31.12.08

CARTA DE NATAL






Por: Heitor Rosa


Senhor, hoje é manhã de Natal. Vê as ruas quietas e silenciosas , como se de repente o mundo tivesse encontrado a paz ; como se por encanto homens e máquinas fizessem uma trégua e permitissem à cidade respirar calma e serenamente.
Mas Tu sabes a razão deste silencio.
Êle é fruto do cansaço do dia anterior, da maratona impiedosa imposta pela necessidade de comprar presentes, dos onibus cheios que despejam nas avenidas milhares de seres humanos à procura do objeto da gincana. Não há espaço nas ruas, tomadas pelos carros guiados por motoristas tensos, apressados, desiludidos, nervosos, intolerantes , frustrados, gritando sua revolta num hino de ódio a este dia que a todos põe insanos. Garotos maltrapilhos no meio das ruas, estendem suas caixinhas para receberem uma moeda, desviando a atenção do motorista, constrangendo-o e incomodando o trânsito. Onde ir, onde estacionar, onde comprar, o que comprar...uma corrida contra o relógio. É a Guerra do Fim do Mundo, pode pensar qualquer um, menos Tu. O tempo continua a passar sem que ninguém possa detê-lo, aumentando a ansiedade de todos para o encontro da ceia, improrrogável e obrigatória. Multidões inteiras atacam como hordas famintas tudo o que é posto à vista, e compram tudo o que se possa comer, como se estivessem a cumprir suas últimas vontades ou estivessem recolhendo todos os alimentos para prevenir-se dos tempos de privação que virão. É a Guerrra do Fim do Mundo, podem pensar todos menos Tú. Homens atarefados em conduzir nos braços, nos carros ou de qualquer outra maneira, pesados animais e frutas para o festim que se aproxima. Mulheres suarentas cortam, temperam, assam, manipulam em alvas bacias ou pesadas gamelas os mais tradicionais e deliciosos segredos da volúpia gastronômica. Ainda há que embrulhar centenas de presentes, muitos dos quais deverão ser distribuidos ainda nessa tarde, antes da reunião familiar, convocando-se para isso o melhor trenó a gasolina e um irritado condutor, que saiba todos os endereços e os atinja com a maior velocidade possível . Volta-se correndo para casa, agora com mais urgência. A cidade começa demonstrar sinais de cansaço. Aproxima-se a ceia da família. Que se encham os sacos de presentes para todos os presentes. O local da comemoração vai aos poucos se enchendo de pessoas vestidas para a ocasião, perfumadas, maquiadas , cansadas e contrariadas. Vinde, bebamos todos! Foi dada a largada. O uisque, a cerveja, o mais novo vinho, o mais velho vinho, o champagne, o chapinha, a pinga, a sidra, todos bem-vindos e deglutidos. O perú, seu parente clonado - o chester, a galinha, a galinhada, o leitão, o bacalhau, o pernil ,todos oferecidos no altar da nossa gula suprema . Doces e tortas e tudo o mais que puder contribuir para nosso regime de engorda em apenas uma sessão. A seguir a troca presentes, ou melhor, a entrega dos troféus duramente conquistados no corpo-a-corpo das lojas entupidas de selvagens aves de rapina, gladiadores e lutadores de sumô. Mas todos eles foram derrotados, e eis o presente. Feliz Natal, não sei se serve mas amanhã você troca. Feliz Natal, desculpe mas só tinha esta cor. Feliz Natal, espero que você goste. Feliz Natal para você também, adorei esta bengala, agora já posso quebrar a perna ,há,há. Hora de recolher os troféus, enchendo-se novamente os sacos de plástico; o mesmo volume ou um pouquinho maior do que antes, talvez mais pesado...deve ser aquele pequeno torno que você ganhou, supostamente destinado ao seu espaçoso escritório . Não fosse pelos presentes todos diriam que foi uma reunião de reveillon. Num canto isolado ou num quarto fechado, a televisão transmite para as paredes a Missa do Galo, cujo destino depende do alcance da mão ao controle remoto; é melhor não assisti-la, pois este não é um ambiente adequado à solenidades religiosas.
Assim, alimentados, bebidos, presenteados e sonolentos, todos se reagrupam em suas respectivas equipes e partem para festejar com os outros parentes e amigos que, já quase embriagados e semi-sonolentos esperam a chegada daqueles sem os quais não se pode começar a festa. E assim, repete-se todo o ritual. Abraços, comer e beber ou beber e comer, entrega dos troféus, recebimento de troféus, enchimento dos sacos de guardar troféus, despedidas. Que tenham todos uma santa digestão. Mais bebidos, mais comidos, mais gordos e mais sonolentos, com mais sacos de pacotes, vão todos para suas casas . Deixa-se para o outro dia o recolher do lixo natalino, formado de caixas, papéis de presente e sacos de plástico. Exaustos, todos deixarão suas roupas em qualquer lugar do chão, e cairão inertes sobre o nunca antes tão delicioso colchão no qual serão recompensados por um sono imediato e prolongado, como prêmio por sua árdua e insana luta contra o dragão do Natal.
E assim comemorou-se o Teu nascimento. Comemoração encomendada para o nascimento do mais prodigioso menino-marketing jamais imaginado, o messias do comércio, aquele que além de multiplicar pão e peixe, multiplica as vendas, dólares, lojas, shoppings ; dá a todos a oportunidade de faturar muito mais ou pelo menos um pouco , da Tiffany´s ao camelódromo , aos som das harpas paraguaias e dos jingle-bells . O maior fenômeno de franchaising jamais imaginado, usando como representante e testa-de -ferro um gordo velhinho de longas barbas brancas com um surrado uniforme vermelho. Muitas crianças acham até que Tu és o filho do bom-velhinho ; deviam pensar que Tu serias no mínimo o neto, mas a mídia também sabe fazer milagres. Comemoramos o Teu nascimento nas cores verde e vermelha; o verde simboliza a árvore de Natal, o pinheirinho da neve, que todos se obrigam a ter num canto nobre da sala, não importa se colocado num clima tropical ; o vermelho representa as vestes de Papai-Noel que anuncia o Teu nascimento e a liquidação do Ponto Frio. Assim, deves abençoar a toalha de mesa natalina, os enfeites das portas e todos os demais objetos feitos nessas cores, verde e vermelho, que anunciam a festa que vamos ter.
Há anos Estás nesta manjedoura com os braços eternamente abertos, inerte e contemplativo, por demais crescido para um recém nascido,enquanto teu usurpador ágil, juvenil, parecendo ele a criança festejada, vem de pára-quedas ou de helicóptero, recebe a cidade para si e distribui milhares de presentes sob os olhares hipocritamente humildes do governador ou prefeito; ei-lo acolá, cantando e badalando o seu inseparável sino, no centro de uma rica, perfumada e profusamente iluminada vitrine; ei-lo ali, na encalorada avenida saudando a todos em nome das Casas Bahia.
Eu sei que Tu me viste fazendo muitas destas coisas; envergonhado não consegui olhar-Te. Procurei imaginar-me como um robô programado para cumprir todas as etapas do natal moderno, pois não é possível modificar o modismo disfarçado de tradição e comportar-se de maneira diferente . Mas espero que também tenhas visto que dentro do robô havia um coração, que constrangido e pesaroso, dizia-Te entre suas batidas: Desculpa-me por não Te convidar para a festa que não é tua ; far-Te-ei uma homenagem no silêncio do meu quarto.

Heitor Rosa é contista, romancista e médico. Entre outros tem as seguintes obras literárias publicadas :
1.
ROSA, H. . Memórias de um cirurgião-barbeiro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. v. 1. 208 p.
2.
ROSA, H. . O Enigma da Quinta Sinfonia. São Paulo: Escrituras, 2000. v. 1. 128 p.
3.
ROSA, H. . Os ossos do coronel Azambuja. Ribeirão Preto: Fábrica do Livro, 1998. v. 1. 160 p.

6.11.08

A MOÇA DO PASSAREDO

A moça andava sobre pássaros, daqui para lá, de lá para cá. A moça era bonita, tinha riso de ternura, olhos de amêndoas encabuladas, cabelos da cor do melaço, nem curtos nem longos, lisos e escorridos. Sua boca combinava como os olhos, que combinavam com o nariz e as maçãs da face. Acho até que não tinha face, pois quem tem uma pode ter duas faces e, ela, parecia ter uma só, de tão bonita que era; por isso ela tinha rosto, expressão. Sua expressão era a soma do que diziam seus olhos, a boca, o nariz, os cabelos e as maçãs da face. Mas ela tinha pescoço comprido, que percebia-se quando prendia os cabelos; ombros esguios, peitos salientes, nem grande nem pequenos, bunda recheada, pernas torneadas e pés delicados, vestidos em um sapato bem baixinho, de couro macio.
Voar com pássaros era o seu trabalho, pois como todo mundo, precisava trabalhar para ganhar dinheiro, para se sustentar e realizar o que gostava. Mas estava na face, ou melhor dizendo na cara, nesta também não, na expressão, que ela parecia gostar daquele trabalho. Quando agente quer saber algo sobre o que alguém nem falou, é só dar uma olhada na expressão e saber o que os olhos, a boca, o nariz, os cabelos e as maçãs da face se reuniram para dizer. Não é tão fácil assim, mas treinando aprendemos a entender o que falam as pessoas quando estão caladas.
A moça trabalhava na barriga dos pássaros de metal. Dentro deles cabiam trinta cadeiras e trinta pessoas sentadas para voar. Gente séria, carrancuda, que de trinta em trinta, iam para aqui e acolá.
Uma coisa interessante era ver que os pássaros de metal não batiam asas, ficavam com elas sempre abertas parecendo um urubu ou uma gaivota planando pelo ar. Eles também não cantam! Quando vão voar, duas barriguinhas que estão embaixo das asas começam a fazer um barulho feito um aspirador de pó.
Dois homens sentados no bico, com chapéu de general, são os únicos que podem olhar o céu pelos óculos do pássaro de metal. Eles não deixam a moça sentar no lugar deles. Ela entra e pede para sentar e eles não deixam, então ela volta. Ela vai lá novamente e diz que dará comidinhas se eles deixarem ela sentar um pouquinho só, e nada. Então ela sai dando comidinhas para as trinta pessoas sentadas e nenhuma deixa ela sentar na janela.
Eu me apaixonei pela moça e fiquei olhando para ela e ela olhando para mim. Quando eu fui descer, olhei para ela bem muito. Desci uma escadinha, sentei no ônibus e continuei olhando e vendo que ela me olhava.
Ela então me soltou um beijo e um adeus. Eu larguei a minha mala, desci do ônibus, correndo, subi a escada, abracei-a, dei-lhe um beijo na boca e depois perguntei-lhe: quer casar comigo? E ela quis.

Waldir Pedrosa

11.8.08

SE PERDOEM… É DIA DOS PAIS.

