13.6.11

“Borges: Uma vida”, de Edwin Williamson

Borges por Williamson

Posted: 02 Jun 2011 09:35 AM PDT

Autor do Texto: Maurício Santoro

Fonte:  Amálgama

-- "Borges: Uma vida", de Edwin Williamson --

“Todo escritor respeitável deveria ter um biógrafo inglês”, observou García Márquez. Edwin Williamson , que leciona literatura na Universidade de Oxford, ilustra o princípio. Sua estupenda biografia do escritor argentino Jorge Luís Borges mostra um autor apaixonado e engajado politicamente, muito distinto do retrato habitual do homem perdido entre bibliotecas, labirintos, tigres e espelhos. Borges teve longa vida (1899-1986), mas só conquistou fama internacional na velhice. Williamson divide sua produção artística em três etapas: a primeira é marcada pelo nacionalismo cultural e pelos vínculos com as vanguardas europeias; a segunda caracteriza-se pelo ceticismo e pessimismo, com forte influência de Franz Kafka; a terceira é de certo retorno da paixão juvenil. Em todas, Borges destacou-se por romper com a visão de que a arte deveria ser espelho da realidade, considerando-a como um mundo em si mesma e elaborando gêneros considerados inferiores, como romance policial, de aventuras, fantasia e ficção científica.

O escritor nasceu em Buenos Aires, em família de herois da Independência – seus dois avôs foram coronéis nas guerras contra a Espanha – mas que perdeu poder e prestígio para a nova elite dos estancieiros. A mãe de Borges, Leonor, era obecada em restaurar a grandeza de seus antepassados e esperava que o filho fosse o instrumento dessa vingança social. O pai, Jorge, era um literato frustrado, boêmio que ensaiou rebeliões contra a ordem vigente, e sonhava que o herdeiro completasse o que começou. Borges foi sempre dividido entre esses opostos,  situação que Williamson chama de “dilema entre espada e punhal”, no qual “ambos eram reações ao mesmo medo: o de ser desprezado, de perder o senso de identidade, de não ser ninguém.”

“Se eu tivesse que indicar o evento principal da minha vida, diria que é a biblioteca de meu pai”, escreveu Borges. Embora o filho não se destacasse nos estudos – era demasiado tímido, gago e míope, intimidado pelas outras crianças e nunca terminou o ensino médio – foi desde cedo um leitor voraz. Por sete anos a família viveu na Europa, principalmente na Suíça, onde o pai foi fazer um tratamento de saúde por conta da catarata que lhe tirava a visão. A estadia europeia coincidiu com a eclosão da I Guerra Mundial e o jovem Borges fez várias amizades nos círculos de vanguarda artística. De volta a Buenos Aires, tornou-se por algum tempo o líder de um grupo semelhante na capital argentina, defendendo nacionalismo cultural e identidade própria ao país, rejeitando visões de “submeter-se a ser quase norte-americano ou quase europeu, sempre quase outro”. Fundou revistas, publicou poemas e ensaios. Parecia no curso de uma brilhante carreira literária, mas seus problemas emocionais o lançaram em depressão e quase no suicídio.

Borges era infeliz e arredio com as mulheres. Uma iniciação sexual fracassada com uma prostituta em Genebra o traumatizou por anos. Em Buenos Aires, viveu uma sucessão de romances desastrosos, em especial com sua prima Norah Lange, beldade ruiva que ascendia como escritora e o trocou por um rival na literatura, Oliverio Girondo. O caso com Norah não era conhecido em detalhes, mas Williamson levantou dados importantes. Ela inspirou obras clássicas de Borges, como os dois “English Poems” e o conto “O Aleph”. Além dela, outras paixões fulminantes foram com Haydée Lange (irmã de Norah) e com a escritora e militante comunista Estela Canto.

O rompimento com Norah, em 1929, deixou Borges 14 anos sem escrever poesia, e seu estilo de prosa passou a ser mais sombrio, como nos magníficos contos reunidos em Ficções

. A política também contou. O jovem escritor era ativista da União Cívica Radical, que propunha reformas contra a oligarquia que dominava a Argentina e foi afastado do poder após o golpe militar de 1930, que introduziu a “década infame”, de governos conservadores apoiados nas Forças Armadas e nas fraudes eleitorais. Borges se rebelou contra essas práticas, defendendo a democracia e envolvendo-se até em brigas de rua. Em 1943 houve outro golpe, que culminou na ascensão do coronel Juan Domingo Perón. Borges o via como versão local dos tiranos fascistas e não reconhecia suas importantes políticas sociais. Nos anos 50, apoiou a ditadura que depôs Perón, acreditando que a democracia era inviável na Argentina. Data dessa época o conto “Ragnarok”, no qual multidão invade a universidade deixando rastro de destruição apocalíptica.

