28.12.11

Pe. Daniel Lima–Prêmio Fundação Biblioteca Nacional de Poesia.

 

Aos 95 anos de idade Daniel Lima ganha o prêmio de poesia da FBN com o seu primeiro livro, Poemas,editado pela Companhia Editora de Pernambuco, CEPE.

 

Os versos a seguir, fazem parte da obra  premiada

*

Ao nasceres, tinhas o prefigurado rosto
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.

Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste

-

Há misérias nos homens
Os anjos cantam nas nuvens.

Era Sexta-feira Santa
Cristo morria.
Judas se enforcava.
E eu tomava sorvete.

-

Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.

Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.

-

Minha mãe era feita de incertezas.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus solhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.

E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.

Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.

12.11.11

Cecília Meireles

(Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964)



SONETO ANTIGO

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.
Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.
O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.
Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.
Cecília Meireles
 
MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Cecília Meireles
 
EPIGRAMA NÚMERO DOIS

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste.
Cecília Meireles
 
No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta.
 
Cecília Meireles

15.10.11

Congresso Brasileiro de Escritores - União Brasileira de Escritores - UBE

CONGRESSO BRASILEIRO DE ESCRITORES

de 12 a 15 de novembro de 2011 - Em Ribeirão Preto - SP.
Visite o sítio da UBE ou comunique-se
http://www.ube.org.br/congresso/programacao.asp?id=1
Tel:             (11) 3231-4447      
Telefax: (11) 3231-3669
E-mail: ube@ube.org.br

14.8.11

O Corvo, Edgar Allan Poe

traduzido por Fernando Pessoa


                      1

                      Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
                      Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
                      E já quase adormecia, ouvi o que parecia
                      O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
                      "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
                           É só isto, e nada mais."

                      2

                      Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
                      E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
                      Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
                      P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
                      Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
                           Mas sem nome aqui jamais!

                      3

                      Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
                      Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
                      Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
                      "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
                      Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
                           É só isto, e nada mais".

                      4

                      E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
                      "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
                      Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
                      Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
                      Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
                           Noite, noite e nada mais.

                      5

                      A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
                      Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
                      Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
                      E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
                      Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
                           Isso só e nada mais.

                      6

                      Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
                      Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
                      "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
                      Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
                      Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
                           "É o vento, e nada mais."

                      7

                      Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
                      Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
                      Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
                      Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
                      Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
                           Foi, pousou, e nada mais.

                      8

                      E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
                      Com o solene decoro de seus ares rituais.
                      "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
                      Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
                      Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
                           Disse o corvo, "Nunca mais".

                      9

                      Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
                      Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
                      Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
                      Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
                      Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
                           Com o nome "Nunca mais".

                      10

                      Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
                      Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
                      Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
                      Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
                      Todos - todos já se foram. Amanhão também te vais".
                           Disse o corvo, "Nunca mais".

                      11

                      A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
                      "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
                      Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
                      Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
                      E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
                           Era este "Nunca mais".

                      12

                      Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
                      Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
                      E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
                      Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
                      Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
                           Com aquele "Nunca mais".

                      13

                      Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
                      À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
                      Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
                      No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
                      Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
                           Reclinar-se-á nunca mais!

                      14

                      Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
                      Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
                      "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
                      O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
                      O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
                           Disse o corvo, "Nunca mais".

                      15

                      "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
                      Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
                      A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
                      A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
                      Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
                           Disse o corvo, "Nunca mais".

                      16

                      "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
                      Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
                      Dize a esta alma entristecida se no Édem de outra vida
                      Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
                      Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
                           Disse o corvo, "Nunca mais".

                      17

                      "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
                      Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
                      Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
                      Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
                      Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
                           Disse o corvo, "Nunca mais".

                      18

                      E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
                      No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
                      Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
                      E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
                           Libertar-se-á... nunca mais!

9.7.11

"O professor de piano", de Rinaldo Fernandes

 

Artigo Publicado sob o título Nó no Leitor

Fonte: Amálgama

por Renato Tardivo  Psicanalista, professor universitário e escritor, publicou recentemente o livro de contos Do avesso (Com-arte, 2010).

Renato Tardivo

-- O Professor de Piano, contos de Rinaldo Fernandes --

Rinaldo de Fernandes, contista, romancista, professor universitário e autor de colunas sobre literatura já havia dado mostras de seu talento como escritor nos dois livros anteriores. O perfume de Roberta

(2005), coletânea de contos, inclui narrativas de muito vigor e apresenta um autor maduro, com domínio sobre a própria palavra. Os contos “A morta”, “O perfume de Roberta”, o excepcional “Duas margens” (sem exagero, o melhor conto escrito em língua portuguesa nos últimos anos), “O cavalo” – que juntamente com “Ilhado” e “Oferta” retorna em seu livro mais recente – são alguns dos muitos pontos altos do livro de estreia. Depois, Rinaldo publica o romance Rita no pomar

(2008), que o consagra como finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

Muito bem. Aqueles que consideram o conto um gênero menor talvez se surpreendam com o fato de o autor retornar, em O professor de piano

(2010), às narrativas breves – no geral, ainda mais enxutas que as do primeiro livro. Com efeito, Rinaldo de Fernandes contraria a tese segundo a qual o conto é uma ponte a ser atravessada pelo escritor que, se quiser se tornar grande, tem de aterrar e, mais do que isso, constituir-se no gênero romance. Aliás, a temática do “constituir-se” está presente, senão em todos, na maioria dos 11 contos do novo livro (que, ao final, ainda conta com um interessante ensaio de Regina Zilberman).

Em “Beleza”, texto que abre o conjunto, o narrador, oprimido pelo pai, forja seu continente montado numa égua. Em “O professor de piano”, narrativa que dá nome ao livro, o narrador rememora o passado traumático no âmbito da família e revela o lado “aluno” que ainda (sempre?) o acompanha.

Via de regra, as personagens centrais encampam o lugar da exclusão – expressam sua (in)satisfação, “gritam palavrões”, ejaculam um gozo doído; aportam, um tanto à revelia, numa ilha; erram “cavalgando no calçadão da orla”; observam, através de “dois buracos para os meus olhos”, o desenrolar das histórias dos outros que, trazidas para dentro de seus olhos, (com)fundem-se com as suas próprias.

