28.5.08

O Médico poeta Gilmar Amorim lança novo livro de poemas: Atitude Pardal.



LITERATURA -
Gilmar Amorim lançou em 27/05/2008 “Atitude Pardal”
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O gastro e hepatologista Gilmar Amorim poderia estar cansado da rotina de ser médico e conviver com a angústia alheia. Ao contrário do que se imagina ele resolveu escrever suas sensações em forma de poesia e assim tornar seus dias mais leves, como as palavras. Os versos poderão ser lidos no livro “Atitude Pardal” que será lançado hoje, às 19h na livraria Siciliano no Midway Mall. Para ele, o nome do livro é uma referência aos pardais, o pássaro comum que assemelha-se ao ser humano comum, esse que sente, chora, ama e não é visto pelos outros. “O livro traz poesia e palavras que podem traduzir momentos vividos por personagens do cotidiano. Atitude pardal reflete a busca do bem, O incomodar-se com o sofrimento do próximo. Calar e falar. Chorar e sorrir, valorizar o momento que passa. É um convite à reflexão”, contou o poeta.Em 85 páginas entre a poesia e o conto, o autor divaga questionando a existência, o esquecimento, a solidão e o ritmo acelerado dos dias. “Comecei a perceber que a vida da gente vai sendo engolida na agilidade. E nós médicos convivemos diretamente com a dor e os sentimentos das pessoas”, contou. O primeiro poema aconteceu para Gilmar quando ele tinha 43 anos de idade, no início de suas pesquisas para o mestrado na comunidade próxima rio Potengi. “O poema falava sobre o rio e a estrada de ferro que dividem a cidade. Ali eu comecei a escrever minhas impressões e não parei mais”, contou.Os primeiros poemas foram publicados no livro “Ser Pardal”, editado também pelo Sebo Vermelho em 2003. Para a obra que será lançada hoje, o médico e professor de medicina teve apoio direto do editor Abimael Silva. “Ele era meu paciente. E de repente parecia que nos conhecíamos há muitos anos. E isso foi maravilhoso e totalmente ao acaso”, lembra Gilmar.A orelha do livro assinada por Abimael traz suas impressões. “Logo na apresentação da consulta médica percebi que não estava diante de “mais um” médico, e sim de um profissional humanista da mais alta competência. A poesia de Gilmar só tem uma preocupação: mostrar que todo pardal também tem sua importância na paisagem da cidade”, trecho da orelha assinada por Abimael. De um livro para o outro foram cinco anos de produção e escrita. “Todos os dias o poema chega. Eu gosto de estar perto dele e escrever o que vejo e sinto”, disse Gilmar.Leitor de Pablo Neruda, Cecília Meireles, Jorge Luís Borges e autores potiguares como Vicente Serejo, Gilmar não tem pretensão nenhuma em ser poeta, sua vida está para a medicina assim como as palavras estão soltas ao vento. “Tenho apenas um único desejo com minhas obras poéticas. Tocar o coração das pessoas e levar a elas um pouco de tranquilidade”, contou.

Poemas do cotidiano Muitos poemas e contos surgiram de maneira inusitada. Como o poema chamado “Deixe a frase terminar”, que conta a história de uma senhora vendedora de tapiocas que abordou o médico e um colega seu na saída do hospital. “Lembro que ela encontrou a gente e o meu colega queria dar-lhe dinheiro. Ela ficou realmente indignada e disse doutor não me dê dinheiro compre minha tapioca. Nunca esqueci isso”.Suas inspirações além dos pacientes, são os meninos nos sinais de trânsito, as pessoas nas ruas, nas esquinas e a natureza. “tudo o que observo pode virar um poema”. Exemplo disso é a fotografia da capa do livro - tirada por ele - referente a uma árvore tamarineira que fica no pátio do hospital Onofre Lopes, local de trabalho diário do médico. “Essa árvore foi plantada por uma pessoa que desejava o bem de todos. Ter uma árvore num lugar em que a dor transita é uma benção. E é assim que desejo que meu livro seja para as pessoas”, finalizou o médico poeta.
Fonte e autoria:
Tribuna do Norte - Natal, Rio Grande do Norte 27/05/2008 -
por: Júnior Santos

22.5.08

Arte de amar

Thiago de Mello


Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.
Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.

15.5.08

Vidas Quase Cruzadas - por Luciano Siqueira




Dela soubemos apenas que nasceu em Fortaleza, mudou-se para o Rio de Janeiro onde viveu a infância, a adolescência e o começo da juventude, e alterou períodos fora do país – não disse onde – com retornos intermitentes à terra natal. O sotaque carioca conserva. E o gosto por peças e símbolos orientais, que mistura com motivos nordestinos na decoração da pousada. Tem um cantinho meio esquisito, uma pequena edificação em taipa, onde se encontra um tosco altar para os que desejarem fazer suas preces.
– Religião não tenho, mas sou adepta da filosofia budista, explica.
De suas andanças e vivências, exibe no corpo tatuagens que quem olha não entende, carece de esclarecimento. Sim, tem também o marido, que usa óculos escuros para proteger a vista do sol, meio obeso e fala ao jeito gaúcho.
Ao café da manhã, demonstra intimidade com quatro hóspedes mulheres que lhe relembram a conversa da noite anterior:
– Que história tem vocês, hem. Nós também temos nossas histórias, hoje a gente continua daquele ponto: quando e como tudo começou. Trocam risadas e resmungos, como se segredos estivessem a revelar.
Na promessa de detalhes, feita pela branquela, um quê de cumplicidade. São dois casais do mesmo sexo.
Fazíamos nossos pratos, abacaxi, melão, mamão papaia, tapioca, ovos fritos, queijo manteiga, presunto. Suco de acerola. Café forte. Não éramos parte do pequeno grupo que se formara em torno da mesa larga. Nossas intimidades não interessavam, certamente nada tinham a nos contar numa manhã de sol esquentado, naquele mormaço debaixo da grande caiçara. Não tínhamos compartilhado como elas, na noite anterior, coisas vividas, sonhadas, sofridas e comemoradas. Ficamos à mesa na quina, mais distante, já não ouvíamos a conversa, nem ouviam o que dizíamos.
Entre peças artesanais nordestinas e abajus e estatuetas budistas, espalhados pelos diversos ambientes da pousada, livros e revistas em diversas línguas e uma coleção quase completa de Bravo! A capa sobre os cinqüenta anos de Grande Sertão: Veredas deu o mote para breve troca de impressões sobre o gosto comum pela boa leitura. Nada mais que isso.
Dia seguinte seguimos viagem pelo litoral cearense, deixando a saudação habitual de um bom dia, um abraço fraterno, a paga pelos dois dias ali vividos e a leve frustração, nossa, não sabemos se dela também, por não havermos entrado na roda e compartilhado coisas da vida, de nossas vidas.
Nossos destinos por estradas distintas, em paralelo, talvez mais: bifurcados, faltos daquela oportunidade de entrosamento, vidas que não se cruzaram. Por um pouquinho de nada.




Luciano Siqueira escreve uma coluna mensal no site Interpoética http://www.interpoetica.com.br/
que é reproduzida no blog http://www.lucianosiqueira.blogspot.com/.

8.5.08

A Moça do Sonho CHICO BUARQUE

Foto by Sadrope, Musée D'Orsay,Paris 2007
Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó.

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu.

Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez.

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais.