4.11.07

Fim de semana feliz, recebo dois escritos de Heitor Rosa.

O HOSPITAL E O URUBU

Heitor Rosa

O hospital tinha de crescer
E crescer não podia
Se para isso tivesse que derrubar
A grande árvore que se colocava
No caminho da nova construção.
Palavra do Ibama.


O hospital tinha de crescer
Mas crescer não podia
Enquanto um ninho de urubu,
Na copa da árvore
Abrigasse os filhotes implumes.
Palavra do Ibama!

O hospital tinha de crescer
E crescer podia,
Pois no seu terreno só havia
uma família com uma criança
debaixo de uma lona.
Palavra da Justiça!

O hospital tinha de crescer
Podia e não podia
A Justiça permitia retirar a familia
O Ibama proibia retirar o urubu
Solução: deitar a criança no ninho
Levar o urubu para debaixo da lona

A criança tinha de crescer
Mas crescer não podia
Pois não cabia no ninho do urubu
O urubu tinha de voar
Mas voar não podia
Enquanto a lona seu espaço cobrisse

O hospital cresceu. Cortou a árvore,
Botou o urubu no telhado
O urubu adotou a criança
O Ibama processou o Hospital
A Justiça processou o urubu
A familia fugiu com a lona.

O umbigo do mundo


Um lindo texto de Raija Almeida sobre a maternidade, baseado numa experiência cotejada e curtida com sua primeira filhinha Gabi. No centro, melhor dizendo, no umbigo três personagens: Raija, Ivan e Gabi. No entorno Ronaldo Monte, Gloria, Iandê e Aninha; pai, mãe e irmãos. Na vizinhança, os que temos o privilégio de partilhar a emoção que a gravidez querida promove. Benvinda, Benvinda, Benvinva/Ai que bom que você veio/ e você chegou tão linda.../Benvinda do meu coração!


Dizem que passamos a vida olhando pro nosso umbigo. Ele é o centro do nosso mundo e de certa forma nos reconecta com algo ancestral, visceral e muito, muito interior. Assim, ele, o umbigo, acaba representando de alguma forma, o nosso egoísmo principalmente o modo como pensamos em nós em primeiro lugar.
Acontece que graças a um verdadeiro milagre da natureza essa forma egoísta de ver o mundo acaba mudando radicalmente para uma significativa parcela da população, são mulheres que passam por um processo irreversível de mudança física e psíquica: as grávidas.
Nessa fase tão turbulenta e mágica da vida da mulher tudo muda. O humor, o corpo, os sentimentos, os seios, a barriga que cresce, o embrião que se torna feto, os hormônios, etc. Mas ele, o nosso tão pequenino centro do mundo nunca é lembrado. Logo ele que antes foi o elo que nos mantinha conectado com a nossa mãe, que nos alimentava e que um belo dia é cortado, desconectado, para que possamos viver a nossa própria vida.
Nosso umbigo é um símbolo da nossa independência. Só que o estranho fenômeno da gravidez coloca tudo de pernas pro ar. De repente você não é mais só você. Uma nova vida cresce ali dentro da sua barriga conectado por um outro umbigo. Dois seres, duas formas, duas personalidades distintas coabitam milagrosamente quase o mesmo corpo.
E à medida que este outro ser vai crescendo e tomando forma dentro de você, vai também tomando espaço e nesta disputa interna vai deslocando seus órgãos de lugar, empurrando "praqui" e "prali" o seu estômago, seus rins, coração, pulmão; tudo se reorganiza para dar espaço a ele do lado de dentro do seu corpo e enquanto tudo isso acontece, você nada vê.
Mas outra mudança muito sutil acontece quase despercebida do seu lado de fora. Aos poucos o seu centro do mundo vai simplesmente desaparecendo. Um certo dia você está acariciando sua barriga e de repente percebe que aquele tão antigo e querido buraco, que lhe dava tanto orgulho e segurança está mais raso. E não pára por aí. A cada dia que passa e a sua gravidez avança, seu neném e sua barriga crescem, seu querido centro do mundo vai desaparecendo.
É como se teu corpo estivesse claramente dizendo pra você: "Olha, agora tudo mudou e você nunca mais vai ser só você, agora vai ser também um pouco ele, seu bebê". E assim uma nova conexão é feita, a mesma que um dia lhe nutriu e lhe ligou a sua mãe e ela à mãe dela.
E assim uma nova desconexão é feita, com o seu bebê se desligando de você e você se religando definitivamente nessa incrível emoção de amar incondicionalmente seu lindo e eterno bebê.
Raija Almeida
23 de setembro de 2007.