Então, as páginas deste livro – um instantâneo – desenham meticulosamente a confusão mais intrigante: quem vê e quem é visto? quem ensina e quem aprende? quem caça e quem é caçado? O narrador assiste a tudo – inclusive ao que lhe escapa. “O caçador” lembra muito o célebre conto “Casa tomada”, de Cortázar, só que às avessas. É neste nó, tão prazeroso quanto doído – e não seria este o caso das melhores lições? –, que as linhas de O professor de piano enredam o leitor. “Onde está o agente”, último conto, não por acaso ambientado no futuro, talvez pudesse ser expresso da seguinte forma: Onde está o a gente, isto é, onde estamos nós (?). Uma pergunta? afirmação? frase de efeito? Não importa.

Fica a lição de que, para se constituir e, no melhor dos casos, encontrar a própria sinfonia, precisa-se primeiro acostumar-se “à ideia de que, na casa, cabemos os três”. Daí, “o baque fundo de uma porta se fechando”, o fim de tudo, pode até mesmo apontar para um novo começo.

::: O professor de piano ::: Rinaldo de Fernandes ::: 7 Letras, 2010, 96 páginas :::

13.6.11

“Borges: Uma vida”, de Edwin Williamson

Borges por Williamson

Posted: 02 Jun 2011 09:35 AM PDT

Autor do Texto: Maurício Santoro

Fonte:  Amálgama

-- "Borges: Uma vida", de Edwin Williamson --

“Todo escritor respeitável deveria ter um biógrafo inglês”, observou García Márquez. Edwin Williamson , que leciona literatura na Universidade de Oxford, ilustra o princípio. Sua estupenda biografia do escritor argentino Jorge Luís Borges mostra um autor apaixonado e engajado politicamente, muito distinto do retrato habitual do homem perdido entre bibliotecas, labirintos, tigres e espelhos. Borges teve longa vida (1899-1986), mas só conquistou fama internacional na velhice. Williamson divide sua produção artística em três etapas: a primeira é marcada pelo nacionalismo cultural e pelos vínculos com as vanguardas europeias; a segunda caracteriza-se pelo ceticismo e pessimismo, com forte influência de Franz Kafka; a terceira é de certo retorno da paixão juvenil. Em todas, Borges destacou-se por romper com a visão de que a arte deveria ser espelho da realidade, considerando-a como um mundo em si mesma e elaborando gêneros considerados inferiores, como romance policial, de aventuras, fantasia e ficção científica.

O escritor nasceu em Buenos Aires, em família de herois da Independência – seus dois avôs foram coronéis nas guerras contra a Espanha – mas que perdeu poder e prestígio para a nova elite dos estancieiros. A mãe de Borges, Leonor, era obecada em restaurar a grandeza de seus antepassados e esperava que o filho fosse o instrumento dessa vingança social. O pai, Jorge, era um literato frustrado, boêmio que ensaiou rebeliões contra a ordem vigente, e sonhava que o herdeiro completasse o que começou. Borges foi sempre dividido entre esses opostos,  situação que Williamson chama de “dilema entre espada e punhal”, no qual “ambos eram reações ao mesmo medo: o de ser desprezado, de perder o senso de identidade, de não ser ninguém.”

“Se eu tivesse que indicar o evento principal da minha vida, diria que é a biblioteca de meu pai”, escreveu Borges. Embora o filho não se destacasse nos estudos – era demasiado tímido, gago e míope, intimidado pelas outras crianças e nunca terminou o ensino médio – foi desde cedo um leitor voraz. Por sete anos a família viveu na Europa, principalmente na Suíça, onde o pai foi fazer um tratamento de saúde por conta da catarata que lhe tirava a visão. A estadia europeia coincidiu com a eclosão da I Guerra Mundial e o jovem Borges fez várias amizades nos círculos de vanguarda artística. De volta a Buenos Aires, tornou-se por algum tempo o líder de um grupo semelhante na capital argentina, defendendo nacionalismo cultural e identidade própria ao país, rejeitando visões de “submeter-se a ser quase norte-americano ou quase europeu, sempre quase outro”. Fundou revistas, publicou poemas e ensaios. Parecia no curso de uma brilhante carreira literária, mas seus problemas emocionais o lançaram em depressão e quase no suicídio.

Borges era infeliz e arredio com as mulheres. Uma iniciação sexual fracassada com uma prostituta em Genebra o traumatizou por anos. Em Buenos Aires, viveu uma sucessão de romances desastrosos, em especial com sua prima Norah Lange, beldade ruiva que ascendia como escritora e o trocou por um rival na literatura, Oliverio Girondo. O caso com Norah não era conhecido em detalhes, mas Williamson levantou dados importantes. Ela inspirou obras clássicas de Borges, como os dois “English Poems” e o conto “O Aleph”. Além dela, outras paixões fulminantes foram com Haydée Lange (irmã de Norah) e com a escritora e militante comunista Estela Canto.

O rompimento com Norah, em 1929, deixou Borges 14 anos sem escrever poesia, e seu estilo de prosa passou a ser mais sombrio, como nos magníficos contos reunidos em Ficções

. A política também contou. O jovem escritor era ativista da União Cívica Radical, que propunha reformas contra a oligarquia que dominava a Argentina e foi afastado do poder após o golpe militar de 1930, que introduziu a “década infame”, de governos conservadores apoiados nas Forças Armadas e nas fraudes eleitorais. Borges se rebelou contra essas práticas, defendendo a democracia e envolvendo-se até em brigas de rua. Em 1943 houve outro golpe, que culminou na ascensão do coronel Juan Domingo Perón. Borges o via como versão local dos tiranos fascistas e não reconhecia suas importantes políticas sociais. Nos anos 50, apoiou a ditadura que depôs Perón, acreditando que a democracia era inviável na Argentina. Data dessa época o conto “Ragnarok”, no qual multidão invade a universidade deixando rastro de destruição apocalíptica.

