24.4.08

Wellington Pereira no Clube do Conto.

Matéria para divulgação enviada pelo escritor Antônio Mariano.

O Clube do Conto da Paraíba dá continuidade ao círculo de conversas sobre narrativa de ficção com o escritor Wellington Pereira neste sábado, 26, em João Pessoa, às 18 horas, na Associação dos Moradores do Conjunto dos Bancários, em frente à Praça da Paz, no mesmo bairro. O projeto traz no último sábado de cada mês um prosador para um papo com integrantes do grupo e o público interessado.

As reuniões do Clube do Conto da Paraíba acontecem todos os sábados desde 2004 e consistem de leituras de narrativas curtas de ficção. O Clube do Conto da Paraíba é integrado por escritores paraibanos ou radicados no Estado. Surgiu de uma lista de discussão na internet criada e moderada pelo poeta e ficcionista Antônio Mariano. O grupo é aberto a quem quiser participar e tem ganhado visibilidade na mídia nacional, atraindo o interesse de escritores de outros estados que querem agendar encontros para interagir com a literatura e os leitores da Paraíba. A cada reunião os escritores trazem contos produzidos a partir de tema que elegem na semana anterior, expondo os mais diferentes e curiosos assuntos ficcionais, com contribuições de Ronaldo Monte, Dora Limeira, Cláudio Lopes Rodrigues, André Ricardo Aguiar, André Dias, Waldir Amorim, Laudelino Menezes, Mercedes Cavalcanti, Roberto Menezes, José Brendan, Antônio Mariano, Joana Belarmino, Philio Terzakis, Raoni Xavier, Geraldo Maciel e Maria Valéria Rezende, entre outros.

Wellington Pereira é professor do Departamento de Comunicação Social da UFPB. Graduação em Jornalismo e Mestre em Literatura Brasileira pela UFPB e Doutor em Sociologia, título obtido na Universidade Paris V – Sorbonne. Pereira leciona na Pós-Graduação em Sociologia (UFPB), sendo vice-coordenador do Mestrado em Comunicação (UFPB). Desde 2002, Wellington Pereira coordena o Grupecj – Grupo de Pesquisa sobre o Cotidiano e o Jornalismo – Decom – UFPB – tendo organizado, junto aos alunos pesquisadores, os livros: 1) Leituras do Cotidiano, 2) O Trabalho de Sísifo; 3) Epistemologias do Caderno B; 4) O príncipe lê jornais. Wellington publicou individualmente os seguintes livros: 1) As possibilidades do róseo(ficção), 2) Chanel 19 – histórias no feminino(ficção), 3) Vovó nos protege? – histórias infantis para gente grande – ficção -, 4) O beijo da noiva mecânica – ensaio sobre mídia e cotidiano, 5) Diário de um zappeur – TV, insônia e vida cotidiana -, 6) Crônica: arte do útil e do fútil- ensaio sobre a crônica no jornalismo impresso. Em 2007, o professor Wellington foi um dos vencedores do Prêmio Rumos Itaú Jornalismo Cultural na categoria Professor de Graduação, com a pesquisa sobre os cadernos culturais dos jornais de João Pessoa. No ofício de jornalista, Wellington atuou no caderno de cultura Gente e Lazer do Jornal O Norte, foi editor do suplemento literário Correio das Artes, secretário de redação da revista Em Dia e colunista semanal dos jornais O Momento, Jornal O Norte e Correio da Paraíba.

20.4.08

Ricardo Anísio acrescenta Canção do Caos à sua obra poética publicada.




Todo

Eu sou a largura da enseada
Nada me comporta, nem a vida
Nem os amores ilhados
Sou como ferida devorando a pele!

Sou a madrugada engolindo abrolhos
Dragão do mar que vomita esmeraldas
Necessito dos charcos para bisar
Sou o Tejo cortando as veias do Porto.

Sou um iguana nas geleiras do Norte
Ruminando em si a própria sina
Quanto mais como e me arrasto
Sou predador minha alegria

Sou arquétipo de desesperança
Musa banguela que morreu de fome
Também sou o ateu na Capela Cistina
Sou Cristina procurando seu Édipo

Eu sou a praga búlgara sobre a Lapa
Sou o baião cantado na Sibéria
Tenho dois bodoques e uma cítara
Mas minha lira foi degredada

Sou todo eu e não me estanco
Cada vez que embalo o filho morto
Ouço a coruja cantar boleros
E cavo dez mil sepulturas de espera

De mim porém nada espero
Senão mirrar sob a nevasca
E me imantar em pleno brejo
Ouvindo o pio agourento da noite.

In: Anisio, Ricardo; Canção do Caos João Pessoa: Forma Editorial;2008. 112 páginas.

Ricardo Anísio acrescenta Canção do Caos à sua obra poética publicada.
Flávio Tavares faz ilustrações

Não é difícil falar pouco ou muito de Ricardo Anísio. Poeta, escritor, jornalista, crítico musical e cronista habituado a assentar a razão e o destemor ao seu trabalho. Assume o ofício de semear no leitor o gosto pela verdade, pela conquista da liberdade de dizer, de pensar ou, de desdizer algo que novas evidências passem a refutar. O poeta mesmo se denuncia: Sou todo eu e não me estanco. Este sem dúvida seu traço peculiar; que a mim encanta, por representar uma mente aberta ao futuro, ao novo e ao progresso de sua comunidade.
Em muitas latitudes, trabalha a imprensa mediocrizada pelos anunciantes, categorias dominantes, ideologias dos proprietários de jornais e pelo próprio leitor.
Se imprensa e música paraibanas haverão de se regozijar muitíssimo por possuir Ricardo Anísio em suas hostes, a poesia se sente ainda mais guarnecida com seus cantos verdadeiros e doridos, enfeixados em versos livres. Privilegiados e meritórios versos, lidos pelo ângulo do nosso Flávio Tavares nas ilustrações internas. Este, um artista que me emociona; vindo a ser uma outra estória. Adquirir, ler e divulgar este livro é uma obrigação nossa.

