21.4.07

Lançado em Salvador O Livro de Poemas Casulo Azul - Cadernos de Virgínia -


Casulo Azul
Cadernos de Virgínia

Autora: Virgínia Andrade
Salvador: P555 Edições, 2007
288 páginas com ilustrações de autoria de Virgínia.
ISBN: 978-8589655-24-8
Literatura Brasileira – Poesia

www.p555.com.br



No dia 9 de abril de 2007 foi o lançamento do livro de poemas e ilustrações pictóricas da poetisa Virgínia Andrade, na Biblioteca Central Reitor Macedo Costa, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Uma obra póstuma dada a conhecer ao público nesta data. A autora faleceu aos 30 anos de idade em 18 de maio de 1984. Desde cedo revelou pendor para a pintura, para a música e para a literatura, havendo escrito uma série de crônicas aos 13 anos, que ainda são inéditas. Um dos seus quadros, O Mendigo, integrou a exposição Artistas Bahianos da Nova Geração, como parte da programação do Museu de Arte Moderna da Bahia, em 1970.
Médica pós-graduada em Imunopatologia com cursos de aperfeiçoamento em Imunologia em Lousane, Suíça e no Instituto de Medicina Tropical Príncipe Leopoldo em Antuérpia, na Bélgica; tornou-se posteriormente professora assistente da Faculdade de Medicina da UFBA. A maioria dos seus poemas foi escrita no período de 1981 a 1983, tendo sido resgatados para constituírem este seu primeiro e único livro de poemas.


Estas informações acima as compilei da apresentação do memorável livro Casulo Azul, que me chegou às mãos pela generosidade do seu pai, o insigne professor e pesquisador brasileiro Zilton Andrade, cujo exemplo de ser humano, de cidadão e de homem de ciência transcende o nosso país. Por ele guardo a maior admiração e respeito.
O livro é um primor editorial e contém belas ilustrações. Quem o apresenta não poderia ser mais íntima do universo da autora, trata-se da não menos importante e digna professora, pesquisadora e patologista Dra. Sônia Andrade. No texto Sônia Andrade toma a si, certamente mais um corajoso e pungente ofício de sua trajetória, fazendo-o de uma forma própria, serena e com uma maturidade invejáveis. ─ Não. Não entregarei a outros a tarefa de apresentar os poemas de Virgínia, porque estes transcendem ao seu próprio conteúdo e refletem a alma apaixonada de minha filha. E adiante prossegue: Não se trata de assumir o papel de mãe que preserva sua própria filha perante o mundo, enclausurando em elogios a essência do seu ser.
Se houver alguém que desmereça as apresentações e prefácios de livros, perceberá que neste é parte indissociável da obra. Dimensiona-a no espaço e tempo sem vernizes ou arranhões, com a autoridade da mãe que se desejaria fosse sua, nas mesmas circunstâncias.

Li e reli o Casulo Azul que denso me chegara às mãos pelo correio.
Visitei as reproduções de guache, aquarela. Encantei-me com a alma da autora e com a palavra tão bem acumpliciada com o sentimento.
Estes poemas e reproduções vieram à luz depurados pelo tempo, pela coragem, e com o carinho de pessoas fortes e significativamente belas.
Bastaria isto para que os lesse e folheasse com a volúpia de quem tem nas mãos um tesouro.
Qual nada! Muito mais que um tesouro encontrava-se diante dos meus olhos e às minhas mãos. Deparei-me com pérolas preciosas. Devorei-as e calmamente retornei a sorvê-las homeopaticamente.

Existiram lendas na antiguidade sobre o nascimento das pérolas. Atribui-se aos romanos a crença lendária de que estas resultavam das lágrimas das ninfas e era Vênus a consagrada, por ter nascido nos mares. Os hebreus as relacionavam às lágrimas condensadas de Adão e Eva. E uma fábula oriental, por sua vez, afirmava ser a pérola o fruto do casamento da ostra com o orvalho.
Os mitos precedem a realidade. Hoje sabemos que a pérola inicia-se de uma secreção endurecida que o molusco (a ostra) deposita ao redor de uma partícula irritante que não consegue eliminar.
Se estas não são as lágrimas dos mitos, são produtos da sensibilidade e da dor ─ são metáforas das lágrimas.
Disto é feita a poesia, a pintura e a maioria das artes decorrentes de um sentir humano especial.
A obra poética de Virgínia não é um livro de tristezas por ser póstumo, mas antes um livro de mergulho na alma humana. Não se confunda a dor do sentimento com as lamentações e prantos dos aflitos. O contido neste livro encerra amor, coragem, recomposição, alegria, suavidade, ternura, paixão, carinho, esperança, elaborações e caminhos frequentados pela alma humana. Como erigido no arcabouço humano, claro que não poderia deixar de conter melancolia, tristeza, ensimesmamento.
A nossa cultura tem passo a passo se desumanizado por resistir a falar de sentimentos que são inerentes ao homem. Ao contrário do que se imagina, isto nos torna cada vez mais despreparados para conviver com as vicissitudes.
Sendo a pérola considerada o mais antigo símbolo de perfeição, me consinto fazer analogia com esta obra, que é fruto da genuinidade do sentimento, que é casulo em sendo essencialmente pérola.
No início da leitura deparei-me com um lindo poema de dedicatória intitulado: Só para Isadora, única filha da autora, detentora dos direitos autorais da obra.

