29.7.12

Poucos querem o amor. Uma resenha de Viviane C. Moreira para o Amálgama.


Claro que vou transcrever, repercutir, compartilhar e citar o link e a fonte, dessa resenha adorável sobre o filme A delicadeza do Amor  de David e Stéphane Foenkinos, que, sem dúvida, quero assistir logo, logo. Nada posso falar do filme. Meu intento é dizer da doce beleza e ternura transmitida pelo texto, assaz bem escrito, por Viviane. Ler a resenha já dá contentamento. Falar do amor, esse sentimento milenarmente, tão banalizado, surrado, com propriedade, delicadeza e segurança, nos assegura que o filme seja preliminarmente bom. Isso  comprova como a leitura pode nos conduzir a múltiplos deleites.

A delicadeza do amor. ( filme de David e Stéphane Foenkinos)

 

A atriz Audrey Tautou, que também foi Chanel e Amélie Poulain, empresta sua feminilidade à delicada e determinada Nathalie.


por Viviane C. Moreira (27/07/2012)
em Cinema, Pessoalidade
Fonte: Amálgama
 
Para quem gosta de saber a moral da história, antes mesmo de ir ao cinema, aviso que esta pode ser a mensagem do filme A delicadeza do amor. Por que tantos parecem querer o amor? Por que poucos realmente o querem? O filme de David e Stéphane Foenkinos não explica, embora retrate com beleza, graça e encantamento a delicadeza do amor. Segundo os irmãos Foenkinos, o filme é “uma comédia romântica para os homens”.
Uma mulher que faz o luto de um grande amor comove-nos com sua dor. De amor. Dor de amor perdido. Um amor lhe fora tomado pela morte. Subitamente. O seu belo amor, seu marido, saiu de casa pra correr, bem disposto, em um dia como em outro qualquer. Mais tarde, ela recebeu um telefonema e imediatamente saiu de casa rumo ao hospital, onde seu amado respirava com a ajuda de aparelhos, morrendo logo depois. Assim, ela começou viver a dor do luto. Não hesitamos em acompanhá-la na sua dor. E com ela seguimos, lado a lado.
A atriz Audrey Tautou, que também foi Chanel e Amélie Poulain, empresta sua feminilidade à delicada e determinada Nathalie. A atriz que nos leva ao cinema para assistir ao drama da personagem Nathalie, mais uma vez conta uma boa história.
Vemos uma mulher fazer o luto do seu grande amor, sem se desviar da dor imposta pelo luto. Ela topa enfrentar essa dor. Não joga com a dor. Não se corrompe. É desejada por um homem, seu chefe, por quem não tem interesse algum, como mulher. É cortejada por esse homem a quem ela diz não desejá-lo. O que havia em Nathalie que teria feito esse homem apaixonar-se por ela? Seria o seu sofrimento? A dor da perda do seu amor? Esta dor teria acendido nesse homem o desejo de ser amado? Afinal, o que significava o sofrimento de Nathalie? Nem a secretária interessava ao chefe, mas somente a mulher que perdeu o seu amor, a sedutora Nathalie, tão arrebatadora quanto Yoko Ono, como ele diz.
E assim, Nathalie prossegue na sua promessa de partir a dor do luto, quando em um dia, um dia comum, mas não um dia qualquer, ela beija um desconhecido; um colega de trabalho que entra na sala do seu escritório. Um estranho. Um homem diferente. Estrangeiro. Ela o beija demoradamente. Um beijo com desejo. Ardente. Beijo que incendeia. Beijo de quem fantasia o beijo. Beijo de quem beija com o corpo e a alma. E… Ela não sabe por que fez isso. Sabe que fez. E fez. O homem que teve um superbeijo roubado não sabe por que foi beijado, mas sabe que foi – e como foi.
Qual o segredo desse beijo? Por que esse beijo mexeu tanto com o Markus? O homem que foi beijado à toa defende o mistério desse beijo. Não quer que o beijo seja tratado como assédio. Não quer saber desse papo de assédio. O que importa pra ele: o beijo de Nathalie.
Que nome dar ao que estava rolando entre eles, sem terem ainda um caso? (Eles sentiam a presença desse nome – uma visita que chegou sem avisar…) Que atração era essa de Nathalie pelo estrangeiro “feio e insignificante”? O que ele tinha que o chefe não tinha? Seria só atração o que despertava ciúmes e inveja nos amigos dela?
Enquanto o clima entre Nathalie e Markus provoca estranheza, eles deixam o amor chegar… Sem alarde. Sem as conveniências que propiciam o conforto de uma vida previsível. Sem a segurança que inspira um modelo de vida em que se pensa ter controle sobre ela. Sem o desperdício de tempo com o que não interessa ao amor. E de mansinho, o amor foi se instalando em cada um, embalado em presentes simbólicos, em confidências trocadas com sensibilidade, sinceridade e cumplicidade. Com a espontaneidade de quem se revela com toda a falta de jeito própria do amor inesperado.
Nathalie e Markus sentiram o amor chegar. Deram ao visitante uma terna acolhida. Tornaram-no hóspede. O amor, não raro, é dado pelo acaso. Pode acontecer quando menos se espera. Quando não se acredita mais que ele possa chegar. Quando se pensa já tê-lo vivido. Ele pode chegar estranho até. Mas o acaso não dispensa o amor da exigência. O amor é exigente. E faz suas exigências. Para uns, ele pode ser um exagero. Para outros, uma presença que exige delicadeza – amor, pois este é o nome.