Waldir Pedrosa Amorim

Uma matéria interessante sobre livros autores e editoras.

O admirável livro novo

Por: Paulo Rezzutti, no Blog Bazar das Palavras

"Você faz o seguinte: calcula 10% para o distribuidor, e de 50% a 60% para a livraria que vai vender", foi o que me disse um velho distribuidor de livros paulistano ao telefone na semana passada. Atônito, eu exclamei: "Mas o preço final do livro, desse modo, fica muito alto!". Mais atônito fiquei foi com a resposta: "O cliente que rebole para comprar"...Graças a esse pensamento edificante temos mais sebos no Brasil do que livrarias de obras novas.No começo de novembro, recebi um telefonema de uma grande livraria que tem sede em São Paulo e filiais no Brasil todo. Devido à grande procura do "Uma Festa Brasileira", me contataram para comercializar a obra. Queriam 50% do preço de capa. Eu disse que não era possível, o usual no mercado livreiro é 40% de comissão para compra da mercadoria e 30% para trabalhar consignado. Além do mais, a livraria queria um prazo de 60 dias para pagar os livros adquiridos em consignação. Não houve negócio. A mesma livraria, ou melhor, outros vendedores e compradores dela, voltaram a me ligar sistematicamente, sempre com a mesma proposta. Ou eles se fazem de idiotas para vencer pelo cansaço, ou o mito da grande livraria é somente um mito, pois não existe um comando centralizado e cada um, vendedor e comprador, faz o que quer.No final de janeiro, uma das filiais dessa grande livraria me ligou. Queriam o livro; tinham interessados, óbvio, pois algumas matérias publicadas em revistas de companhias aéreas nacionais e internacionais ficaram a bordo de seus aviões por quase dois meses no período de férias e isso começou a significar mais pedidos do livro. Pois bem, essa filial chegou a um acordo razoável. Aceitava negociar a 40%, porém em consignação e com acerto em 60 dias. Bom, se eles se dobraram a comissão, eu me dobrei ao prazo, e assim, cada um cedendo um pouco, deu para fazer negócio, afinal negócio só é bom quando é para ambos os lados.Mandamos cinco livros para a filial. Porte pago por nós... Provavelmente o acordo celebrado verbalmente gerou um cadastro da obra no sistema deles. Em fevereiro recebemos cerca de vinte pedidos, dessa vez não mais em consignação, e sim de compra, no mesmo patamar da negociação anterior, 40% de desconto e pagamento em 60 dias. Os livros foram entregues na sede paulista da livraria e redistribuído para as filiais... até que... alguém, dentro desse sistema verbal-administrativo-caótico, descobriu que aquela filial cometeu o terrível pecado de trabalhar com margem de 40% em um livro. Ligaram para lá, comeram a alma da compradora, ela me ligou e disse que as próximas compras não poderiam mais ser na base de 40%, e sim em 50%. Minha resposta: passe bem.Se tem uma coisa que eu aprendi trabalhando com livros é que não se deve ter pressa de vender certos títulos. Alguns realmente quando pegamos jogamos preço baixo para não ficar ocupando lugar nas estantes, porém outros não: têm o preço certo, o cliente certo e o tempo certo de vendas. E, graças à competência da nossa editora e de todos os envolvidos no projeto desse livro, ele está tendo uma boa saída. Tão boa que nas próximas semanas alguns exemplares estarão chegando a Paris, onde serão comercializados pela Livraria Portuguesa. Outros irão para o estande brasileiro da Feira do Livro de Paris, e talvez, para a Feira do Livro de Frankfurt. Os europeus realmente sabem apreciar a cultura; aqui no Brasil, a cultura, alguma, não todas, só sabe apreciar o lucro que pode obter em cima dos outros.

waldir Pedrosa Amorim disse...
Parabéns pelo seu Blog. Sua constatação no seu post "O admirável livro novo" infelizmente é a pura verdade. Nossa indigência cultural é muito grande; afeta quem não lê, quem não é lido e quem não pode ler. Os três segmentos desta cadeia são desestimulados. O primeiro não é seduzido, o segundo desencorajado por falta de realimentação da crítica mais oportuna que é a do leitor; produz bobagem para se envaidecer, ou então se desestimula. O terceiro, será sempre o mais afetado, mas vive da esperança, da biblioteca, do sebo, do empréstimo, do aluguel ou da internet. Somos uma sociedade curiosa. Temos fartura para quem não necessita de alimento. Dieta de fome, para os desnutridos. Alimento desapetitoso para os anoréticos. Diante de tanta adversidade programada, não carecemos de mais nada para compreender o nosso atraso ancestral. Deveria ser proibido falar de incentivo à cultura.E as editoras prosseguem traduzindo e editando os "best sellers" e enlatados de alhures.
Peço-lhe permissão para publicar este seu texto no meu Blog
Cordialmente,Waldir Pedrosa Amorim

5.4.08

CICATRIZES

Samuel Hulak


Ma se choro a dor de ferimentos fundos,

fundas fendas que abertas inda sangram,

não lamento os gemidos idos ou presentes

nem maldigo como infeliz a cicatriz

que tenha, pois que é minha e só minha

e de dentro para fora eu a fiz sozinho;

e se a feia crosta se percebe,

a epiderme sorridente a recebe

no abrigo destas rugas, fibras, malhas,

como amigas ou presentes ou medalhas.