9.7.11

"O professor de piano", de Rinaldo Fernandes

 

Artigo Publicado sob o título Nó no Leitor

Fonte: Amálgama

por Renato Tardivo  Psicanalista, professor universitário e escritor, publicou recentemente o livro de contos Do avesso (Com-arte, 2010).

Renato Tardivo

-- O Professor de Piano, contos de Rinaldo Fernandes --

Rinaldo de Fernandes, contista, romancista, professor universitário e autor de colunas sobre literatura já havia dado mostras de seu talento como escritor nos dois livros anteriores. O perfume de Roberta

(2005), coletânea de contos, inclui narrativas de muito vigor e apresenta um autor maduro, com domínio sobre a própria palavra. Os contos “A morta”, “O perfume de Roberta”, o excepcional “Duas margens” (sem exagero, o melhor conto escrito em língua portuguesa nos últimos anos), “O cavalo” – que juntamente com “Ilhado” e “Oferta” retorna em seu livro mais recente – são alguns dos muitos pontos altos do livro de estreia. Depois, Rinaldo publica o romance Rita no pomar

(2008), que o consagra como finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

Muito bem. Aqueles que consideram o conto um gênero menor talvez se surpreendam com o fato de o autor retornar, em O professor de piano

(2010), às narrativas breves – no geral, ainda mais enxutas que as do primeiro livro. Com efeito, Rinaldo de Fernandes contraria a tese segundo a qual o conto é uma ponte a ser atravessada pelo escritor que, se quiser se tornar grande, tem de aterrar e, mais do que isso, constituir-se no gênero romance. Aliás, a temática do “constituir-se” está presente, senão em todos, na maioria dos 11 contos do novo livro (que, ao final, ainda conta com um interessante ensaio de Regina Zilberman).

Em “Beleza”, texto que abre o conjunto, o narrador, oprimido pelo pai, forja seu continente montado numa égua. Em “O professor de piano”, narrativa que dá nome ao livro, o narrador rememora o passado traumático no âmbito da família e revela o lado “aluno” que ainda (sempre?) o acompanha.

Via de regra, as personagens centrais encampam o lugar da exclusão – expressam sua (in)satisfação, “gritam palavrões”, ejaculam um gozo doído; aportam, um tanto à revelia, numa ilha; erram “cavalgando no calçadão da orla”; observam, através de “dois buracos para os meus olhos”, o desenrolar das histórias dos outros que, trazidas para dentro de seus olhos, (com)fundem-se com as suas próprias.

Então, as páginas deste livro – um instantâneo – desenham meticulosamente a confusão mais intrigante: quem vê e quem é visto? quem ensina e quem aprende? quem caça e quem é caçado? O narrador assiste a tudo – inclusive ao que lhe escapa. “O caçador” lembra muito o célebre conto “Casa tomada”, de Cortázar, só que às avessas. É neste nó, tão prazeroso quanto doído – e não seria este o caso das melhores lições? –, que as linhas de O professor de piano enredam o leitor. “Onde está o agente”, último conto, não por acaso ambientado no futuro, talvez pudesse ser expresso da seguinte forma: Onde está o a gente, isto é, onde estamos nós (?). Uma pergunta? afirmação? frase de efeito? Não importa.

Fica a lição de que, para se constituir e, no melhor dos casos, encontrar a própria sinfonia, precisa-se primeiro acostumar-se “à ideia de que, na casa, cabemos os três”. Daí, “o baque fundo de uma porta se fechando”, o fim de tudo, pode até mesmo apontar para um novo começo.

::: O professor de piano ::: Rinaldo de Fernandes ::: 7 Letras, 2010, 96 páginas :::