Waldir Pedrosa Amorim

Descobri com a ajuda de outros e auxílio da reflexão, ser bem mais difícil perdoar a si próprio, que perdoar a quem quer que seja.
Não falo aprendi, porque, vez por outra percebo que tropeço sobre as minhas pernas. Quando olho, lá estou implacável comigo.
Diante do relacionamento humano e com os seres sencientes, vislumbramos a compaixão, o tentar enxergar sob a perspectiva do outro, como uma plataforma a ser construída com esmero, estudo e meditação. Nada tão importante, afinal moramos de empréstimo e por tempo determinado num universo no qual deixaremos descendentes. Ademais, somos seres reflexivos, capazes de explorar e obter consciência do passado, presente e das perspectivas futuras da nossa civilização.
Sem dúvida a compaixão confecciona no indivíduo a ética humanista tão desejada para o viver em sociedade e para o usufruto da natureza.
Não podemos afirmar que vivemos um mundo compassivo, tampouco um mundo interior propenso a acatar as peculiaridades e circunstâncias individuais.
Verificamos que nenhuma das religiões pune quem cometeu um ato de desprezo a si, ao contrário o incentiva, seja como forma de autoconhecimento, de purgação ou remissão dos pecados.
Somos seres em dívida, em obrigação moral contraída pelo favor ou através do bem recebido da divindade, da família, da sociedade, da fragilidade imposta pela nossa condição de dependência ao nascer e desenvolver-se, ou do nosso superego, montado diante das nossas vivências.
Neste último caso, vale dizer: somos eternos e implacáveis devedores de nós. Nestas circunstâncias, nos cabe repassar a nossa história pessoal e identificarmos quantas exigências e culpas fictícias, ou melhor, dizendo, com outros significados, carregamos.
Certa vez atendi um cidadão exemplar, bom profissional, extremamente ético, honesto, com uma família equilibrada que lhe dispensava grande respeito e estima. Tinha o diagnóstico de uma doença fatal, incurável, do qual estava consciente. Sua tristeza maior era a culpa que carregava por julgar-se incompetente por não haver amealhado um patamar de bens materiais (semelhante ao dos seus pares, que, considerava de sucesso) para deixar à sua família.
Ao conversarmos, descobrimos ser o seu legado material proporcional ao que poderia atingir um homem integro, inteligente e trabalhador. Esquecera do legado imaterial que construíra. O paradigma que representava para a família e sociedade, a capacidade para conduzir os seus, orientando-os e sabendo partilhar os seus princípios e valores. Sua competência era muito maior do que a média de muitos, em mesmas circunstâncias. Ninguém deseja morrer, mas poderia morrer sem dívidas ou culpa.
Sabemos que a instituição do dia dos pais, das mães, dos namorados, da criança e assim por diante, visa antes de tudo o incentivo ao consumo. Porém, como seres carentes que também somos, terminam por transmitir este caráter de homenagem, avaliação dos papéis e méritos. Por sua vez, são utilizados pela mídia que os transmuta em dividendos econômicos.
Uma meditação e um desejo para este dia:
Que no dia dos pais estes rememorem e comemorem a importância que exercem e as que já exerceram, para o desenvolvimento dos seus filhos e da sociedade. Que se esqueçam culpas, remorso, sensação de que sempre poderiam ter feito melhor.
O melhor é o que é realizado com a intenção amorosa de edificar.

3.8.08

A MÃO NO ARADO

RUY BELO


Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! Como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
Vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
Até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
E haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela
morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
E não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com
que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

In: Eugênio de Andrade - Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa. – Campo das Letras Editores, 1999, Porto Portugal

15.7.08

TE AMO





























Te amo
miseravelmente.

Assim, os agrilhoados,
acorrentados,
degredados,
penitentes.

Te amo,
com volúpia,
paixão,
quebranto.

Hesitante, frágil,
inacabado,
torto e ingênuo,
passado da conta.


Waldir Pedrosa Amorim

13.6.08

Musicais - Um precioso poema de Antônio Carlos Duques.

















MUSICAIS

Antonio Carlos Duques 10.06.08


Sonhei que perdia meus instrumentos musicais,
Acordei procurando-os em outros sonhos,
Me visitei como nunca bem dentro do peito,
Encontrei todas as canções que um dia sonhei compor.


Não havia mistério nem sonhos nas canções,
Rios de lágrimas e sangue de todos os tempos,
Corriam à minha frente, vindo do fundo das eras,
Um mar de mãos em súplicas eram assim lavadas.


Todas as gentes de todos os tempos pareciam reunidas,
Como se fossem um só, e solitário.
E sua boca repetia o refrão de todas as letras sagradas,
"Amor e Liberdade! Amor e Liberdade!"


Acordei, acordei para mais noites sem luas,
Longas noites que pareciam não esperar auroras.
Mas os ventos gelados traziam notas espaciais,
Das musicas e canções dos sonhos de todos os tempos!




Musicais II


Tentei escrever as canções de todos os tempos,
Precisava das mãos de todas as gentes,
Mas não cabiam tantas letras sagradas,
Em tantas mãos lavadas em lágrimas e sangue.


As sombras das eras de opressões sem fim,
Dormiram a todos, esquecidos de si mesmos,
E não haviam mais rios, nem sois, nem luas,
Meus joelhos repousaram em chãos vazios.


Ah! meus vinte anos para que pudesse fugir!
Mas dos cabelos brancos nasceram combates!
Sementes de vidas a todos os mundos,
A todos reunir em círculos de coragem.


Eis que chega a aurora, doce e leve aurora,
Reunindo todas as bocas num único beijo,
Todos os braços num único abraço,
Cantando as canções de amor e os sonhos de liberdade.

MUSICAIS III


Enfim, eis que chega a tão sonhada Aurora,
Ressurgem os sois, as luas, os chãos estão cobertos de verde,
Os rios lavados pelo sangue e pelas lágrimas,
Acolhem meus joelhos e aí abraço o mundo.


As raposas fugiram das vinhas, foram-se as opressões,
Palavras sagradas ecoam em todos os espaços,
Todas as vozes livres a cantar os sonhos de todas as eras,
Amor e liberdade! Amor e Liberdade!


Doce e suave Aurora, que seria de Tu,
Se não fossemos nós a quem iluminas,
Nossos beijos e abraços eternos?
Todos despertos! A noite desfez-se em si mesma!


Agora, o Universo é nossa e única morada,
A Humanidade, nossa e única família,
Não há mais súplicas nem mãos atadas,
Enfim, reencontro meus instrumentos musicais.

Agora concluo o ciclo dos musicais. Eles brotaram da fome, do abandono, dos suplícios secretos impronunciáveis de uma alma essencialmente inquieta. Há dentro de mim uma menina que me sussurra amores sem fim. Mas também combates. Pois que não amor sem combate, e o combate sem amor mera tolice humana. A isso chamo de liberdade.Que os Musicais, possam ser uma pedra desta longa escada que um dia nos torne verdadeiramente livres. A.C.D
Fotos : Aurora Insone no Bessa, by Waldir

28.5.08

O Médico poeta Gilmar Amorim lança novo livro de poemas: Atitude Pardal.



LITERATURA -
Gilmar Amorim lançou em 27/05/2008 “Atitude Pardal”
____________________________________________________________________
O gastro e hepatologista Gilmar Amorim poderia estar cansado da rotina de ser médico e conviver com a angústia alheia. Ao contrário do que se imagina ele resolveu escrever suas sensações em forma de poesia e assim tornar seus dias mais leves, como as palavras. Os versos poderão ser lidos no livro “Atitude Pardal” que será lançado hoje, às 19h na livraria Siciliano no Midway Mall. Para ele, o nome do livro é uma referência aos pardais, o pássaro comum que assemelha-se ao ser humano comum, esse que sente, chora, ama e não é visto pelos outros. “O livro traz poesia e palavras que podem traduzir momentos vividos por personagens do cotidiano. Atitude pardal reflete a busca do bem, O incomodar-se com o sofrimento do próximo. Calar e falar. Chorar e sorrir, valorizar o momento que passa. É um convite à reflexão”, contou o poeta.Em 85 páginas entre a poesia e o conto, o autor divaga questionando a existência, o esquecimento, a solidão e o ritmo acelerado dos dias. “Comecei a perceber que a vida da gente vai sendo engolida na agilidade. E nós médicos convivemos diretamente com a dor e os sentimentos das pessoas”, contou. O primeiro poema aconteceu para Gilmar quando ele tinha 43 anos de idade, no início de suas pesquisas para o mestrado na comunidade próxima rio Potengi. “O poema falava sobre o rio e a estrada de ferro que dividem a cidade. Ali eu comecei a escrever minhas impressões e não parei mais”, contou.Os primeiros poemas foram publicados no livro “Ser Pardal”, editado também pelo Sebo Vermelho em 2003. Para a obra que será lançada hoje, o médico e professor de medicina teve apoio direto do editor Abimael Silva. “Ele era meu paciente. E de repente parecia que nos conhecíamos há muitos anos. E isso foi maravilhoso e totalmente ao acaso”, lembra Gilmar.A orelha do livro assinada por Abimael traz suas impressões. “Logo na apresentação da consulta médica percebi que não estava diante de “mais um” médico, e sim de um profissional humanista da mais alta competência. A poesia de Gilmar só tem uma preocupação: mostrar que todo pardal também tem sua importância na paisagem da cidade”, trecho da orelha assinada por Abimael. De um livro para o outro foram cinco anos de produção e escrita. “Todos os dias o poema chega. Eu gosto de estar perto dele e escrever o que vejo e sinto”, disse Gilmar.Leitor de Pablo Neruda, Cecília Meireles, Jorge Luís Borges e autores potiguares como Vicente Serejo, Gilmar não tem pretensão nenhuma em ser poeta, sua vida está para a medicina assim como as palavras estão soltas ao vento. “Tenho apenas um único desejo com minhas obras poéticas. Tocar o coração das pessoas e levar a elas um pouco de tranquilidade”, contou.

Poemas do cotidiano Muitos poemas e contos surgiram de maneira inusitada. Como o poema chamado “Deixe a frase terminar”, que conta a história de uma senhora vendedora de tapiocas que abordou o médico e um colega seu na saída do hospital. “Lembro que ela encontrou a gente e o meu colega queria dar-lhe dinheiro. Ela ficou realmente indignada e disse doutor não me dê dinheiro compre minha tapioca. Nunca esqueci isso”.Suas inspirações além dos pacientes, são os meninos nos sinais de trânsito, as pessoas nas ruas, nas esquinas e a natureza. “tudo o que observo pode virar um poema”. Exemplo disso é a fotografia da capa do livro - tirada por ele - referente a uma árvore tamarineira que fica no pátio do hospital Onofre Lopes, local de trabalho diário do médico. “Essa árvore foi plantada por uma pessoa que desejava o bem de todos. Ter uma árvore num lugar em que a dor transita é uma benção. E é assim que desejo que meu livro seja para as pessoas”, finalizou o médico poeta.
Fonte e autoria:
Tribuna do Norte - Natal, Rio Grande do Norte 27/05/2008 -
por: Júnior Santos

22.5.08

Arte de amar

Thiago de Mello


Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.
Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.

15.5.08

Vidas Quase Cruzadas - por Luciano Siqueira




Dela soubemos apenas que nasceu em Fortaleza, mudou-se para o Rio de Janeiro onde viveu a infância, a adolescência e o começo da juventude, e alterou períodos fora do país – não disse onde – com retornos intermitentes à terra natal. O sotaque carioca conserva. E o gosto por peças e símbolos orientais, que mistura com motivos nordestinos na decoração da pousada. Tem um cantinho meio esquisito, uma pequena edificação em taipa, onde se encontra um tosco altar para os que desejarem fazer suas preces.
– Religião não tenho, mas sou adepta da filosofia budista, explica.
De suas andanças e vivências, exibe no corpo tatuagens que quem olha não entende, carece de esclarecimento. Sim, tem também o marido, que usa óculos escuros para proteger a vista do sol, meio obeso e fala ao jeito gaúcho.
Ao café da manhã, demonstra intimidade com quatro hóspedes mulheres que lhe relembram a conversa da noite anterior:
– Que história tem vocês, hem. Nós também temos nossas histórias, hoje a gente continua daquele ponto: quando e como tudo começou. Trocam risadas e resmungos, como se segredos estivessem a revelar.
Na promessa de detalhes, feita pela branquela, um quê de cumplicidade. São dois casais do mesmo sexo.
Fazíamos nossos pratos, abacaxi, melão, mamão papaia, tapioca, ovos fritos, queijo manteiga, presunto. Suco de acerola. Café forte. Não éramos parte do pequeno grupo que se formara em torno da mesa larga. Nossas intimidades não interessavam, certamente nada tinham a nos contar numa manhã de sol esquentado, naquele mormaço debaixo da grande caiçara. Não tínhamos compartilhado como elas, na noite anterior, coisas vividas, sonhadas, sofridas e comemoradas. Ficamos à mesa na quina, mais distante, já não ouvíamos a conversa, nem ouviam o que dizíamos.
Entre peças artesanais nordestinas e abajus e estatuetas budistas, espalhados pelos diversos ambientes da pousada, livros e revistas em diversas línguas e uma coleção quase completa de Bravo! A capa sobre os cinqüenta anos de Grande Sertão: Veredas deu o mote para breve troca de impressões sobre o gosto comum pela boa leitura. Nada mais que isso.
Dia seguinte seguimos viagem pelo litoral cearense, deixando a saudação habitual de um bom dia, um abraço fraterno, a paga pelos dois dias ali vividos e a leve frustração, nossa, não sabemos se dela também, por não havermos entrado na roda e compartilhado coisas da vida, de nossas vidas.
Nossos destinos por estradas distintas, em paralelo, talvez mais: bifurcados, faltos daquela oportunidade de entrosamento, vidas que não se cruzaram. Por um pouquinho de nada.