Borges teve apenas empregos em horário parcial como jornalista e tradutor até completar 40 anos, quando seu pai morreu, e obteve então modesto posto como bibliotecário. Os peronistas tentaram transferi-lo para a função de fiscal de aves no mercado municipal, mas ele demitiu-se em protesto. Após a queda de Perón, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional e professor de literatura na Universidade de Buenos Aires. Começou um período tranquilo em sua vida, apesar do rápido avanço da perda de visão: “Eu me deixo viver, para que Borges possa tramar sua literatura, e essa literatura me justifica.” Sua rotina era dominada pela mãe, que o chamava de “menino” e os dois eram às vezes confundidos com marido e mulher.

O ponto de virada foi 1961, quando ganhou o International Publishers´ Prize. Foi o início da fama global, virando ícone cultural citado pela Nouvelle Vague e Rolling Stones. A ironia é que Borges estava em seu período mais conservador, dizendo que a democracia era “uma superstição” e elogiando as ditaduras militares na Argentina e no Chile. É provável que isso tenha lhe custado a chance de receber o Nobel de Literatura, mas “Borges achava que era vergonhoso esconder suas crenças políticas para ganhar um prêmio.”

O que mudou sua vida, novamente, foi o amor. Em 1967 ele teve breve casamento com Elsa Astete, viúva com quem tivera flerte na juventude. Dona de casa na província de Buenos Aires, sentiu-se deslocada no ambiente de intelectuais cosmopolitas do marido. Borges começou uma nova, longa e surpreendemente bem-sucedida relação com María Kodama, quarenta anos mais jovem do que ele e sua aluna na universidade. Kodama às vezes desperta reações tão fortes como as de Yoko Ono, mas Williamson lhe traça retrato simpático, afirmando que foi fundamental para dar afeto e serenidade na década e meia que passou ao lado de Borges. Nesse período ele apazigou muitos dos seus fantasmas e retomou a militância política, desta vez defendendo a democracia e criticando a ditadura militar argentina e a guerra das Malvinas. Ao ser diagnosticado com câncer terminal, optou por ir morrer na Suíça, em elogio à tolerância que caracteriza a cidade de Genebra.

::: Borges: Uma vida ::: Edwin Williamson (trad. Pedro Maia Soares) :::
::: Cia. das Letras, 2011, 664 páginas

9.6.11

Amor e seu tempo

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

2.6.11

Reconsiderando Pixinguinha

Fonte:  Amálgama

por André Egg

-- "A escuta singular de Pixinguinha: História e música popular no Brasil dos anos 1920 e 1930", de Virgínia de Almeida Bessa --

Em dezembro de 2010 a editora Alameda lançou em livro um trabalho que já tinha se tornado referência para pesquisadores da Música Popular Brasileira. A dissertação de mestrado de Virgínia Bessa, Um bocadinho de cada coisa: Trajetória e obra de Pixinguinha. História e música popular no Brasil dos anos 20 e 30, defendida em julho de 2007 no Programa de História Social da FFLCH-USP, sob orientação de José Geraldo Vinci de Moraes.

Pelos próprios trabalhos, e pelo trabalho de seus orientandos, Vinci já se consagrou como um dos principais responsáveis pela necessária renovação metodológica capaz de fazer surgir uma nova história do Brasil através de sua música – ou uma nova visão da música brasileira através da pesquisa histórica: fique ao gosto do freguês. Porque a interação entre estes dois campos do conhecimento não se faz sem fricções. Escrever história da música se consagrou na Europa como um campo da crítica musical, em apoio ao circuito da música de concerto, às análises de obras e às biografias laudatórias dos grandes gênios – coisa que serve para criar um mercado de música mas atrapalha muito o acesso a algo próximo de uma verdade histórica ou de uma compreensão crítica do passado.

Na música popular o caminho foi o mesmo. À medida em que os memorialistas superavam o estigma de que a música popular não merecia a escrita de sua história, foram erigindo as histórias da música popular brasileira sob os mesmos moldes que tinham consagrado a tradição clássica europeia: um cânone de autores, que mereciam biografias mitificadas, erigidos ao posto de gênios — no caso da música popular brasileira, depositários de uma pureza original perdida em algum lugar do passado.

Se algum músico se prestou a esse tipo de tratamento foi Pixinguinha, que entrou na década de 1940 já visto como o lendário representante de um passado musical idealizado, ao mesmo tempo em que era substituído como arranjador no mercado fonográfico e radiofônico pela figura mais representativa de modernidade que era Radamés Gnattali. De pronto, uma geração de memorialistas que se articulou em torno da Revista de Música Popular, do trabalho na Rádio Nacional, e das primeiras tentativas coerentes de escrever a história da música popular, colocaram Pixinguinha neste pedestal de herdeiro e representante da tradição e da pureza original da música popular brasileira.

Em seu trabalho, agora publicado em livro com o título A escuta singular de Pixinguinha: História e música popular no Brasil dos anos 1920 e 1930

, Virgínia Bessa fura o bloqueio que nos separa da compreensão do papel de Pixinguinha como importante personagem de um momento chave da constituição do mercado da música popular urbana e da profissionalização do músico popular. Na história traçada pela autora, tão importante quanto a produção de Pixinguinha como flautista, compositor, arranjador, performer, saxofonista, é sua atuação como representante da cultura negra nos divertimentos populares do Rio de Janeiro ou de Paris. E sua tentativa de atuação no nascente mercado do teatro musicado, bloqueada pela hierarquia racial que se impunha com a profissionalização. Bloqueio que Pixinguinha tentava superar como podia, fazendo de tudo um pouco, mobilizando uma escuta variada (da música sertaneja de cocos e emboladas, passando pelo choro-maxixe fertilizado pelo ragtime e pelo foxtrot, além das aulas de harmonia no Instituto Nacional de Música).

Assim, Virgínia analisa a entrada de Pixinguinha no mercado fonográfico, como principal arranjador da Victor a partir de 1927 e até o final dos anos 1930, quando foi substituído por Radamés Gnattali como formador da música popular brasileira como produto fonográfico moderno, especializado, profissional e sofisticado. Muitos dos sambas que consagraram o que depois veio a se chamar a “era de ouro” da música popular devem bastante tanto aos arranjos orquestrais de Pixinguinha quanto à voz de Francisco Alves, Mário Reis ou Carmen Miranda ou quanto à criatividade de cancionistas como Noel Rosa, Lamartine Babo, Dorival Caymmi, entre outros que tiveram o trabalho de Pixinguinha como pano de fundo nos estúdios da Victor.

Bloqueado à atividade profissional no teatro e no cinema devido à cor de sua pele, Pixinguinha foi pioneiro no novo mercado que se formava com a profissionalização nas gravadoras. Superado por Radamés Gnattali como modelo de orquestrador moderno no final da década de 1930, com menos de 50 anos de idade Pixinguinha já começava a ser visto como representante da tradição e do passado, indo para o rádio como o líder musical da chamada “Velha Guarda”, ou assumindo o posto de saxofonista no regional de Benedito Lacerda, a quem cedia parcerias de suas músicas em troca de ajuda financeira nos momentos de crise da carreira.

Esta história é traçada no livro com uma abordagem que interliga vida artística com atuação profissional, música popular e inovações tecnológicas, projetos político-institucionais e interesses comunitários, atividade lucrativa e ideal artístico, veneração de um ícone e ao mesmo tempo negação dos espaços de sua atuação como negro. Demonstrando como é impossível desemaranhar esta teia que, no Brasil, liga a música aos grandes dilemas nacionais, da inserção do negro e das classes populares, da dicotomia entre cultura baixa e cultura de elite, entre arte idealizada e mercado de entretenimento.

Analisar a escuta de Pixinguinha permite ao Brasil olhar a si mesmo no espelho, se encontrar nos dilemas da música popular, quando sua prática profissional, sua história e sua memória se construíram em torno de um de seus personagens mais significativos.

::: A escuta singular de Pixinguinha ::: Virgínia de Almeida Bessa ::: Alameda, 2010, 344 páginas