11.8.08

SE PERDOEM… É DIA DOS PAIS.

Waldir Pedrosa Amorim

Descobri com a ajuda de outros e auxílio da reflexão, ser bem mais difícil perdoar a si próprio, que perdoar a quem quer que seja.
Não falo aprendi, porque, vez por outra percebo que tropeço sobre as minhas pernas. Quando olho, lá estou implacável comigo.
Diante do relacionamento humano e com os seres sencientes, vislumbramos a compaixão, o tentar enxergar sob a perspectiva do outro, como uma plataforma a ser construída com esmero, estudo e meditação. Nada tão importante, afinal moramos de empréstimo e por tempo determinado num universo no qual deixaremos descendentes. Ademais, somos seres reflexivos, capazes de explorar e obter consciência do passado, presente e das perspectivas futuras da nossa civilização.
Sem dúvida a compaixão confecciona no indivíduo a ética humanista tão desejada para o viver em sociedade e para o usufruto da natureza.
Não podemos afirmar que vivemos um mundo compassivo, tampouco um mundo interior propenso a acatar as peculiaridades e circunstâncias individuais.
Verificamos que nenhuma das religiões pune quem cometeu um ato de desprezo a si, ao contrário o incentiva, seja como forma de autoconhecimento, de purgação ou remissão dos pecados.
Somos seres em dívida, em obrigação moral contraída pelo favor ou através do bem recebido da divindade, da família, da sociedade, da fragilidade imposta pela nossa condição de dependência ao nascer e desenvolver-se, ou do nosso superego, montado diante das nossas vivências.
Neste último caso, vale dizer: somos eternos e implacáveis devedores de nós. Nestas circunstâncias, nos cabe repassar a nossa história pessoal e identificarmos quantas exigências e culpas fictícias, ou melhor, dizendo, com outros significados, carregamos.
Certa vez atendi um cidadão exemplar, bom profissional, extremamente ético, honesto, com uma família equilibrada que lhe dispensava grande respeito e estima. Tinha o diagnóstico de uma doença fatal, incurável, do qual estava consciente. Sua tristeza maior era a culpa que carregava por julgar-se incompetente por não haver amealhado um patamar de bens materiais (semelhante ao dos seus pares, que, considerava de sucesso) para deixar à sua família.
Ao conversarmos, descobrimos ser o seu legado material proporcional ao que poderia atingir um homem integro, inteligente e trabalhador. Esquecera do legado imaterial que construíra. O paradigma que representava para a família e sociedade, a capacidade para conduzir os seus, orientando-os e sabendo partilhar os seus princípios e valores. Sua competência era muito maior do que a média de muitos, em mesmas circunstâncias. Ninguém deseja morrer, mas poderia morrer sem dívidas ou culpa.
Sabemos que a instituição do dia dos pais, das mães, dos namorados, da criança e assim por diante, visa antes de tudo o incentivo ao consumo. Porém, como seres carentes que também somos, terminam por transmitir este caráter de homenagem, avaliação dos papéis e méritos. Por sua vez, são utilizados pela mídia que os transmuta em dividendos econômicos.
Uma meditação e um desejo para este dia:
Que no dia dos pais estes rememorem e comemorem a importância que exercem e as que já exerceram, para o desenvolvimento dos seus filhos e da sociedade. Que se esqueçam culpas, remorso, sensação de que sempre poderiam ter feito melhor.
O melhor é o que é realizado com a intenção amorosa de edificar.

3.8.08

A MÃO NO ARADO

RUY BELO


Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! Como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
Vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
Até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
E haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela
morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
E não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com
que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

In: Eugênio de Andrade - Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa. – Campo das Letras Editores, 1999, Porto Portugal