31.12.08

CARTA DE NATAL






Por: Heitor Rosa


Senhor, hoje é manhã de Natal. Vê as ruas quietas e silenciosas , como se de repente o mundo tivesse encontrado a paz ; como se por encanto homens e máquinas fizessem uma trégua e permitissem à cidade respirar calma e serenamente.
Mas Tu sabes a razão deste silencio.
Êle é fruto do cansaço do dia anterior, da maratona impiedosa imposta pela necessidade de comprar presentes, dos onibus cheios que despejam nas avenidas milhares de seres humanos à procura do objeto da gincana. Não há espaço nas ruas, tomadas pelos carros guiados por motoristas tensos, apressados, desiludidos, nervosos, intolerantes , frustrados, gritando sua revolta num hino de ódio a este dia que a todos põe insanos. Garotos maltrapilhos no meio das ruas, estendem suas caixinhas para receberem uma moeda, desviando a atenção do motorista, constrangendo-o e incomodando o trânsito. Onde ir, onde estacionar, onde comprar, o que comprar...uma corrida contra o relógio. É a Guerra do Fim do Mundo, pode pensar qualquer um, menos Tu. O tempo continua a passar sem que ninguém possa detê-lo, aumentando a ansiedade de todos para o encontro da ceia, improrrogável e obrigatória. Multidões inteiras atacam como hordas famintas tudo o que é posto à vista, e compram tudo o que se possa comer, como se estivessem a cumprir suas últimas vontades ou estivessem recolhendo todos os alimentos para prevenir-se dos tempos de privação que virão. É a Guerrra do Fim do Mundo, podem pensar todos menos Tú. Homens atarefados em conduzir nos braços, nos carros ou de qualquer outra maneira, pesados animais e frutas para o festim que se aproxima. Mulheres suarentas cortam, temperam, assam, manipulam em alvas bacias ou pesadas gamelas os mais tradicionais e deliciosos segredos da volúpia gastronômica. Ainda há que embrulhar centenas de presentes, muitos dos quais deverão ser distribuidos ainda nessa tarde, antes da reunião familiar, convocando-se para isso o melhor trenó a gasolina e um irritado condutor, que saiba todos os endereços e os atinja com a maior velocidade possível . Volta-se correndo para casa, agora com mais urgência. A cidade começa demonstrar sinais de cansaço. Aproxima-se a ceia da família. Que se encham os sacos de presentes para todos os presentes. O local da comemoração vai aos poucos se enchendo de pessoas vestidas para a ocasião, perfumadas, maquiadas , cansadas e contrariadas. Vinde, bebamos todos! Foi dada a largada. O uisque, a cerveja, o mais novo vinho, o mais velho vinho, o champagne, o chapinha, a pinga, a sidra, todos bem-vindos e deglutidos. O perú, seu parente clonado - o chester, a galinha, a galinhada, o leitão, o bacalhau, o pernil ,todos oferecidos no altar da nossa gula suprema . Doces e tortas e tudo o mais que puder contribuir para nosso regime de engorda em apenas uma sessão. A seguir a troca presentes, ou melhor, a entrega dos troféus duramente conquistados no corpo-a-corpo das lojas entupidas de selvagens aves de rapina, gladiadores e lutadores de sumô. Mas todos eles foram derrotados, e eis o presente. Feliz Natal, não sei se serve mas amanhã você troca. Feliz Natal, desculpe mas só tinha esta cor. Feliz Natal, espero que você goste. Feliz Natal para você também, adorei esta bengala, agora já posso quebrar a perna ,há,há. Hora de recolher os troféus, enchendo-se novamente os sacos de plástico; o mesmo volume ou um pouquinho maior do que antes, talvez mais pesado...deve ser aquele pequeno torno que você ganhou, supostamente destinado ao seu espaçoso escritório . Não fosse pelos presentes todos diriam que foi uma reunião de reveillon. Num canto isolado ou num quarto fechado, a televisão transmite para as paredes a Missa do Galo, cujo destino depende do alcance da mão ao controle remoto; é melhor não assisti-la, pois este não é um ambiente adequado à solenidades religiosas.
