13.10.09

UM NOVO HINO


Heitor Rosa

Os hinos nacionais foram compostos, sob encomenda, por ardentes patriotas ou adaptados de um poema nacionalista. Assim, essas letras procuram exaltar e estimular o patriotismo, cantadas numa melodia de caráter marcial.
Quando se faz a leitura dos hinos de países dos diversos continentes (consegui ler apenas 48), observa-se que quase todos tem formas e palavras semelhantes. Geralmente despertam o espírito guerreiro e, portanto, incitam à valentia e heroísmo, seguindo-se elogios às belezas e virtudes do país. A proposta é de matar ou morrer quando a pátria for ultrajada, invadida ou perigar a liberdade.
Como guerra é guerra, os poemas são justificáveis, e o hino deve ter (de preferência) uma melodia alla marcia, que faça vibrar e emocionar. A emoção fica por conta do momento, ocasião e do número de participantes, porém raramente estão combinados bons poemas com boa música e vice-versa.
Outro elemento comum às patrióticas letras é o seu tamanho quilométrico. Inicialmente, tive a falsa impressão de que o “comprimento” do poema era diretamente proporcional ao atraso do país, mas há exceções, como em tudo nesse mundo. Os poetas bélicos são incapazes de exprimirem um forte sentimento e exortação pátrios, em poucas estrofres e curtos versos.É verdade que foram escritos em outros séculos, conforme a moda literária da época;da mesma forma como foram compostos os hinos. Mas o certo é que, pelo tamanho da obra, muitas letras devem ser aprendidas em criança, para estarem decoradas até à adolescência.
Alguns exemplos da América do Sul mostram a relação apavorante número de estrofes/ versos: Venezuela (3/29), Peru (7/56),Colômbia (11/58), Chile (6/48), Bolívia (4/36), Argentina (9/126). Paraguai (7/56),Brasil (11/48). A Venezuela parece sóbria, mas cada estrofe é repetida uma, duas ou quatro vezes (ou mais se o Chavez decidir). Por outro lado as nações européias e os Estados Unidos são intermediárias entre as sul-americanas e as asiáticas: Alemanha (1/8), Estados Unidos (4/32), Inglaterra (5/35) , Portugal (6/39), à exceção da França (7/68). Este país, à parte a boa melodia, tem um poema longo como um sul-americano e violento como se fora escrito por Átila; é uma carnificina só. Os asiáticos fazem-nos inveja pela sobriedade e pacificidade — China ( 1/10) , Rússia (4/16) , sendo do Japão (1/6) o hino mais curto e mais carinhoso .
Todos eles, como já disse, com algumas exceções, cantam lutas e vitórias, amor e ódio, sangue e morte, e, portanto, deveriam ser cantados ou executados nas ocasiões de confronto bélico e não em momentos de paz, confraternização, solenidades culturais ou em enfrentamentos esportivos. Não há razão para cantar a guerra nas atividades pacíficas.
Como não se deve mexer em símbolos tradicionais, por que não compor novos, belos e curtos poemas que exaltem a paz, o amor, a beleza de um povo ou país e que sejam cantados em melodias bem feitas e bonitas, ambos, poema e música, acessíveis ao entendimento e ouvidos da grande massa?
O Brasil pode ter uma nova chance e ser pioneiro na mudança. Embora nosso hino não seja tão belicoso, mas também manda seus filhos para a guerra. Um novo hino, para ocasiões pacíficas, além das qualidades já citadas, teria a vantagem de não cantar “palavrões desusados”, que o povão não entende, como lábaro, florão, clava forte,garrido e escrito na ordem direta com uma ou duas estrofes; os versos seriam livres, para não mais se repetir as cansativas terminações em “ il” e outras rimas menos poéticas. Cantado ou tocado em cerca de três minutos, sem ritornellos ou refrões. Ó pátria amada. Ah. Ia me esquecendo. Para o novo hino fica proibido a Fafá de Belém cantar a capella, ou qualquer alteração por arranjador aventureiro ou malabarista vocal. Chega o que já fizeram com a protofonia do Guarani, pisoteada na Voz do Brasil como um fundo musical para pajelança.
Só em caso de guerra, como um jogo contra a Argentina, aí sim, cantaríamos o velho e tradicional virudum.