Não lhe ensinaremos
aquelas lições
que o tempo ruiu,
de que o homem riu
e que o rato roeu.

Não lhe mostraremos
o caminho
que a terra afogou
que o mapa traiu
onde o homem morreu.

Não lhe traremos
cartilha
com alfabeto ga
gue na
j d
o uma trilha
cívica.
Será atrevimento seu
ir ao jardim de infância
com uniforme azul.
Bahia/78



Este e os subseqüentes poemas, me envolveram em encantamento, confirmaram estar diante de uma especial artesã da palavra, da sutil e rica metáfora, do sentimento genuino. Afloram ora a dor sem ressaibos de amargura, ora a desesperança sem ressentimentos. Contudo nos seus versos há muito mais a ser aurido por quem os aprecia.
Seguem alguns trechos pinçados daqui e dacolá para que se tenha uma impressão desta importante contribuição poética.

[Limites] Limites não imponho nem exerço. / Os meus deixa que resolvo, /São de casa...... As fronteiras namoro, desdenhosa,/Estão verdes./ Como as uvas de tão raras,/ Me dão sede.
[Peito aberto] Gosto de ser secreta. /Por isso deposito sentimentos em plena rua./Solene ante o ato consumado/ Pecados postos à visitação pública/ Aprende-se nas vitrines avenidas/Que disfarce não há melhor que a verdade./ Por isso, de tão tímida,/ atiro pela janela que se abre/Para as tantas distâncias de outros mundos,/ O peito aberto.
[Restos de Dia] ....... Fecham-se distâncias sobre a ilha deserta/ Que já foi fácil.../Difícil acalentar pedaços.
[Metamorfoses] Mutante no mútuo contacto/ Sempre quero passar-me a limpo/ Perdida em metamorfoses/ Deste constante mimetismo.
[Queria] Queria varandas/Guirlandas de flores/ E bandeirolas.
[Coração]......Como faria/Coração cicatriz/Pra sofrer sem um ai/ No ritmo de quem vai/ Tentar ser feliz.
[Em dó maior] Tantos são os motivos para chorar/ Que podíamos inundar os caminhos/ E beber rios de lágrimas/ No café da manhã.........Mas tantos, são os motivos para lutar, / Que é preciso beber/ Em todos os lados da moeda/ E ousar não transformar/ Toda energia em água/ Esvaindo-se de dor. .........
Considero O Casulo Azul ─ Cadernos de Virgínia ─ uma obra atemporal e madura.
Um livro que com certeza se inscreverá, em quem tiver o privilégio de lê-la, como o alimento dorido da boa lavra, da inteligência e sensibilidade de uma mulher de diáfana beleza, que se eternizou.
O seu conteúdo denso e luzidio conduz-nos à reflexão e nos adiciona sentimento em cada página. Saí mais enriquecido de sua leitura. É deleite para a alma de quem ama os misteriosos caminhos do viver. É enlevo.
Waldir Pedrosa Amorim

Terra: pátria de H.D. Thoreau e Joaquim Cardozo

por Maria da Paz Ribeiro Dantas*

À medida que eu avançava na leitura, Caminhando, de Henri David Thoreau me mostrava vários pontos de afinidade com a poesia e episódios importantes da vida de Joaquim Cardozo. Alguns deles: o encanto pela natureza selvagem; a atração pela solidão; a responsabilidade de arrimo de família devido à morte do pai; a lida com a terra no trabalho de medir ou topografar (que ambos fizeram em determinados períodos de suas vidas).
É verdade que se pode ver nesses detalhes simples coincidências externas; mas, que chamam atenção as analogias, isso é inegável. A ponto de sugerirem um rota comum – paralela ? – convergindo para um plano (ou espaço ?) que certamente não é o imediato em que nos movemos. E qual seria esse plano/espaço ? Conjecturas não fazem mal, portanto aqui vai uma: o Clube Transcendental(1), um espaço para se aprofundar existencialmente o Transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson - autor de Natureza - e que, em 1835, se tornou grande amigo de Thoreau. Falta agora unir as pontas: onde entra Joaquim Cardozo nessa história: Bem, uma coisa é estarmos no plano do pragmático, das evidências.Aí, não tem nada a ver. As pontas começam a se entrelaçar quando avançamos um pouco além delas, guiados pela intuição. E adentramos o reino onde “Os Transcendentalistas buscavam a realidade espiritual além das aparências, acreditavam que o homem e o universo eram Deus, e numa vida de harmonia espiritual com as grandes leis da natureza. (...) O desdobramento prático do Clube Transcendental foi o Brooke Farm Institute, fundado em 1841 e que teve considerável sucesso até 1847 – um grupo de homens e mulheres que viveram comunitariamente compartilhando trabalhos manuais e investigações intelectuais.”(2)
O que me impressiona e até me dá uma certa inveja é o clima de companheirismo que envolve o grupo, dando-lhe coesão em torno de um ideal comum, transcendendo, assim, a mera busca de promoção pessoal. Por aí se tem uma linha de convergência com o que Joaquim Cardozo relata ao se referir ao trabalho em equipe, na redação da Revista do Norte e do grupo que a compunha; ao qual não faltava o aspecto comunitário, composto também de lazer, com suas excursões ecológicas e seus passeios pelas cidades vizinhas como Goiana, Itamaracá, Igarassu, guiados por uma motivação que juntava lazer e o conhecimento das peculiaridades naturais e culturais da região; a começar do barroco das igrejas. A propósito, Cardozo via naquele grupo uma afinidade com os poetas franceses que viviam comunitariamente em Créteil, Paris – o Abbaye –daí o nome Abbaye de Créteil. Entre outras atividades, o grupo confeccionava artesanalmente os seus livros.
É verdade que Joaquim Cardozo não chegou a ser um andarilho, no sentido pleno da palavra – ao menos nos moldes preconizados por Thoreau quando falou de sua concepção a respeito do que para ele significava caminhar: “Só conheci uma ou duas pessoas no curso de minha vida que entenderam a arte de caminhar, isto é, fazer caminhadas – que possuíam um gênio, por assim dizer, para flanar, para sauntering: palavra que é belamente derivada de pessoas errantes que vagavam pelo país, na Idade Média, e pediam caridade, a pretexto de irem à la Sainte Terre, à Terra Santa, até as crianças exclamarem: “Lá vai um Saint-Terrer”, um santerreador. (...) Alguns porém, derivariam a palavra de sans terre, sem terra ou sem lar, o que, portanto, no bom sentido, significará sem nenhuma terra, sem lar, mas igualmente em casa onde quer que seja. Pois este é o segredo de santerrear com sucesso. Aquele que fica sentado em casa o tempo todo pode ser o mais errante de todos; mas o santerreador, no bom sentido, não é mais errante do que o rio que segue seus meandros enquanto vai diligentemente buscando o caminho mais curto para o mar. (..) Cada caminhada é uma espécie de cruzada pregada por algum Pedro-o-eremita dentro de nós, para seguirmos em frente e reconquistarmos esta terra das mãos dos Infiéis” (p. 68).
Certo, Joaquim não era fundamentalista a esse ponto (vá lá o termo, já que se trata de um caso de postura radical...). Talvez o fosse se tivesse que optar entre a Terra planeta em seu estado natural e a versão geopolítica na forma como hoje é administrado o mundo.Podemos, aliás, refletir sobre isso tomando como referência o Canto da Serra dos Órgãos (poema III, do Trivium, 1970), onde se encontra uma meditação que vale também como profecia e julgamento:

Da vida natural se desfazendo
Se tornarão bonecos, robôs, títeres, fantoches...
E muito antes que a Terra deles prescinda,
Que a terra recuse suas presenças,
Os homens estarão mortos suicidas; (fragmento)

* Autora dos livros O mito e a ciência na poesia de Joaquim Cardozo (José Olympio, 1985); Joaquim Cardozo ensaio biográfico (Fundação de Cultura Cidade do Recife, Prêmio Jordão Emerenciano 1984); Joaquim Cardozo contemporâneo do futuro. Ensol Editora, 2003).
Editora do site www.joaquimcardozo.com