Luciano Siqueira escreve uma coluna mensal no site Interpoética http://www.interpoetica.com.br/
que é reproduzida no blog http://www.lucianosiqueira.blogspot.com/.

8.5.08

A Moça do Sonho CHICO BUARQUE

Foto by Sadrope, Musée D'Orsay,Paris 2007
Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó.

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu.

Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez.

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais.

24.4.08

Wellington Pereira no Clube do Conto.

Matéria para divulgação enviada pelo escritor Antônio Mariano.

O Clube do Conto da Paraíba dá continuidade ao círculo de conversas sobre narrativa de ficção com o escritor Wellington Pereira neste sábado, 26, em João Pessoa, às 18 horas, na Associação dos Moradores do Conjunto dos Bancários, em frente à Praça da Paz, no mesmo bairro. O projeto traz no último sábado de cada mês um prosador para um papo com integrantes do grupo e o público interessado.

As reuniões do Clube do Conto da Paraíba acontecem todos os sábados desde 2004 e consistem de leituras de narrativas curtas de ficção. O Clube do Conto da Paraíba é integrado por escritores paraibanos ou radicados no Estado. Surgiu de uma lista de discussão na internet criada e moderada pelo poeta e ficcionista Antônio Mariano. O grupo é aberto a quem quiser participar e tem ganhado visibilidade na mídia nacional, atraindo o interesse de escritores de outros estados que querem agendar encontros para interagir com a literatura e os leitores da Paraíba. A cada reunião os escritores trazem contos produzidos a partir de tema que elegem na semana anterior, expondo os mais diferentes e curiosos assuntos ficcionais, com contribuições de Ronaldo Monte, Dora Limeira, Cláudio Lopes Rodrigues, André Ricardo Aguiar, André Dias, Waldir Amorim, Laudelino Menezes, Mercedes Cavalcanti, Roberto Menezes, José Brendan, Antônio Mariano, Joana Belarmino, Philio Terzakis, Raoni Xavier, Geraldo Maciel e Maria Valéria Rezende, entre outros.

Wellington Pereira é professor do Departamento de Comunicação Social da UFPB. Graduação em Jornalismo e Mestre em Literatura Brasileira pela UFPB e Doutor em Sociologia, título obtido na Universidade Paris V – Sorbonne. Pereira leciona na Pós-Graduação em Sociologia (UFPB), sendo vice-coordenador do Mestrado em Comunicação (UFPB). Desde 2002, Wellington Pereira coordena o Grupecj – Grupo de Pesquisa sobre o Cotidiano e o Jornalismo – Decom – UFPB – tendo organizado, junto aos alunos pesquisadores, os livros: 1) Leituras do Cotidiano, 2) O Trabalho de Sísifo; 3) Epistemologias do Caderno B; 4) O príncipe lê jornais. Wellington publicou individualmente os seguintes livros: 1) As possibilidades do róseo(ficção), 2) Chanel 19 – histórias no feminino(ficção), 3) Vovó nos protege? – histórias infantis para gente grande – ficção -, 4) O beijo da noiva mecânica – ensaio sobre mídia e cotidiano, 5) Diário de um zappeur – TV, insônia e vida cotidiana -, 6) Crônica: arte do útil e do fútil- ensaio sobre a crônica no jornalismo impresso. Em 2007, o professor Wellington foi um dos vencedores do Prêmio Rumos Itaú Jornalismo Cultural na categoria Professor de Graduação, com a pesquisa sobre os cadernos culturais dos jornais de João Pessoa. No ofício de jornalista, Wellington atuou no caderno de cultura Gente e Lazer do Jornal O Norte, foi editor do suplemento literário Correio das Artes, secretário de redação da revista Em Dia e colunista semanal dos jornais O Momento, Jornal O Norte e Correio da Paraíba.

20.4.08

Ricardo Anísio acrescenta Canção do Caos à sua obra poética publicada.




Todo

Eu sou a largura da enseada
Nada me comporta, nem a vida
Nem os amores ilhados
Sou como ferida devorando a pele!

Sou a madrugada engolindo abrolhos
Dragão do mar que vomita esmeraldas
Necessito dos charcos para bisar
Sou o Tejo cortando as veias do Porto.

Sou um iguana nas geleiras do Norte
Ruminando em si a própria sina
Quanto mais como e me arrasto
Sou predador minha alegria

Sou arquétipo de desesperança
Musa banguela que morreu de fome
Também sou o ateu na Capela Cistina
Sou Cristina procurando seu Édipo

Eu sou a praga búlgara sobre a Lapa
Sou o baião cantado na Sibéria
Tenho dois bodoques e uma cítara
Mas minha lira foi degredada

Sou todo eu e não me estanco
Cada vez que embalo o filho morto
Ouço a coruja cantar boleros
E cavo dez mil sepulturas de espera

De mim porém nada espero
Senão mirrar sob a nevasca
E me imantar em pleno brejo
Ouvindo o pio agourento da noite.

In: Anisio, Ricardo; Canção do Caos João Pessoa: Forma Editorial;2008. 112 páginas.

Ricardo Anísio acrescenta Canção do Caos à sua obra poética publicada.
Flávio Tavares faz ilustrações

Não é difícil falar pouco ou muito de Ricardo Anísio. Poeta, escritor, jornalista, crítico musical e cronista habituado a assentar a razão e o destemor ao seu trabalho. Assume o ofício de semear no leitor o gosto pela verdade, pela conquista da liberdade de dizer, de pensar ou, de desdizer algo que novas evidências passem a refutar. O poeta mesmo se denuncia: Sou todo eu e não me estanco. Este sem dúvida seu traço peculiar; que a mim encanta, por representar uma mente aberta ao futuro, ao novo e ao progresso de sua comunidade.
Em muitas latitudes, trabalha a imprensa mediocrizada pelos anunciantes, categorias dominantes, ideologias dos proprietários de jornais e pelo próprio leitor.
Se imprensa e música paraibanas haverão de se regozijar muitíssimo por possuir Ricardo Anísio em suas hostes, a poesia se sente ainda mais guarnecida com seus cantos verdadeiros e doridos, enfeixados em versos livres. Privilegiados e meritórios versos, lidos pelo ângulo do nosso Flávio Tavares nas ilustrações internas. Este, um artista que me emociona; vindo a ser uma outra estória. Adquirir, ler e divulgar este livro é uma obrigação nossa.