Borges teve apenas empregos em horário parcial como jornalista e tradutor até completar 40 anos, quando seu pai morreu, e obteve então modesto posto como bibliotecário. Os peronistas tentaram transferi-lo para a função de fiscal de aves no mercado municipal, mas ele demitiu-se em protesto. Após a queda de Perón, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional e professor de literatura na Universidade de Buenos Aires. Começou um período tranquilo em sua vida, apesar do rápido avanço da perda de visão: “Eu me deixo viver, para que Borges possa tramar sua literatura, e essa literatura me justifica.” Sua rotina era dominada pela mãe, que o chamava de “menino” e os dois eram às vezes confundidos com marido e mulher.

O ponto de virada foi 1961, quando ganhou o International Publishers´ Prize. Foi o início da fama global, virando ícone cultural citado pela Nouvelle Vague e Rolling Stones. A ironia é que Borges estava em seu período mais conservador, dizendo que a democracia era “uma superstição” e elogiando as ditaduras militares na Argentina e no Chile. É provável que isso tenha lhe custado a chance de receber o Nobel de Literatura, mas “Borges achava que era vergonhoso esconder suas crenças políticas para ganhar um prêmio.”

O que mudou sua vida, novamente, foi o amor. Em 1967 ele teve breve casamento com Elsa Astete, viúva com quem tivera flerte na juventude. Dona de casa na província de Buenos Aires, sentiu-se deslocada no ambiente de intelectuais cosmopolitas do marido. Borges começou uma nova, longa e surpreendemente bem-sucedida relação com María Kodama, quarenta anos mais jovem do que ele e sua aluna na universidade. Kodama às vezes desperta reações tão fortes como as de Yoko Ono, mas Williamson lhe traça retrato simpático, afirmando que foi fundamental para dar afeto e serenidade na década e meia que passou ao lado de Borges. Nesse período ele apazigou muitos dos seus fantasmas e retomou a militância política, desta vez defendendo a democracia e criticando a ditadura militar argentina e a guerra das Malvinas. Ao ser diagnosticado com câncer terminal, optou por ir morrer na Suíça, em elogio à tolerância que caracteriza a cidade de Genebra.

::: Borges: Uma vida ::: Edwin Williamson (trad. Pedro Maia Soares) :::
::: Cia. das Letras, 2011, 664 páginas

9.6.11

Amor e seu tempo

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

2.6.11

Reconsiderando Pixinguinha

Fonte:  Amálgama

por André Egg

-- "A escuta singular de Pixinguinha: História e música popular no Brasil dos anos 1920 e 1930", de Virgínia de Almeida Bessa --

Em dezembro de 2010 a editora Alameda lançou em livro um trabalho que já tinha se tornado referência para pesquisadores da Música Popular Brasileira. A dissertação de mestrado de Virgínia Bessa, Um bocadinho de cada coisa: Trajetória e obra de Pixinguinha. História e música popular no Brasil dos anos 20 e 30, defendida em julho de 2007 no Programa de História Social da FFLCH-USP, sob orientação de José Geraldo Vinci de Moraes.

Pelos próprios trabalhos, e pelo trabalho de seus orientandos, Vinci já se consagrou como um dos principais responsáveis pela necessária renovação metodológica capaz de fazer surgir uma nova história do Brasil através de sua música – ou uma nova visão da música brasileira através da pesquisa histórica: fique ao gosto do freguês. Porque a interação entre estes dois campos do conhecimento não se faz sem fricções. Escrever história da música se consagrou na Europa como um campo da crítica musical, em apoio ao circuito da música de concerto, às análises de obras e às biografias laudatórias dos grandes gênios – coisa que serve para criar um mercado de música mas atrapalha muito o acesso a algo próximo de uma verdade histórica ou de uma compreensão crítica do passado.

Na música popular o caminho foi o mesmo. À medida em que os memorialistas superavam o estigma de que a música popular não merecia a escrita de sua história, foram erigindo as histórias da música popular brasileira sob os mesmos moldes que tinham consagrado a tradição clássica europeia: um cânone de autores, que mereciam biografias mitificadas, erigidos ao posto de gênios — no caso da música popular brasileira, depositários de uma pureza original perdida em algum lugar do passado.

Se algum músico se prestou a esse tipo de tratamento foi Pixinguinha, que entrou na década de 1940 já visto como o lendário representante de um passado musical idealizado, ao mesmo tempo em que era substituído como arranjador no mercado fonográfico e radiofônico pela figura mais representativa de modernidade que era Radamés Gnattali. De pronto, uma geração de memorialistas que se articulou em torno da Revista de Música Popular, do trabalho na Rádio Nacional, e das primeiras tentativas coerentes de escrever a história da música popular, colocaram Pixinguinha neste pedestal de herdeiro e representante da tradição e da pureza original da música popular brasileira.

Em seu trabalho, agora publicado em livro com o título A escuta singular de Pixinguinha: História e música popular no Brasil dos anos 1920 e 1930

, Virgínia Bessa fura o bloqueio que nos separa da compreensão do papel de Pixinguinha como importante personagem de um momento chave da constituição do mercado da música popular urbana e da profissionalização do músico popular. Na história traçada pela autora, tão importante quanto a produção de Pixinguinha como flautista, compositor, arranjador, performer, saxofonista, é sua atuação como representante da cultura negra nos divertimentos populares do Rio de Janeiro ou de Paris. E sua tentativa de atuação no nascente mercado do teatro musicado, bloqueada pela hierarquia racial que se impunha com a profissionalização. Bloqueio que Pixinguinha tentava superar como podia, fazendo de tudo um pouco, mobilizando uma escuta variada (da música sertaneja de cocos e emboladas, passando pelo choro-maxixe fertilizado pelo ragtime e pelo foxtrot, além das aulas de harmonia no Instituto Nacional de Música).

