desmancho tudo.

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Antes, vivia na certeza,
como uma águia aprisionada na gaiola.
A dúvida me libertou
deixando-me voar no espaço livre,
não mais certo de nada
senão da importância do voo.

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O mais perigoso é não arriscar. Então,
perde-se tudo ou, pelo menos, perde-se o
melhor: a esperança de ganhar tudo.
É na segurança exigida para agir, que o homem
“prudente” se perde, pois a segurança
funda a mediocridade do coração. Ela leva
ao apodrecimento da vida, cortando as asas
aos voos, ao desejo de libertação.

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Tenho qualquer idade em qualquer tempo
velho agora e menino logo adiante;
aqui jovem e depois homem maduro;
às vezes nem nascido, às vezes morto.

A idade em mim rebenta impetuosa
não do tempo existido, mas das coisas
que me criam e também são criadas
pelo que sou e sinto em face delas.

Menino e velho sou não sucessivo
mas simultâneo a cada sentimento
— múltipla idade de uma alma múltipla

às vezes já estou morto há muitos anos
muito depois e frio; mas às vezes
sinto que vou nascer, sinto-me antes.

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            Tudo tem cor:
o som, o ar, o sentimento, a vida;
            a cor do que carregas na tua alma.

            Há paixões que são negras,
há paixões que são rubras como o sangue.
Têm as coisas a cor do que sentes ao vê-las.

            Carregas o arco-íris nos teus olhos.

Meu coração, ai! meu coração
que eu quisera sempre vermelho,
            com a marca da paixão,
meu coração é bege em certas horas!

Se a realidade te dói,
            se ela te insulta,
rasga-a em pedaços
            e salta
                        no centro do teu sonho
            (Ele se tornará real
                        se o assumires)

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Não assustes a vida. Anda de leve,
fala brando e baixinho; e se não és feliz,
            finge que o és;
pois, mais que as coisas mesmas e a verdade,
            são as palavras que a perturbam,
            é a aparência que a fere.

            Inventa, pois, sonhos,
            mente-te que és feliz
            cria-te outro e falso,
o que quiseres ser, o que serias,
            mas feliz.

Anda de leve, fala brando,
            não assustes a vida com a verdade
                        e acabarás feliz.

Dos seres não discutas; não questiones
das coisas e da vida e seus mistérios.
Aceita-as tais quais são, desnudas coisas.
Olha-as com o ingênuo olhar, que não
            perdeste ainda
            e ama-as simplesmente.

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“Ninguém assistiu ao formidável
enterro de sua última quimera.”
Eu assisti.
Por isso danço essa dança esquisita
e faço a rotação inversa
passando da velhice à madrugada.

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Creio na aurora boreal
            todas as manhãs.
Creio no sol da meia noite
            todas as noites.
Creio na alma das rosas e dos passarinhos.

            Me embebedo de sonhos
            e de estrelas.
Não penso.
Logo existo.

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Se assumires a tua liberdade,
            serás feliz.
Porém, mais infeliz ainda
            se te tornares livre.

Ó homem, ser ambíguo,
o destino te segue e te persegue
e mesmo quando escolhes a tua liberdade,
ela te prende e te escraviza
e se faz, desde então, o teu destino.

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Das ruínas do tempo degradado
outro tempo há-de-vir, feito das utopias,
dos sonhos dos poetas e dos ideais
                                    dos loucos
e das visões dos profetas;
            outro tempo virá
em que nem mesmo se quiseres
            serás herói ou mártir,
            mas apenas tu mesmo.