Waldir Pedrosa Amorim

Uma matéria interessante sobre livros autores e editoras.

O admirável livro novo

Por: Paulo Rezzutti, no Blog Bazar das Palavras

"Você faz o seguinte: calcula 10% para o distribuidor, e de 50% a 60% para a livraria que vai vender", foi o que me disse um velho distribuidor de livros paulistano ao telefone na semana passada. Atônito, eu exclamei: "Mas o preço final do livro, desse modo, fica muito alto!". Mais atônito fiquei foi com a resposta: "O cliente que rebole para comprar"...Graças a esse pensamento edificante temos mais sebos no Brasil do que livrarias de obras novas.No começo de novembro, recebi um telefonema de uma grande livraria que tem sede em São Paulo e filiais no Brasil todo. Devido à grande procura do "Uma Festa Brasileira", me contataram para comercializar a obra. Queriam 50% do preço de capa. Eu disse que não era possível, o usual no mercado livreiro é 40% de comissão para compra da mercadoria e 30% para trabalhar consignado. Além do mais, a livraria queria um prazo de 60 dias para pagar os livros adquiridos em consignação. Não houve negócio. A mesma livraria, ou melhor, outros vendedores e compradores dela, voltaram a me ligar sistematicamente, sempre com a mesma proposta. Ou eles se fazem de idiotas para vencer pelo cansaço, ou o mito da grande livraria é somente um mito, pois não existe um comando centralizado e cada um, vendedor e comprador, faz o que quer.No final de janeiro, uma das filiais dessa grande livraria me ligou. Queriam o livro; tinham interessados, óbvio, pois algumas matérias publicadas em revistas de companhias aéreas nacionais e internacionais ficaram a bordo de seus aviões por quase dois meses no período de férias e isso começou a significar mais pedidos do livro. Pois bem, essa filial chegou a um acordo razoável. Aceitava negociar a 40%, porém em consignação e com acerto em 60 dias. Bom, se eles se dobraram a comissão, eu me dobrei ao prazo, e assim, cada um cedendo um pouco, deu para fazer negócio, afinal negócio só é bom quando é para ambos os lados.Mandamos cinco livros para a filial. Porte pago por nós... Provavelmente o acordo celebrado verbalmente gerou um cadastro da obra no sistema deles. Em fevereiro recebemos cerca de vinte pedidos, dessa vez não mais em consignação, e sim de compra, no mesmo patamar da negociação anterior, 40% de desconto e pagamento em 60 dias. Os livros foram entregues na sede paulista da livraria e redistribuído para as filiais... até que... alguém, dentro desse sistema verbal-administrativo-caótico, descobriu que aquela filial cometeu o terrível pecado de trabalhar com margem de 40% em um livro. Ligaram para lá, comeram a alma da compradora, ela me ligou e disse que as próximas compras não poderiam mais ser na base de 40%, e sim em 50%. Minha resposta: passe bem.Se tem uma coisa que eu aprendi trabalhando com livros é que não se deve ter pressa de vender certos títulos. Alguns realmente quando pegamos jogamos preço baixo para não ficar ocupando lugar nas estantes, porém outros não: têm o preço certo, o cliente certo e o tempo certo de vendas. E, graças à competência da nossa editora e de todos os envolvidos no projeto desse livro, ele está tendo uma boa saída. Tão boa que nas próximas semanas alguns exemplares estarão chegando a Paris, onde serão comercializados pela Livraria Portuguesa. Outros irão para o estande brasileiro da Feira do Livro de Paris, e talvez, para a Feira do Livro de Frankfurt. Os europeus realmente sabem apreciar a cultura; aqui no Brasil, a cultura, alguma, não todas, só sabe apreciar o lucro que pode obter em cima dos outros.

waldir Pedrosa Amorim disse...
Parabéns pelo seu Blog. Sua constatação no seu post "O admirável livro novo" infelizmente é a pura verdade. Nossa indigência cultural é muito grande; afeta quem não lê, quem não é lido e quem não pode ler. Os três segmentos desta cadeia são desestimulados. O primeiro não é seduzido, o segundo desencorajado por falta de realimentação da crítica mais oportuna que é a do leitor; produz bobagem para se envaidecer, ou então se desestimula. O terceiro, será sempre o mais afetado, mas vive da esperança, da biblioteca, do sebo, do empréstimo, do aluguel ou da internet. Somos uma sociedade curiosa. Temos fartura para quem não necessita de alimento. Dieta de fome, para os desnutridos. Alimento desapetitoso para os anoréticos. Diante de tanta adversidade programada, não carecemos de mais nada para compreender o nosso atraso ancestral. Deveria ser proibido falar de incentivo à cultura.E as editoras prosseguem traduzindo e editando os "best sellers" e enlatados de alhures.
Peço-lhe permissão para publicar este seu texto no meu Blog
Cordialmente,Waldir Pedrosa Amorim

5.4.08

CICATRIZES

Samuel Hulak


Ma se choro a dor de ferimentos fundos,

fundas fendas que abertas inda sangram,

não lamento os gemidos idos ou presentes

nem maldigo como infeliz a cicatriz

que tenha, pois que é minha e só minha

e de dentro para fora eu a fiz sozinho;

e se a feia crosta se percebe,

a epiderme sorridente a recebe

no abrigo destas rugas, fibras, malhas,

como amigas ou presentes ou medalhas.

