11.9.12

A Poeira dos Pequenos Segredos – Filme baseado no conto homônimo de Geraldo Maciel. (Entre nós eternamente Barreto)

 

A poeira dos pequenos segredos-filme

 

Waldir Pedrosa Amorim

Na quarta feira passada, dia 5 de setembro de 2012, fui lembrado por minha mulher, Fátima, que combináramos assistir a um filme baseado em um conto do nosso saudoso amigo Barreto, às nove e meia da noite no Cinespaço. Para lá fui, com minha alma nostálgica, reminiscente, teimosa em acatar a perda de quem tanto admirava por uma miríade de qualidades concentradas. Amigo especial, leitor ávido, apurado senso crítico, cidadão disposto, no seu domínio, a provocar o dialético eclodir do novo. Conhecedor de tantas coisas; um cozinheiro de mão cheia, inclusive. Aprendi a admirá-lo ainda mais no convívio aos sábados nas reuniões do Clube do Conto e na biblioteca em sua casa, que virava a Editora Manufatura, onde publiquei alguns livros meus.

Barreto era um delicado construtor de obras ficcionais reveladoras da sua intimidade com o universo humano e seus dramas existenciais arcaicos e permanentes. Seu esmero com a palavra, aliado ao universo quase pictórico de suas analogias e metáforas, nos conduzem até hoje ao embevecimento pelo seu estilo literário, enobrecedor da língua portuguesa. Navegava solto pela realidade dramática das gentes, em especial daquelas que pelo destino se assestam nas pequenas cidades interioranas e sertão. Paraibano de Nova Palmeira, manifestava o orgulho por suas origens, que por certo lhe calcaram a singular capacidade de trazer à escrita um cenário a um só tempo local e universal. Creio que sua cidade era a cidadela do seu sentir em todos os aspectos, de Professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal da Paraíba ao de constituinte com Fátima, sua mulher, da família que possuía. Certa feita confidenciou-me que planejava construir personagens em cenários mais urbanos, como parte do desafio de escritor e ficcionista.

Mas, retornemos ao filme A Poeira dos Pequenos Segredos. Adentro a casa repleta, deparo-me com Fátima de Barreto e seus filhos e lhes aceno. Aqui vou revelar que foi a primeira vez que pude encontrá-los, depois do falecimento do meu amigo. Marquei e remarquei o dia de visitá-los levando a minha solidariedade, único argumento que temos às mãos - e não consegui ir. Combinamos com nossos amigos comuns, Glória e Ronaldo, para que nos acompanhassem a aquela singela atitude de enfrentar as perdas necessárias. Falhamos. Comecei a acreditar que a maturidade tem me tornado medroso.

No cinema lotado, sentamo-nos próximos à tela, na indisponibilidade de melhor lugar. Fixei o olhar na imensa tela alva e sem imagens, aguardando que sobre esta se projetasse um novo mundo ficcional, baseado naquele outro meio de linguagem diversa, cujo ponto de partida foi o conto que há algum tempo não relera. Fizera bem em não me apressar a reavivá-lo na memória antes de assistir ao filme do diretor Bertrand Lira, com excepcionais interpretações de Nanego Lira, (Santiago) e Verônica Sousa (Otília).

Saí com a alma leve, não mais alva como a tela com os acréscimos auferidos pelo belo. O filme é tão bom quanto o conto. Destaque-se, além da interpretação, a fotografia, a trilha sonora e o desenho de som. Parabéns a Bertrand Lira e toda equipe que deu vida ao seu justo projeto de homenagear Barreto.

Curiosamente, para meu espanto, ao sair da sala de exibição, percorri com o olhar as cadeiras e escadas da sala, em busca de algum conhecido; na última fila, no canto esquerdo, vi Barreto, com seu sorriso franco e o olhar de satisfação. No saguão, alguns amigos comentavam sem perceber, que se ali estivesse ele, por certo estaria bastante contente.

 

Escrito no sábado, 8 de setembro de 2012