Assim, Virgínia analisa a entrada de Pixinguinha no mercado fonográfico, como principal arranjador da Victor a partir de 1927 e até o final dos anos 1930, quando foi substituído por Radamés Gnattali como formador da música popular brasileira como produto fonográfico moderno, especializado, profissional e sofisticado. Muitos dos sambas que consagraram o que depois veio a se chamar a “era de ouro” da música popular devem bastante tanto aos arranjos orquestrais de Pixinguinha quanto à voz de Francisco Alves, Mário Reis ou Carmen Miranda ou quanto à criatividade de cancionistas como Noel Rosa, Lamartine Babo, Dorival Caymmi, entre outros que tiveram o trabalho de Pixinguinha como pano de fundo nos estúdios da Victor.

Bloqueado à atividade profissional no teatro e no cinema devido à cor de sua pele, Pixinguinha foi pioneiro no novo mercado que se formava com a profissionalização nas gravadoras. Superado por Radamés Gnattali como modelo de orquestrador moderno no final da década de 1930, com menos de 50 anos de idade Pixinguinha já começava a ser visto como representante da tradição e do passado, indo para o rádio como o líder musical da chamada “Velha Guarda”, ou assumindo o posto de saxofonista no regional de Benedito Lacerda, a quem cedia parcerias de suas músicas em troca de ajuda financeira nos momentos de crise da carreira.

Esta história é traçada no livro com uma abordagem que interliga vida artística com atuação profissional, música popular e inovações tecnológicas, projetos político-institucionais e interesses comunitários, atividade lucrativa e ideal artístico, veneração de um ícone e ao mesmo tempo negação dos espaços de sua atuação como negro. Demonstrando como é impossível desemaranhar esta teia que, no Brasil, liga a música aos grandes dilemas nacionais, da inserção do negro e das classes populares, da dicotomia entre cultura baixa e cultura de elite, entre arte idealizada e mercado de entretenimento.

Analisar a escuta de Pixinguinha permite ao Brasil olhar a si mesmo no espelho, se encontrar nos dilemas da música popular, quando sua prática profissional, sua história e sua memória se construíram em torno de um de seus personagens mais significativos.

::: A escuta singular de Pixinguinha ::: Virgínia de Almeida Bessa ::: Alameda, 2010, 344 páginas

26.5.11

Um dos mais belos poemas dedicados aos namorados – por Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond por Borges
por Borges

Aos Namorados do Brasil

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Dai-me, Senhor, assistência técnica
para eu falar aos namorados do Brasil.
Será que namorado algum escuta alguém?
Adianta falar a namorados?
E será que tenho coisas a dizer-lhes
que eles não saibam, eles que transformam
a sabedoria universal em divino esquecimento?
Adianta-lhes, Senhor, saber alguma coisa,
quando perdem os olhos
para toda paisagem ,
perdem os ouvidos
para toda melodia
e só vêem, só escutam
melodia e paisagem de sua própria fabricação?
Cegos, surdos, mudos - felizes! - são os namorados
enquanto namorados. Antes, depois
são gente como a gente, no pedestre dia-a-dia.
Mas quem foi namorado sabe que outra vez
voltará à sublime invalidez
que é signo de perfeição interior.
Namorado é o ser fora do tempo,
fora de obrigação e CPF,
ISS, IFP, PASEP,INPS.
Os códigos, desarmados, retrocedem
de sua porta, as multas envergonham-se
de alvejá-lo, as guerras, os tratados
internacionais encolhem o rabo
diante dele, em volta dele. O tempo,
afiando sem pausa a sua foice,
espera que o namorado desnamore
para sempre.
Mas nascem todo dia namorados
novos, renovados, inovantes,
e ninguém ganha ou perde essa batalha.
Pois namorar é destino dos humanos,
destino que regula
nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso.
E quem vive, atenção:
cumpra sua obrigação de namorar,
sob pena de viver apenas na aparência.
De ser o seu cadáver itinerante.
De não ser. De estar, e nem estar.
O problema, Senhor, é como aprender, como exercer
a arte de namorar, que audiovisual nenhum ensina,
e vai além de toda universidade.
Quem aprendeu não ensina. Quem ensina não sabe.
E o namorado só aprende, sem sentir que aprendeu,
por obra e graça de sua namorada.
A mulher antes e depois da Bíblia
é pois enciclopédia natural
ciência infusa, inconciente, infensa a testes,
fulgurante no simples manifestar-se, chegado o momento.
Há que aprender com as mulheres
as finezas finíssimas do namoro.
O homem nasce ignorante, vive ignorante, às vezes morre
três vezes ignorante de seu coração
e da maneira de usá-lo.
Só a mulher (como explicar?)
entende certas coisas
que não são para entender. São para aspirar
como essência, ou nem assim. Elas aspiram
o segredo do mundo.
Há homens que se cansam depressa de namorar,
outros que são infiéis à namorada.
Pobre de quem não aprendeu direito,
ai de quem nunca estará maduro para aprender,
triste de quem não merecia, não merece namorar.
Pois namorar não é só juntar duas atrações
no velho estilo ou no moderno estilo,
com arrepios, murmúrios, silêncios,
caminhadas, jantares, gravações,
fins-de-semana, o carro à toda ou a 80,
lancha, piscina, dia-dos-namorados,
foto colorida, filme adoidado,,
rápido motel onde os espelhos
não guardam beijo e alma de ninguém.
Namorar é o sentido absoluto
que se esconde no gesto muito simples,
não intencional, nunca previsto,
e dá ao gesto a cor do amanhecer,
para ficar durando, perdurando,
som de cristal na concha
ou no infinito.
Namorar é além do beijo e da sintaxe,
não depende de estado ou condição.
Ser duplicado, ser complexo,
que em si mesmo se mira e se desdobra,
o namorado, a namorada
não são aquelas mesmas criaturas
que cruzamos na rua.
São outras, são estrelas remotíssimas,
fora de qualquer sistema ou situação.
A limitação terrestre, que os persegue,
tenta cobrar (inveja)
o terrível imposto de passagem:
"Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer!
Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada
na sola dos sapatos..."
Ou senão:
"Desiste! Foge! Esquece!"
E os fracos esquecem. Os tímidos desistem.
Fogem os covardes.
Que importa? A cada hora nascem
outros namorados para a novidade
da antiga experiência.
E inauguram cada manhã
(namoramor)
o velho, velho mundo renovado.

