29.3.08

AS AVENTURAS DO INSPETOR FRANCELINO

pelo escritor Heitor Rosa


DEPARTAMENTO DA POLÍCIA FEDERAL

10 horas: O misterioso rapto da Sabina


O dia parecia normal no gabinete do inspetor Francelino, chefe da divisão de seqüestro da Polícia Federal. Os casos de sempre, cerca de vinte investigados em diversos estados da Federação, fax chegando aos metros, celular definitivamente pregado à orelha, caixa de e-mails abarrotada, uma pilha de processos de quase cinqüenta centímetros de altura, à espera de despacho e uma secretária que não cessava de colocar sobre a mesa memorandos e ofícios. Enfim o de sempre. Rotina, rotina.
Era rotina até que a luz verde do telefone especial começou a piscar e bipar. Sinal de urgência e prioridade um. O inspetor avançou ao aparelho, esqueceu o celular e pisou sobre o tapete de faxes.
— Sim?
—Chefe, é o Rubão. Coisa grossa à vista. Internacional.
—Só faltava isso. Desembucha!
—A gente temos notícia que raptaram uma moça na França.
—Pelo amor de Deus, Rubão. E a gente com isso? É brasileira?
—Parece. Ainda não temos todos os detalhes. Nosso agente em Paris vai mandar tudo assim que puder.
—Qual agente?
—O Tavares, que foi em Mônaco, ver o negócio do Cachola.
—Cachiola, Rubão. E daí?
—Bem, o caso é que leram pra ele no jornal de lá, que a moça raptada vem para o Brasil.
—Mas que loucura é essa? Como descobriram que a mulher raptada vem para o Brasil?Como é que pode? E ninguém avisa nada pra gente? E o serviço de Imigração, ta dormindo?
—Calma, chefe. Só estou falando o que me informaram. Parece que a moça trabalhava num museu de Paris, e um cara, com certeza tarado, pegou a mulher, à noite, depois que fecharam a casa. As câmaras internas fotografaram o seqüestro. Uma puta sacanagem.
—E não identificaram o cara? Tem deputado envolvido?
—Ainda não. Vou passar o fax da foto que apareceu no jornal de lá e depois mando mais notícias. O senhor vai ver que o cara é tarado mesmo.
—Então manda logo, pois acho que essa história está mal contada. Enquanto isso, vou checar com o pessoal do Itamarati.
—Ta certo, chefe, Lá vai.

De: Agente Rubão 027
Para: Setor Verde

Chefe, essa foi a foto que apareceu no jornal . Ainda não prenderam os caras .




Francelino não pode conter a indignação.Sacanagem da grossa, putaria mesmo, em pleno edifício público.Não foram só os políticos brasileiros e americanos que perderam a vergonha. O flagrante foi sensacional e com tanto detalhe, que o seqüestro seria resolvido lá mesmo, na França. Mesmo assim, resolveu esquecer a besta do Rubão e chamou o Tavares em Paris.
— Alô chefe Francelino. O que o senhor manda?
—Tavares, que história é essa de seqüestro que vem para o Brasil?
—É o que vi no jornal hoje, chefe, no France Só ir.
—Eu não sabia que você lê francês.
—Dá pro gasto.
—E então?

—O senhor deve ter recebido o fax do flagrante. Foram dois caras, que estavam estuprando uma moça. Todo mundo pelado. Um é mais velho, que aparece entre as pernas do estuprador; pode ser viado. Li aqui que um deles foi reconhecido e se chama Giambolonha.
—E a moça?
—Bem, pode ser uma dessas brasileiras que vem para a Europa se prostituir, e que para disfarçar devia trabalhar como atendente ou faxineira no museu, sei lá. Ou topou a sacanagem ou foi mesmo seqüestrada.
—Quer dizer então, é que, se pegarem os caras e a moça, ela será deportada para o Brasil, certo?
—É isso aí, chefe. É o que também acho.
—Só tem uma coisa Tavares...
—Diga,chefe.
—Bandido só seqüestra para pedir resgate. E para quê e por quê dois caras iriam raptar uma prostituta? Se é uma puta, com certeza é de família pobre, sem dinheiro.
—É verdade, não tinha pensado nisso.
—Então, a moça devia ser uma turista e de família conhecida e muito rica no Brasil. O jornal fala em resgate?
—Ainda vou ver...
—Porra, Tavares, você lê ou não lê francês? Quem sabe o jornal tá falando que uma moça brasileira foi seqüestrada. Olha, seja discreto, vai se informando com a Interpol daí, enquanto eu vou telefonar para nossa embaixada.


—Embassé du Brésil, bon jour.
—Alô. Aqui é do Brasil.
—Pois senhor. Em que posso servi-lo?
—Aqui é o inspetor chefe da divisão de seqüestro da Polícia Federal. Quero falar com o embaixador.É urgente.
—Seu nome, por favor?
—Inspetor Francelino.
—Senhor inspetor, o embaixador Castelo Branco encontra-se em Bruxelas, mas o senhor pode falar com o secretário Fogaça.
—Ta certo. Chama ele.

