6.11.08

A MOÇA DO PASSAREDO

A moça andava sobre pássaros, daqui para lá, de lá para cá. A moça era bonita, tinha riso de ternura, olhos de amêndoas encabuladas, cabelos da cor do melaço, nem curtos nem longos, lisos e escorridos. Sua boca combinava como os olhos, que combinavam com o nariz e as maçãs da face. Acho até que não tinha face, pois quem tem uma pode ter duas faces e, ela, parecia ter uma só, de tão bonita que era; por isso ela tinha rosto, expressão. Sua expressão era a soma do que diziam seus olhos, a boca, o nariz, os cabelos e as maçãs da face. Mas ela tinha pescoço comprido, que percebia-se quando prendia os cabelos; ombros esguios, peitos salientes, nem grande nem pequenos, bunda recheada, pernas torneadas e pés delicados, vestidos em um sapato bem baixinho, de couro macio.
Voar com pássaros era o seu trabalho, pois como todo mundo, precisava trabalhar para ganhar dinheiro, para se sustentar e realizar o que gostava. Mas estava na face, ou melhor dizendo na cara, nesta também não, na expressão, que ela parecia gostar daquele trabalho. Quando agente quer saber algo sobre o que alguém nem falou, é só dar uma olhada na expressão e saber o que os olhos, a boca, o nariz, os cabelos e as maçãs da face se reuniram para dizer. Não é tão fácil assim, mas treinando aprendemos a entender o que falam as pessoas quando estão caladas.
A moça trabalhava na barriga dos pássaros de metal. Dentro deles cabiam trinta cadeiras e trinta pessoas sentadas para voar. Gente séria, carrancuda, que de trinta em trinta, iam para aqui e acolá.
Uma coisa interessante era ver que os pássaros de metal não batiam asas, ficavam com elas sempre abertas parecendo um urubu ou uma gaivota planando pelo ar. Eles também não cantam! Quando vão voar, duas barriguinhas que estão embaixo das asas começam a fazer um barulho feito um aspirador de pó.
Dois homens sentados no bico, com chapéu de general, são os únicos que podem olhar o céu pelos óculos do pássaro de metal. Eles não deixam a moça sentar no lugar deles. Ela entra e pede para sentar e eles não deixam, então ela volta. Ela vai lá novamente e diz que dará comidinhas se eles deixarem ela sentar um pouquinho só, e nada. Então ela sai dando comidinhas para as trinta pessoas sentadas e nenhuma deixa ela sentar na janela.
Eu me apaixonei pela moça e fiquei olhando para ela e ela olhando para mim. Quando eu fui descer, olhei para ela bem muito. Desci uma escadinha, sentei no ônibus e continuei olhando e vendo que ela me olhava.
Ela então me soltou um beijo e um adeus. Eu larguei a minha mala, desci do ônibus, correndo, subi a escada, abracei-a, dei-lhe um beijo na boca e depois perguntei-lhe: quer casar comigo? E ela quis.

Waldir Pedrosa