16.5.11

O jornalista e poeta Ricardo Anísio lança nesta terça 17 de maio mais um livro.


"Nessa terça-feira (17) estarei autografando o novo livro “Florilégio” (Poemas) e colocando à disposição para venda o anterior “Crônicas Musicais” (textos sobre astros da música mundial). 
Será no Terraço Brasil (Av. Cabo Branco, logo após o Tererê) a partir das 20 horas. Conto com sua presença."

Adicionando mais uma contribuição ao mundo literário, que, tem na poesia o néctar das humanas expressões de linguagem, percepção, sentimento e pressentimento do mundo, aí está o intelectual Ricardo Anísio, a nos presentear para além dos seus textos sobre  música, compositores, intérpretes nacionais e forâneos; ademais da sua pena autêntica e franca; o seu universo intimista. Debates recônditos da alma do poeta,  grafados no seu novo livro Florilégio - poemas. 
Uma parada obrigatória para adquirirmos sua obra autografada e  festejarmos o seu autor.

Waldir Pedrosa Amorim 


18.4.11

125 anos de Manuel Bandeira


125 anos de Manuel Bandeira – 

Recife programação

Postado em


No dia 19 de abril de 1886, há 125 anos, nasceu um recifense que veio a se tornar um dos maiores escritores do País. Para celebrar a data e difundir sua obra, a Secretaria de Cultura  realiza várias ações em parceria com diversas escolas e artistas locais no Espaço Pasárgada e em outros pontos da Região Metropolitana o Mês de Manuel Bandeira.
De 12 a 19 de abril, o casarão onde o poeta viveu parte de sua infância transforma-se em palco de saraus literários, peças teatrais e declamação de poemas. Tudo isso protagonizado por estudantes de diversas escolas da região metropolitana do Recife. Selma Coelho, coordenadora do Espaço, afirma que “os alunos tiveram a oportunidade de conhecer um pouco da vida e da obra do escritor nas últimas semanas e cada escola preparou uma atividade para homenageá-lo”.
A programação da semana comemorativa também conta com debates, oficinas, exibição de filmes e “plantões literários”; rodas de conversa com escritores pernambucanos. Entre eles, Olímpio Bonald, Sérgio Leandro, Mídio Cavalcante de Albuquerque e Ana Maria César. O Espaço Pasárgada também segue de portas abertas ao público que desejar se tornar um “Amigo da Biblioteca” doando livros de Manuel Bandeira à instituição. Leia mais: http://notape.com.br/blog/?p=2015
...................... Intervenções Urbanas
Programação

Terça-feira, dia 19
Recital poético em que poetas declamam seus poemas preferidos de Manuel Bandeira para alunos de escolas do Recife. Participação dos poetas Lucila Nogueira, Valmir Jordão, Pedro Américo de Farias, Ícaro Tenório e Susana Morais.
Local: Estátua de Manuel Bandeira – Rua da Aurora, próxima ao Ginásio Pernambucano

Domingo, dia 01 de maio-literária com o ator Adriano Cabral.
Local: Parque 13 de Maio

Segunda-feira, dia 25
intervenção urbana em diversas paradas de ônibus do Recife, promovida pela Releitura – Rede de Bibliotecas Comunitárias da Região Metropolitana.Poemas de Manuel Bandeira são declamados na voz de Lucila Nogueira, Valmir Jordão, Jomard Muniz de Brito, Pedro Américo de Farias, Ícaro Tenório e Susana Morais e circulam gravados em bicicletas de som por vários bairros da RMR.Espaço Pasárgada (Rua da União, 263 – Boa Vista. Recife-PE)
16h30 – Tarde com Bandeira -
15h – O melhor divertimento para crianças – Apresentação poético
Bandeira nas Paradas -
De 26 a 29
De bicicleta com Bandeira -
Programação do Espaço Pasárgada
Quarta-feira, dia 13
9h às 17h – Declamação de poemas, apresentação de charges e rap (Alunos do ensino médio da Escola Edson Murin Fernandes)
14h às 17h – Plantão literário com o escritor Olímpio Bonald
Quinta-feira, dia 14
9h às 12h – Apresentação teatral (Alunos do ensino fundamental da Escola Luiz de Camões)
14h às 17h – Visitas pedagógicas e plantão literário com o escritor Sérgio Leandro
18h às 21h – CinePasárgada: Exibição do curta-metragem O Poeta do Castelo (1959), de Joaquim Pedro de Andrade. No filme, versos de Manuel Bandeira, lidos pelo próprio poeta, acompanham e transfiguram os gestos banais da rotina em seu pequeno apartamento no centro do Rio de Janeiro. Na sequência, serão exibidos os filmes Soneto do Desmantelo Blue (1992), de Cáudio Assis, Clandestina Felicidade (1998), de Marcelo Gomes e Beto Normal, por fim, O Triunfo (2007), de Geórgia Alves.
Sexta-feira, dia 15
9h às 12h – Plantão Literário com o escritor Mídio Cavalcanti de Albuquerque
14h às 17h – Sarau teatralizado (Alunos do Viver Colégio e Curso)
14h às 17h – Plantão Literário com a escritora Ana Maria Cesar
Segunda-feira, dia 18
9h às 12h – Recital de poemas: O Bicho e A estrela da manhã (Alunos do Liceu de Artes de Ofícios)
14h às 17h – Apresentações e teatro e música (Alunos da Escola Técnica Estadual Prof. Agamenon Magalhães)
16h – Apresentação de vídeos (Alunos da Escola Maria Paz Brandão)
Terça-feira, dia 19
9h – Mesa: O Recife de Manuel Bandeira (Palestrantes: André Cervisck e Selma Vasconcelos. Mediadora: Selma Coelho. Performance: Adriano Cabral. Apresentação: Geninha da Rosa Borges e Myrian Brindeiro). Relançamento do livro de João Cabral de Melo Neto)
14h às 17h: Oficina – Experiência poética através da imagem, com João Lin.
18h: Café com Poesia – Lançamento do CD “Myrian Brindeiro canta Manuel Bandeira”
Sexta-feira, dia 29
19h – Lançamento da Exposição Beba Poesia, com trabalhos de alunos frequentadores da Releitura – Rede de Bibliotecas Comunitárias da Região Metropolitana.
Leia mais......http://notape.com.br/blog/?p=2015