29.3.08

AS AVENTURAS DO INSPETOR FRANCELINO

pelo escritor Heitor Rosa


DEPARTAMENTO DA POLÍCIA FEDERAL

10 horas: O misterioso rapto da Sabina


O dia parecia normal no gabinete do inspetor Francelino, chefe da divisão de seqüestro da Polícia Federal. Os casos de sempre, cerca de vinte investigados em diversos estados da Federação, fax chegando aos metros, celular definitivamente pregado à orelha, caixa de e-mails abarrotada, uma pilha de processos de quase cinqüenta centímetros de altura, à espera de despacho e uma secretária que não cessava de colocar sobre a mesa memorandos e ofícios. Enfim o de sempre. Rotina, rotina.
Era rotina até que a luz verde do telefone especial começou a piscar e bipar. Sinal de urgência e prioridade um. O inspetor avançou ao aparelho, esqueceu o celular e pisou sobre o tapete de faxes.
— Sim?
—Chefe, é o Rubão. Coisa grossa à vista. Internacional.
—Só faltava isso. Desembucha!
—A gente temos notícia que raptaram uma moça na França.
—Pelo amor de Deus, Rubão. E a gente com isso? É brasileira?
—Parece. Ainda não temos todos os detalhes. Nosso agente em Paris vai mandar tudo assim que puder.
—Qual agente?
—O Tavares, que foi em Mônaco, ver o negócio do Cachola.
—Cachiola, Rubão. E daí?
—Bem, o caso é que leram pra ele no jornal de lá, que a moça raptada vem para o Brasil.
—Mas que loucura é essa? Como descobriram que a mulher raptada vem para o Brasil?Como é que pode? E ninguém avisa nada pra gente? E o serviço de Imigração, ta dormindo?
—Calma, chefe. Só estou falando o que me informaram. Parece que a moça trabalhava num museu de Paris, e um cara, com certeza tarado, pegou a mulher, à noite, depois que fecharam a casa. As câmaras internas fotografaram o seqüestro. Uma puta sacanagem.
—E não identificaram o cara? Tem deputado envolvido?
—Ainda não. Vou passar o fax da foto que apareceu no jornal de lá e depois mando mais notícias. O senhor vai ver que o cara é tarado mesmo.
—Então manda logo, pois acho que essa história está mal contada. Enquanto isso, vou checar com o pessoal do Itamarati.
—Ta certo, chefe, Lá vai.

De: Agente Rubão 027
Para: Setor Verde

Chefe, essa foi a foto que apareceu no jornal . Ainda não prenderam os caras .




Francelino não pode conter a indignação.Sacanagem da grossa, putaria mesmo, em pleno edifício público.Não foram só os políticos brasileiros e americanos que perderam a vergonha. O flagrante foi sensacional e com tanto detalhe, que o seqüestro seria resolvido lá mesmo, na França. Mesmo assim, resolveu esquecer a besta do Rubão e chamou o Tavares em Paris.
— Alô chefe Francelino. O que o senhor manda?
—Tavares, que história é essa de seqüestro que vem para o Brasil?
—É o que vi no jornal hoje, chefe, no France Só ir.
—Eu não sabia que você lê francês.
—Dá pro gasto.
—E então?

—O senhor deve ter recebido o fax do flagrante. Foram dois caras, que estavam estuprando uma moça. Todo mundo pelado. Um é mais velho, que aparece entre as pernas do estuprador; pode ser viado. Li aqui que um deles foi reconhecido e se chama Giambolonha.
—E a moça?
—Bem, pode ser uma dessas brasileiras que vem para a Europa se prostituir, e que para disfarçar devia trabalhar como atendente ou faxineira no museu, sei lá. Ou topou a sacanagem ou foi mesmo seqüestrada.
—Quer dizer então, é que, se pegarem os caras e a moça, ela será deportada para o Brasil, certo?
—É isso aí, chefe. É o que também acho.
—Só tem uma coisa Tavares...
—Diga,chefe.
—Bandido só seqüestra para pedir resgate. E para quê e por quê dois caras iriam raptar uma prostituta? Se é uma puta, com certeza é de família pobre, sem dinheiro.
—É verdade, não tinha pensado nisso.
—Então, a moça devia ser uma turista e de família conhecida e muito rica no Brasil. O jornal fala em resgate?
—Ainda vou ver...
—Porra, Tavares, você lê ou não lê francês? Quem sabe o jornal tá falando que uma moça brasileira foi seqüestrada. Olha, seja discreto, vai se informando com a Interpol daí, enquanto eu vou telefonar para nossa embaixada.


—Embassé du Brésil, bon jour.
—Alô. Aqui é do Brasil.
—Pois senhor. Em que posso servi-lo?
—Aqui é o inspetor chefe da divisão de seqüestro da Polícia Federal. Quero falar com o embaixador.É urgente.
—Seu nome, por favor?
—Inspetor Francelino.
—Senhor inspetor, o embaixador Castelo Branco encontra-se em Bruxelas, mas o senhor pode falar com o secretário Fogaça.
—Ta certo. Chama ele.

—Secretário Fogaça, bom dia.
—Bom dia, secretário. Aqui é o inspetor Francelino da PF de Brasília, divisão anti-sequestro.
—Pois não, inspetor. Como posso ajudá-lo?
—Secretário, fui informado aqui em Brasília, que uma moça brasileira foi seqüestrada, e a polícia francesa está procurando por ela para deportá-la. O que o senhor sabe a respeito?
—Nada , inspetor. Como o senhor conseguiu essa notícia?
—Apareceu no jornal daí.
—Que jornal?
—Um tal de France Só ir.
—Ah. O France Soir. Um minuto, vou apanhá-lo na minha mesa.
..............
—Inspetor!?
—Estou ouvindo, senhor secretário.
—Olha, a notícia que temos aqui é a de que o Rapto da Sabina sairá do Louvre pela primeira vez e vai ao Brasil.
—E o seqüestrador é o tal de João Bolonha. Confere?
—Inspetor, isso é uma obra de arte e o autor é o italiano Giambolonha.
—Quer dizer que o senhor já sabe o nome do seqüestrador e da moça. Sinto muito que o senhor pense assim.
—Não entendi, inspetor.
—Tem muita gente que acha que o crime compensa, que o crime perfeito é uma obra de arte. Essa Sabina deve ser do Maranhão, parente do coronel Sabino, meu conterrâneo. E se esse italiano mafioso e safado vier aqui, vai ser preso imediatamente. Deve ser amigo do Cachiola. Se vocês não querem nos ajudar, vamos acionar o pessoal do Serviço de Inteligência, e vamos ver por que estão encobrindo os fatos. Até logo.
— Alô, inspetor! Alô, alô...