—Secretário Fogaça, bom dia.
—Bom dia, secretário. Aqui é o inspetor Francelino da PF de Brasília, divisão anti-sequestro.
—Pois não, inspetor. Como posso ajudá-lo?
—Secretário, fui informado aqui em Brasília, que uma moça brasileira foi seqüestrada, e a polícia francesa está procurando por ela para deportá-la. O que o senhor sabe a respeito?
—Nada , inspetor. Como o senhor conseguiu essa notícia?
—Apareceu no jornal daí.
—Que jornal?
—Um tal de France Só ir.
—Ah. O France Soir. Um minuto, vou apanhá-lo na minha mesa.
..............
—Inspetor!?
—Estou ouvindo, senhor secretário.
—Olha, a notícia que temos aqui é a de que o Rapto da Sabina sairá do Louvre pela primeira vez e vai ao Brasil.
—E o seqüestrador é o tal de João Bolonha. Confere?
—Inspetor, isso é uma obra de arte e o autor é o italiano Giambolonha.
—Quer dizer que o senhor já sabe o nome do seqüestrador e da moça. Sinto muito que o senhor pense assim.
—Não entendi, inspetor.
—Tem muita gente que acha que o crime compensa, que o crime perfeito é uma obra de arte. Essa Sabina deve ser do Maranhão, parente do coronel Sabino, meu conterrâneo. E se esse italiano mafioso e safado vier aqui, vai ser preso imediatamente. Deve ser amigo do Cachiola. Se vocês não querem nos ajudar, vamos acionar o pessoal do Serviço de Inteligência, e vamos ver por que estão encobrindo os fatos. Até logo.
— Alô, inspetor! Alô, alô...


15 horas: OUTRO CASO PARA FRANCELINO: UM QUADRO ROUBADO

—Inspetor Francelino, falando.
—Bom dia, inspetor. Aqui é o secretário Rivera, do Ministério de Relações Exteriores.
—Pois não, seu Rivera. Qual é o pepino dessa vez?
—Pepino nenhum, inspetor. De ordem do senhor Ministro, queremos alguns agentes para segurança do Guernica, que vem de Madri para o MAM em São Paulo.
—Olha secretário, temos ordem pra não deixar entrar. Questão de reciprocidade.
—Mas o Guernica vai para o museu.
—Pior ainda, museu não é hotel. Ele tem de dar um endereço de hotel. Quantos dias ele vai ficar?
—Trinta dias.
—A gente pode dar até noventa dias, se tiver tudo nos conforme. Quantos anos ele tem?
— Mais de sessenta.
—Então ta vindo pra programa de prostituta. Não entra mesmo.
—Inspetor, não seja ridículo. Esse Guernica é um Picasso.
—Não interessa o nome da família. Pode ser até um Matarazzo. Se não estiver tudo legal não vai entrar. Agora, se é o próprio Itamarati que ta bagunçando, então vamos deixar entrar todo mundo, e eu ponho o meu cargo à disposição.
—O senhor não entendeu,inspetor. Esse Guernica é o nome de um quadro, uma pintura.
— Roubada por esse Picasso!
—Escuta,inspetor, pelo amor de Deus...
—O senhor não precisa ensinar o meu ofício. Recuperamos a obra e prendemos o traficante Picasso. Como vocês descobriram que o quadro vai sair de Madri e o receptador trabalha no MAM? Qual é o número do vôo?
—Inspetor, a gente se fala depois. Vou tomar um remedinho para o estômago.Até logo.
...
—Só dá viado nesse Itamarati. Ninguém diz coisa com coisa! Depois, é a PF que é corrupta.

17.3.08

O fim do mundo


Ronaldo Monte


Há muito tempo assisto o fim do mundo. Uma certa parte do mundo, aquela em que vivo e vivi, padece de uma lenta e permanente agonia. Já se foram quase todas as casas em que morei. E junto com elas se foram as pessoas que ali moraram comigo. Os bairros de minha infância e juventude sofreram uma torção que os tornaram monstros de si mesmos. Não sei mais onde gastei a sola dos meus sapatos. Não reconheço as ruas que doeram em meus olhos e ouvidos.Quanto mais vivo, mais despovoado fica o meu mundo. Inúteis muitos dos números de telefones em minha agenda. Ninguém mora mais ali, ninguém mais me espera neste bar, ninguém mais adivinha a hora em que os copos estão sendo trazidos para a mesa do terraço.
Não tenho mais circunstâncias. Eu sou eu e um grande vazio em volta. E o anjo do vazio espera pelo único acontecimento que o torne completo, perfeito, sem falha. O anjo do vazio espera por mim neste vazio. Para decretar definitivamente o fim do mundo. Deste mundo que ainda insisto em manter com minha mísera presença.
Mas ainda haverão de esperar anjo e vazio. Porque ainda tenho memória. Ainda sei como são os homens. E a memória me fornecerá o molde com que forjarei novas presenças. Breve terei um mundo mínimo com o qual recomeçar.

Clube do Conto da Parahyba.
13.03.2008

Ilustração obtida em: br.geocities.com

http://www.blog-do-rona.blogspot.com