14.4.11

A poesia de Manoel de Abreu (1892-1962)



 No sentimento



Na razão pura
não
se distingue a mão que perdoa
da mão que castiga.

Mas ah! no sentimento
a mão que perdoa
é um grande bem
tu me amas
rumor de aplausos
no ouro da manhã vamos
jogar
sinto em mim a primavera a imensa
primavera
do carinho da gratidão do triunfo
e da alegria

E a mão que castiga
me revolta
é impossível
basta
nunca mais
no meu sangue repercute
todo o clamor
da fome do martírio da vingança
e do abandono.

Fonte: Manoel Dias de Abreu in: Substância 165:167 São Paulo Ed.Ltda-1928. Esgotado, Acervo pessoal.

A MÃO NO ARADO

RUY BELO 


Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! Como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
Vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
Até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
E haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela
morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
E não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com
que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

In: Eugênio de Andrade - Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa. – Campo das Letras Editores, 1999, Porto Portugal

9.4.11

Um primoroso texto chamado Sartre de Beauvoir

 
por Luciano Oliveira
Fonte: Amálgama http://www.amalgama.blog.br/03/2011/sartre-de-beauvoir/
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir formaram durante meio século um casal mágico para minha geração  aquela que nos anos 60 descobriu o marxismo, encantou-se com a revolução cubana e deu de cara com a ditadura militar; e, mesmo morando numa pequena cidade do interior do Brasil (como era o meu caso), começou a ouvir falar em amor livre, sobre que havia toda uma mitologia em torno da Suécia (até hoje não sei por que exatamente a Suécia) e dos jovens suecos que “faziam amor” (anglicismo que entrou no nosso vocabulário) quando lhes desse na veneta! Sartre e Beauvoir, com seu “casamento aberto”, estimulavam uma imaginação onde figuravam, percebo hoje, muita inocência e alguma má-fé: afinal, nós, os homens, certamente estávamos preparados para a liberdade sexual de que Sartre desfrutava, mas não creio que estivéssemos preparados para que nossas namoradas se comportassem como Simone!… Aliás, sabemos hoje que entre os dois as coisas não eram tão simples assim. Quem leu Tête-à-Tête da americana Hazle Rowley, o livro que trata da relação “igualitária” que Jean-Paul e Simone prescreveram para si, fica com a impressão de que ela sofreu com a vagabundagem sexual que ele, bem mais do que ela, exerceu com uma inconseqüência que chegou por vezes a ser desrespeitosa.
A última palavra contém, propositadamente, certo despropósito! Jean-Paul e Simone encarnaram, àquela época, tudo o que havia de mais radical em matéria de recusa ao que chamávamos, com uma insolência onde não faltava também alguma inocência, de valores burgueses. “Respeitabilidade”  com aspas, naturalmente  era um deles. Foram por 50 anos um casal realmente sui generis: sempre habitando perto um do outro, nunca moraram juntos; e sentimentos de posse estavam explicitamente excluídos do pacto de indissolubilidade (não-matrimonial) que tinham para toda a vida  na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Que, aliás, cumpriram. Pelo menos, ela cumpriu! É curioso como, na velhice, Simone terminou repetindo o destino de boa parte das mulheres que, normalmente mais longevas do que os homens, terminam cuidando dos seus maridos com um desvelo de que eles geralmente não são capazes. Quem já leu A Cerimônia do Adeus, em que ela descreve os anos de decadência do seu companheiro, fica impressionado com a capacidade de doação que ela tinha. Morto, ela vai ao quarto de hospital onde ele faleceu e tem uma idéia maluca: descobri-lo e deitar-se uma última vez ao lado do seu corpo nu. Roído pela diabetes e problemas circulatórios, partes dele já estavam gangrenadas, e a enfermeira chama-lhe a atenção energicamente para a possibilidade de infecção: “Não. Cuidado… a gangrena.” Só então, diz ela, compreendeu “a verdadeira origem de suas escaras”. Mesmo deixando o lençol, alonga-se junto do defunto e dorme um momento. O seu relato termina com uma desencantada e racional, mas comovente declaração de amor: “Sua morte nos separa. A minha morte não nos reunirá. Assim são as coisas: já é muito que nossas vidas tenham podido se acordar durante tanto tempo.” Isso foi em 1980. Seis anos depois, ela também partiu para o grande mistério.
Recentemente, no curso de uma revisita à obra de Sartre, é que me dei conta de que nunca a tinha lido! E acho que não fui o único. Fiquei pensando sobre isso. A impressão que tenho é a de que as pessoas da minha geração  pelo menos aquelas do mundo macho e de esquerda de que eu fazia parte  nunca a consideraram uma pensadora a ser levada na mesma conta em que tínhamos seu companheiro. Pensando bem, ela sempre foi a “mulher de Sartre”. Pensando melhor ainda, não me lembro nunca de ter ouvido alguém referir-se a ele como o “homem de Beauvoir”. Vejo hoje, nisso (ai, as voltas que o mundo dá!), uma espécie de reprodução, mesmo que fosse inconsciente, do papel subalterno da mulher no mundo  desde que o mundo é mundo , e que ela, com brilho e uma erudição de tirar o fôlego, analisou e denunciou numa obra monumental a que também nunca tinha dado maior importância: O Segundo Sexo, publicada em 1949, quando ela tinha “apenas” 41 anos. Li-o recentemente, impulsionado por um insight que tive um dia desses, que alguns amigos (sobretudo amigas…) olharam meio de banda, mas no qual continuo apostando, sobretudo agora depois de ter percorrido suas cerca de mil páginas: Simone de Beauvoir é autora de uma obra que, com o passar do tempo e as peripécias da história, tornou-se mais importante do que a de Jean-Paul Sartre! Por quê?