26.7.12

Recordação Indelével

 

Lembro Fernando sim,

Um rapaz sério 

E sossegado.

Conveniente 

E ético.

Lutador pela sua vida,

Na vida de outros

Tantos, que não saberia contar.

Transplantado,

Prevaleceu

O enfrentamento

Das abissais dificuldades,

[não bastassem as das doenças]

Para se sobreviver,

Sem vida encurtada

Pela hepatite C.

Por certo erigiu conquistas,

E nada foi, nem será em vão!

Seja Fernando lembrança,

É desfalque,

É memória inapagável:

Um cidadão crente,

Na força da união,

Cujo movimento

Determina a vida.

Rememoro em Fernando,

Fernandos muitos,

Com apreço e extenso respeito.

Waldir Pedrosa Amorim

A virgindade das palavras

 

Manoel de Barros **

Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para o trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões, que estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso em clichés. Só os poetas podem salvar o idioma da esclerose. Além disso a poesia tem a função de pregar a prática da infância entre os homens.

Se for para tirar gosto poético vai bem perverter a linguagem. Não bastam as licenças poéticas, é preciso ir até às licenciosidades. Temos de molecar o idioma para que ele não morra de clichés. Subverter a sintaxe até à castidade: isto quer dizer: até obter um texto casto. Um texto virgem que o tempo e o homem ainda não tenham espolegado.

O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso propor novos enlaces para as palavras. Injectar insanidade nos verbos para que transmitam aos nomes seus delírios. Há que se encontrar a primeira vez de uma frase para ser-se poeta nela. Mas isso é tão antigo como menino mijar na parede. Só que foi dito de outra maneira.

Se você prende uma água, ela escapará pelas frinchas. Se você tirar de um ser a liberdade, ele escapará por metáforas. No internato, longe de casa, eu não sabia o que fazer e fiz um aparelho de ser inútil. E comecei a brincar com ele. Um padre disse: - Não presta para nada; há-de ser poeta!

20/06/1997

Sobre o Autor

** Poeta e escritor brasileiro nascido em Corumbá, Mato Grosso, em 1916. Autor, entre outros, do "Livro das Ignorâncias", "Livro sobre Nada" e "Gramática Expositiva do Chão" (Civilização Brasileira, 1990) – de onde foi adaptado este texto.

Fonte: Ciberdúvidas

16.7.12

O teu riso

Pablo Neruda

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.