15 horas: OUTRO CASO PARA FRANCELINO: UM QUADRO ROUBADO

—Inspetor Francelino, falando.
—Bom dia, inspetor. Aqui é o secretário Rivera, do Ministério de Relações Exteriores.
—Pois não, seu Rivera. Qual é o pepino dessa vez?
—Pepino nenhum, inspetor. De ordem do senhor Ministro, queremos alguns agentes para segurança do Guernica, que vem de Madri para o MAM em São Paulo.
—Olha secretário, temos ordem pra não deixar entrar. Questão de reciprocidade.
—Mas o Guernica vai para o museu.
—Pior ainda, museu não é hotel. Ele tem de dar um endereço de hotel. Quantos dias ele vai ficar?
—Trinta dias.
—A gente pode dar até noventa dias, se tiver tudo nos conforme. Quantos anos ele tem?
— Mais de sessenta.
—Então ta vindo pra programa de prostituta. Não entra mesmo.
—Inspetor, não seja ridículo. Esse Guernica é um Picasso.
—Não interessa o nome da família. Pode ser até um Matarazzo. Se não estiver tudo legal não vai entrar. Agora, se é o próprio Itamarati que ta bagunçando, então vamos deixar entrar todo mundo, e eu ponho o meu cargo à disposição.
—O senhor não entendeu,inspetor. Esse Guernica é o nome de um quadro, uma pintura.
— Roubada por esse Picasso!
—Escuta,inspetor, pelo amor de Deus...
—O senhor não precisa ensinar o meu ofício. Recuperamos a obra e prendemos o traficante Picasso. Como vocês descobriram que o quadro vai sair de Madri e o receptador trabalha no MAM? Qual é o número do vôo?
—Inspetor, a gente se fala depois. Vou tomar um remedinho para o estômago.Até logo.
...
—Só dá viado nesse Itamarati. Ninguém diz coisa com coisa! Depois, é a PF que é corrupta.

17.3.08

O fim do mundo


Ronaldo Monte


Há muito tempo assisto o fim do mundo. Uma certa parte do mundo, aquela em que vivo e vivi, padece de uma lenta e permanente agonia. Já se foram quase todas as casas em que morei. E junto com elas se foram as pessoas que ali moraram comigo. Os bairros de minha infância e juventude sofreram uma torção que os tornaram monstros de si mesmos. Não sei mais onde gastei a sola dos meus sapatos. Não reconheço as ruas que doeram em meus olhos e ouvidos.Quanto mais vivo, mais despovoado fica o meu mundo. Inúteis muitos dos números de telefones em minha agenda. Ninguém mora mais ali, ninguém mais me espera neste bar, ninguém mais adivinha a hora em que os copos estão sendo trazidos para a mesa do terraço.
Não tenho mais circunstâncias. Eu sou eu e um grande vazio em volta. E o anjo do vazio espera pelo único acontecimento que o torne completo, perfeito, sem falha. O anjo do vazio espera por mim neste vazio. Para decretar definitivamente o fim do mundo. Deste mundo que ainda insisto em manter com minha mísera presença.
Mas ainda haverão de esperar anjo e vazio. Porque ainda tenho memória. Ainda sei como são os homens. E a memória me fornecerá o molde com que forjarei novas presenças. Breve terei um mundo mínimo com o qual recomeçar.

Clube do Conto da Parahyba.
13.03.2008

Ilustração obtida em: br.geocities.com

http://www.blog-do-rona.blogspot.com

21.2.08

Clube do Conto da Paraíba recebe no dia 23/02 a escritora Rosângela Vieira Rocha.


No próximo sábado, às 18 hs, o Clube do Conto da Paraíba, (no terraço da Associação dos Bancários, na Praça da Paz) receberá a escritora Rosângela Vieira Rocha para um bate-papo sobre criação literária. O evento é aberto aos interessados e aos integrantes do Clube do Conto.



A escritora Rosângela Vieira Rocha, mineira de Inhapim, vive em Brasília desde 1968, mas tendo vivido longos períodos em São Paulo, em Pamplona (Espanha) e em Salvador
da Bahia. É atualmente professora do Departamento de Jornalismo da UnB, onde ministra Oficina de Texto e Oficina Avançada de Narrativas para alunos de todas as habilitações do Curso de Comunicação.
Participa atualmente da criação de um grupo de articulação
de escritores brasilienses.

Obras de ficção publicadas:

VÉSPERA DE LUA – Belo Horizonte, Ed. UFMG
Romance vencedor do Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG 1988, tratando a busca da identidade feminina através da metáfora da menstruação que denuncia, a nível
corporal, a tensão e o conflito numa relação homossexual.


RIO DAS PEDRAS - Brasília, Secretaria de Cultura do DF, 2002
Novela vencedora da Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, da Secr. de Cultura do DF, entre outros prêmios, conta a trajetória de uma
mulher da meninice à idade adulta, e sua luta no processo de construção de si mesma, em linguagem lírica e intimista, com boas doses de humor.

PUPILAS OVAIS - Brasília, FAC/LGE Editora
Os treze contos tratam, em
sua maioria, do universo feminino, sem porém nenhum tom reivindicativo. Com lirismo, dor e riso, al;em de detalhes precisos de costumes, a autora reconstitui sua pequena e essencial Inhapim e explora o mundo das metrópoles com igual talento
.

PARTICIPA AINDA DAS COLETÂNEAS DE CONTOS:

antologia do conto brasiliense (org. Ronaldo Cagiano) Brasília: Projecto Editorial/Livraria Suspensa, 2004
mais 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura
brasileira (org. Luiz Ruffato) Rio de Janeiro, Ed. Record, 2005
Todas as gerações; o conto brasiliense contemporâneo. (Org. Ronaldo Cagiano). Brasília: LGE ed. 2006

18.2.08

Casamento



Adélia Prado


Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.



* A escritora Adélia Prado nasceu em dezembro de 1935 em Divinópolis, interior de Minas Gerais. Vive na cidade até hoje. “Adoro lugares pequenos. Divinópolis é a minha Macondo”, afirma, citando a cidade que o Nobel de Literatura, o colombiano Gabriel Garcia Márques, criou em Cem Anos de Solidão. A autora brasileira publicou seu primeiro livro de poesias, Bagagem, em 1976, já mulher madura. Tem sua obra traduzida para o inglês e o espanhol e experimentou grande sucesso com a adaptação de textos para o teatro, como o espetáculo Dona Doida, protagonizado pela atriz Fernanda Montenegro, nos anos 80.

LEIA MAIS...