Porque da mesma maneira que Marx, que não inventou o socialismo, tornou-se o nome mais importante do movimento operário, Beauvoir, que não inventou o feminismo, tornou-se a teórica mais importante da  como costuma se dizer  única revolução que deu certo no século XX: a das mulheres! E Sartre?
Sartre. Tenho a impressão de que sua obra teórica está bastante datada. O que não diminui a importância de sua participação no pensamento e na história política do século findo. Entre o final da segunda guerra e inícios dos anos 80, o nome de Sartre, sem exagero, refulgiu no mundo inteiro  dando continuidade a uma hegemonia cultural da França que se iniciou com o Iluminismo e ainda não perdeu de todo o seu prestígio (basta considerar o que ocorre hoje em dia com um nome como o de Michel Foucault). Contam que, no conturbado Maio de 68, com a França literalmente paralisada por um movimento que parecia ter saído dos eixos de qualquer razoabilidade, o General De Gaulle foi aconselhado por seus acólitos a mandar a polícia recolher o velho Sartre que, animando um auditório de estudantes gritando palavras de ordem contra todo tipo de autoridade, tinha ocupado a veneranda Sorbonne. De Gaulle, do alto dos seus quase dois metros de altura, teria replicado com sabedoria: “Não se prende Voltaire!”. É isso. Sartre foi, em determinado momento, o Voltaire do século XX  aquele que, corajosa e semelhantemente ao que seu ilustre antecessor havia feito em relação à intolerância religiosa, decidiu afrontar a sociedade de privilégios em que nasceu e afirmar que “o ponto de vista dos deserdados” é o mais verdadeiro em qualquer circunstância.
Hoje já não acreditamos nessa simplificação, mas pouco importa. O que vale a pena recordar é que esse é, por assim dizer, o “segundo Sartre”, aquele da fase marxista que todos nós conhecíamos e repetíamos mesmo sem ter lido A Crítica da Razão Dialética  onde se encontra a proclamação de que o marxismo seria “a filosofia insuperável do nosso tempo”; o Sartre que pôs em voga uma palavra mágica que chegou até Aracaju e o interior do estado de Sergipe onde eu vivia: “engajamento”! Mas é esse Sartre, justamente, que, se ouso dizer, é um pensador menor  como foi Voltaire no seu tempo, uma figura de inexcedível grandeza na defesa dos valores das Luzes, mas que não chega a constituir uma ruptura no pensamento e na forma de pensar, como foi, antes dele, um Hobbes; no seu tempo, um Rousseau; e, depois dele, um Kant. Ocorre que Jean-Paul, por volta dos anos 50, mesmo sem admitir e até fazendo um esforço descomunal para juntar as duas coisas, deixou de lado a perspectiva sombria da chamada filosofia existencialista, dentro da qual tinha se tornado um nome de reputação com a publicação em 1943, numa França ainda ocupada pelos nazistas, de O Ser e o Nada (outro livro que nenhum de nós leu…), e abraçado, com fervor, o revolucionarismo marxista mais delirante, responsável por sua ruptura com velhos amigos como Raymond Aron, Merleau-Ponty e Albert Camus.
Este Sartre ultra-esquerdista está datado. Mas o filósofo da fase existencialista, também acho que está. Sartre fez parte de uma geração influenciada pela filosofia de Heidegger  para quem o homem se definia como um ser para-a-morte. Não há nada de alvissareiro nessa perspectiva, e a obra do Sartre dessa época faz sua a “experiência da negatividade” típica da sensibilidade moderna desde que Nietzsche fez o anúncio de que “Deus está morto”. A angústia é o ar do tempo, e está na literatura de Kafka, no teatro de Beckett, na pintura do norueguês Edvard Munch, cujo famoso quadro, O Grito, vale por uma pinacoteca inteira de desolação. Retomemos os célebres termos sartreanos: o em-si, o para-si e o para-o-outro. Para ele há dois modos fundamentais de ser: aquele próprio às coisas inanimadas  o em-si, e aquele outro próprio à consciência humana  o para-si. A consciência, vazia de sentido, é inteiramente livre no momento em que se dirige às coisas. “O Homem está condenado à liberdade” é outras de suas frases antológicas. Isso é fonte de angústia, e uma das maneiras de escapar dessa situação é desempenhar o papel que os outros designaram “para si”, tornando-se um ser para-o-outro. O olhar do outro, assim, me petrifica, me transforma numa coisa em-si com a minha aquiescência, porque a responsabilidade de exercer a liberdade radical a que estou condenado é fonte de sofrimento. Prefiro, assim, uma vida inautêntica, como ser para-o-outro, donde outra frase famosa que correu o mundo: “O inferno são os outros”.
Tudo isso é meio confuso e sombrio, e se, por razões de espaço, simplifico ao extremo, não creio que falsifique o essencial do seu existencialismo. Pessimista por excelência, ele parece inscrito no clima cinzento do pós-guerra numa Paris ainda sofrendo a falta de víveres, cujos intelectuais exorcizavam os horrores do conflito nas caves esfumaçadas da sofisticada rive gauche, onde se escutava jazz e Juliette Greco, a qual, de cabelo na cintura e cantando toda de preto, tinha se tornado a “musa do existencialismo”  que, por sua vez, tinha se tornado moda! Mas logo Sartre deixará de cultivar essa filosofia do desespero aderindo, como vimos, ao marxismo. O livro sobre a razão dialética será seu projeto teórico nesse sentido. Sem abandonar os conceitos existencialistas, ele irá historicizar o homem “inautêntico”, fazendo dele não mais uma decorrência da condição humana, mas produto da sociedade capitalista, com isso tornando-o um equivalente do homem “alienado” de Marx. Numa pirueta arguta, mas a meu ver pouco convincente, ele dirá que o homem em-si, tornado objeto pelo olhar do outro, será superado pela inserção no “grupo em fusão” da ação revolucionária que redimirá sua inautenticidade. Como não acreditamos mais nisso, passemos a Simone.
