17.2.10

Em mim, carnaval. No amor, a matéria da alegria e da dor. No passista, os ritos de despedida.

Waldir Pedrosa Amorim


Herdei a paixão advinda de meu pai e nossa parentela, pelo carnaval pernambucano. Desde a minha tenra infância até os tempos de hoje, prossigo vivendo com variada intensidade os carnavais do Recife. Aliás, brinco, brinquei e, enquanto meus joelhos permitirem, brincarei os carnavais da terra na qual, mais do que apenas nasci. Transmiti naturalmente este legado cultural e este gosto, aos meus três filhos, e espero, junto com eles, poder transmiti-los aos meus netos.

Com incontida alegria, trouxe para a minha primeira netinha, Beatriz, bugigangas mercadas nos dias de carnaval. Dá prazer, observar pelas ruas da cidade antiga, muitos pequeninos trazidos pelos pais, para a partilha da alegria, desta inusitada festa popular, arrebatadora de multidões. É desta petizada a fiança de imortalidade das tradições artístico culturais de uma gente.

Brincar carnaval.

Brincar, é palavra exata e delineadora da magia que me assoma e aos que ali se encontram, imagino. Não é dançar, frevar, pular, desfilar, assistir, sapatear, vestir fantasia, nem mesmo cantar, jogar confetes, serpentinas, ou tão somente tomar um pifão, o que tempera o carnaval de Pernambuco. Brincar carnaval é um elo não corrompido entre o estar criança, a folie dita loucura e, uma outra folia, capaz de transmitir em o nosso idioma, mais que os festejos animados ou genericamente qualquer festa. Brincar o carnaval, é expressão unicamente apropriada para ladrilhar a conotação da folia carnavalesca em Pernambuco. Contemporizam-se nesse folião, imagens e coisas como; um desejo ardente, a lúdica e brincante possibilidade da irrealidade; ressaibos generosos de promessa, de regresso sazonal; retempero de altivez, auto-estima, confraternidade.

Permito-me escrutinar algo a mais... Ouvindo o Bloco da Saudade a cantar, identifico comovido; carinho na recordação, obstinação na saudade.

Ingredientes ternos, sazonalmente repisados em braços dados com a frágil e insistente humanidade passista e passante, atrás de algum bloco e estandarte de um carnaval.