Assim, alimentados, bebidos, presenteados e sonolentos, todos se reagrupam em suas respectivas equipes e partem para festejar com os outros parentes e amigos que, já quase embriagados e semi-sonolentos esperam a chegada daqueles sem os quais não se pode começar a festa. E assim, repete-se todo o ritual. Abraços, comer e beber ou beber e comer, entrega dos troféus, recebimento de troféus, enchimento dos sacos de guardar troféus, despedidas. Que tenham todos uma santa digestão. Mais bebidos, mais comidos, mais gordos e mais sonolentos, com mais sacos de pacotes, vão todos para suas casas . Deixa-se para o outro dia o recolher do lixo natalino, formado de caixas, papéis de presente e sacos de plástico. Exaustos, todos deixarão suas roupas em qualquer lugar do chão, e cairão inertes sobre o nunca antes tão delicioso colchão no qual serão recompensados por um sono imediato e prolongado, como prêmio por sua árdua e insana luta contra o dragão do Natal.
E assim comemorou-se o Teu nascimento. Comemoração encomendada para o nascimento do mais prodigioso menino-marketing jamais imaginado, o messias do comércio, aquele que além de multiplicar pão e peixe, multiplica as vendas, dólares, lojas, shoppings ; dá a todos a oportunidade de faturar muito mais ou pelo menos um pouco , da Tiffany´s ao camelódromo , aos som das harpas paraguaias e dos jingle-bells . O maior fenômeno de franchaising jamais imaginado, usando como representante e testa-de -ferro um gordo velhinho de longas barbas brancas com um surrado uniforme vermelho. Muitas crianças acham até que Tu és o filho do bom-velhinho ; deviam pensar que Tu serias no mínimo o neto, mas a mídia também sabe fazer milagres. Comemoramos o Teu nascimento nas cores verde e vermelha; o verde simboliza a árvore de Natal, o pinheirinho da neve, que todos se obrigam a ter num canto nobre da sala, não importa se colocado num clima tropical ; o vermelho representa as vestes de Papai-Noel que anuncia o Teu nascimento e a liquidação do Ponto Frio. Assim, deves abençoar a toalha de mesa natalina, os enfeites das portas e todos os demais objetos feitos nessas cores, verde e vermelho, que anunciam a festa que vamos ter.
Há anos Estás nesta manjedoura com os braços eternamente abertos, inerte e contemplativo, por demais crescido para um recém nascido,enquanto teu usurpador ágil, juvenil, parecendo ele a criança festejada, vem de pára-quedas ou de helicóptero, recebe a cidade para si e distribui milhares de presentes sob os olhares hipocritamente humildes do governador ou prefeito; ei-lo acolá, cantando e badalando o seu inseparável sino, no centro de uma rica, perfumada e profusamente iluminada vitrine; ei-lo ali, na encalorada avenida saudando a todos em nome das Casas Bahia.
Eu sei que Tu me viste fazendo muitas destas coisas; envergonhado não consegui olhar-Te. Procurei imaginar-me como um robô programado para cumprir todas as etapas do natal moderno, pois não é possível modificar o modismo disfarçado de tradição e comportar-se de maneira diferente . Mas espero que também tenhas visto que dentro do robô havia um coração, que constrangido e pesaroso, dizia-Te entre suas batidas: Desculpa-me por não Te convidar para a festa que não é tua ; far-Te-ei uma homenagem no silêncio do meu quarto.

Heitor Rosa é contista, romancista e médico. Entre outros tem as seguintes obras literárias publicadas :
1.
ROSA, H. . Memórias de um cirurgião-barbeiro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. v. 1. 208 p.
2.
ROSA, H. . O Enigma da Quinta Sinfonia. São Paulo: Escrituras, 2000. v. 1. 128 p.
3.
ROSA, H. . Os ossos do coronel Azambuja. Ribeirão Preto: Fábrica do Livro, 1998. v. 1. 160 p.