Na verdade falo apenas da Simone de Beauvoir que escreveu O Segundo Sexo em 1949. Mas quem escreve uma obra dessa magnitude aos 41 anos precisa de outras credenciais? É nele onde se encontra o célebre princípio que nutre teoricamente ainda hoje o movimento feminista: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Curiosamente, o desenvolvimento do enunciado é bem menos radical do que dá a entender a sua leitura descontextualizada, pois Beauvoir não está pretendendo que as mulheres não nascem fêmeas! Acho mesmo esse um dos pontos mais lúcidos do seu pensamento: ser mulher não é a mesma coisa que ser fêmea; da mesma maneira, aliás, que ser homem não é a mesma coisa que ser macho. Macho e fêmea são destinos biológicos; mulher e homem são construções históricas. O que hoje até parece uma banalidade, não o era então. Nesse sentido o livro de Simone é um desses que anunciam uma tese que, vindo posteriormente se incorporar ao senso comum  mesmo que um senso comum qualificado , parece desprovido de novidade quando o lemos a partir de um patamar retrospectivo, esquecendo o quanto ele contribuiu para a construção desse mesmo patamar.
Com sua divisa célebre Beauvoir está afirmando que existe a fêmea como dado biológico, certo, mas o que é feito desse dado  que atribuições lhe são designadas, que costumes lhe são infligidos , aí a responsabilidade já não cabe à biologia. Se de um lado só a mulher pode dar à luz e amamentar, de outro se abrem infinitas possibilidades diferentes no que diz respeito ao exercício da maternidade e à prática da amamentação  e será a história, a economia, a cultura etc. que se encarregarão de estabelecê-las. Como ela mesma diz, “Os dados biológicos são de uma extrema importância [...]. Mas o que recusamos é a idéia de que eles constituem para a mulher um destino fixo; eles não a condenam a conservar para sempre esse papel subordinado.” O texto de Beauvoir está cheio de observações argutas sobre detalhes aparentemente menores acerca da maneira como revestimos as diferenças entre os dois sexos: “Nada é menos natural do que vestir-se de mulher; sem dúvida o vestuário masculino é também artificial, mas é mais cômodo e mais simples, é feito para favorizar a ação em lugar de entravá-la”  lembre-se o leitor de que, à época em que o livro foi escrito, mulheres não usavam calças!… Assim, ela adverte: “Quando emprego palavras como mulher ou feminino, não me refiro evidentemente a nenhum arquétipo, a nenhuma essência imutável”; ao usar essas palavras, acrescenta, é preciso subentender: “no estado atual da educação e dos costumes.”
Mas esse estado atual, desde a mais remota antiguidade, foi sempre obra de homens. “Foram os homens que fizeram a Grécia, o Império Romano, a França e todas as nações; que descobriram a terra e inventaram todos os instrumentos para explorá-la, que a governaram e encheram-na de estátuas, de quadros e de livros.” Neste universo masculino, à mulher sempre coube o papel de apêndice  como está escrito no renitente mito da criação da primeira mulher a partir de uma costela do primeiro homem. Como, então, admirar-se de que ela própria se sinta inferior? Em determinado momento Beauvoir remete a uma deliciosa boutade de Bernard Shaw: “O americano branco relega o negro à condição de engraxate; e daí conclui que ele é bom apenas para engraxar sapatos”… Valendo-se da terminologia sartreana que ela usa abundantemente no livro, a mulher  como o negro numa sociedade racista, o judeu numa sociedade nazista  não tem uma vida autêntica; ela é um ser para-o-outro.
Seria impossível, numa apresentação tão breve que é ao mesmo tempo uma homenagem  além de convite para que leitores retardatários como eu conheçam finalmente seu grande livro , falar de toda a riqueza histórica, sociológica, psicológica e até literária de O Segundo Sexo. Esquivo-me da tentação de inserir alguma conjunção adversativa nesta admiração. Algumas até me ocorreram durante a leitura. Há passagens em que la Beauvoir deixa-se entusiasmar pela militância e parece comprazer-se no exercício tão jacobino e tão francês de épater le bourgeois. Miudezas minhas. No atacado, o balanço positivo ganha de goleada. Certamente por ser mulher e por ter sido uma grande escritora, são particularmente fascinantes as páginas em que Simone disseca com lírica crueldade os diversos momentos cheios de desconforto e angústia por que passa a fêmea no seu processo de transformação em mulher: o primeiro penteado que não pode ser desmanchado, a estréia do incômodo vestidinho, o uso de toalhinhas na menstruação, a noite de núpcias e o defloramento muitas vezes traumático, a gravidez, o parto, a amamentação e, finalmente, a menopausa que a libera do ciclo que a natureza lhe impôs de reproduzir a espécie  quando então, liberta das obrigações da fêmea, a mulher descobre em si, desolada, um corpo sem frescor.
Mas o livro termina com uma nota otimista. Como que deixando de lado a sinistra perspectiva do Outro cujo olhar nos transforma em objetos, ela anuncia um futuro, “quando for abolida a escravidão de metade da humanidade”, em que, “para além das suas diferenças naturais, homens e mulheres afirmem sem equívoco sua fraternidade.”