Leia o texto integral em:
http://www.interpoetica.com/terra_patria.htm

O texto teatral de Joaquim Cardozo: chão cósmico de singulares transfigurações

por João Denys*

O Teatro de Cardozo situa-se singularmente no imaginário estético brasileiro. O conjunto de seus textos teatrais é diferente da produção dramatúrgica do e sobre o Nordeste porque é um teatro da morte, assim como o é toda a sua poesia. Não a morte destruidora da vida e das idéias; não a morte apartada da vida (contra essa ele vai lutar até a morte), mas a morte inserida na vida e propiciadora de vida.
O Poeta-matemático nos provoca porque não faz distinção entre ciência exata e poesia. A paixão que ele nutre pela arte oriental será determinante em sua produção poético-dramatúrgica. Seu teatro de sombras e luzes é povoado de duplos, personagens-morte que caminham em regiões não apenas determinadas pela paisagem seca e hostil, mas pelas contingências históricas, econômicas e sociais.
O tipo de apropriação da matéria popular e suas manifestações; o modo como Cardozo as transfigura não seria análogo a uma operação geométrica? Operação esta que toma a matéria e a retorce, coloca-a pelo avesso, demonstrando que uma forma contém muitas formas e que muitas delas contêm apenas o vazio. É no vazio contido nessas formas que se encontra sua utilidade. Não é este um dos tópicos do livro da sabedoria taoista? O Tao-Te King também povoa as peças de Cardozo: às vezes, subterraneamente, em eternos seres caminhantes, desterrados; outras vezes, explicitamente, em caracteres chineses projetados na cena e em sua tradução vocal, amplificada eletronicamente. Esses elementos, sumariamente levantados, somados às influências que acolheu de tradições teatrais antigas ou modernas, e aos experimentos poéticos-teatrais dos expressionistas August Stramm, Lothar Schreyer e Rudolf Blümners, formaram um autor muito particular entre as singularidades dos autores nordestinos.
Diante da alteridade, vamos retirar Cardozo da Escola do Recife e colocá-lo na escola do mundo, sem delimitações de fronteiras entre Ocidente e Oriente, mas com um ponto referencial: o chão donde brota sua arte. Não há como emoldurar o seu teatro numa ótica aristotélica ocidental. Suas peças são filhas da dança, da música e da poesia como qualquer gênese teatral sobre a face da terra. Sua busca de um teatro absoluto aponta um caminho possível para um teatro brasileiro em sintonia com o teatro oriental, com o teatro de encenadores como Eugenio Barba, Jerzy Grotowski, Peter Brook e Ariane Mnouchkine.
Um teatro que busca nas manifestações espetaculares dos povos a matéria prima para a criação e a expressão, mantendo uma posição extremamente crítica para com o poder das instituições capitalistas, desvelando com sua poesia as intrincadas, ambíguas e contraditórias relações socioculturais.
O Bumba-Meu-Boi é uma dessas manifestações espetaculares escolhidas pelo poeta para alimentar três de suas obras. Essa escolha não se deve a questões regionalistas nem tampouco a um tipo de resgate folclórico. Até porque o Nordeste não é proprietário desse gênero de teatro popular. O Boi se manifestou e se manifesta em todo o Brasil, não é típico de uma região e possui características próprias de acordo com o chão onde germina. Suas raízes mais remotas estão fincadas em diversas partes do Globo. Basta recordar as pesquisas de Luis da Câmara Cascudo (1) (1984, p. 421-433) a garimpar as manifestações do Boi em todos os pontos cardeais, muito embora conclua que Boi dançado é, por direito, exclusivo do Brasil..............................

* João Denys de Araújo é design, dramaturgo, encenador, professor, escritor, pesquisador e diretor de teatro.

Leia o texto integral em:
http://www.interpoetica.com/o_texto_teatral_de_joaquim_cardozo.htm

Joaquim Cardozo terras e águas para as raízes

por Maria da Paz Ribeiro Dantas*

Não é possível, em poucas linhas, dizer tudo o que o Nordeste representa na obra de Joaquim Cardozo... nem o que ele representa para o Nordeste.
Para dizer da presença do Recife na poesia de Joaquim Cardozo, só invocando a sua voz poética.Ela se faz ouvir ora em textos de prosa ora em versos. Na prosa, temos um exemplo neste texto A cidade do Recife, do qual escolhi os parágrafos iniciais:
"A Cidade do Recife nasceu sobre terras por três rios trazidos de muito longe: o Beberibe, o Capibaribe e o Ibura. Construiu este solo de argila cinzenta, untuosa e macia, constitui toda uma longa várzea – uma veiga – como diria Garcia Lorca, falando da sua “veiga grandina”; uma várzea e vastos céus abertos à luz meridiana e tropical, onde, pelo verão, grandes nuvens, como montanhas de neve, brilham ao sol; onde os “ferreiros”, com gravetos, compõem a arquitetura dos seus ninhos nos ramos das cajazeiras, e, entre velhas cercas, ou em touceiras, na mesma época, florescem os espinheiros brancos e amarelos.
Dos três rios o mais amigo da cidade é o Capibaribe, pois traça, por todo o chão do Recife, um grande signo, um grande S em linhas sinuosas e caprichosas; as suas águas penetram na cidade pelas terras do antigo Engenho da Torre, cujo telhado, dizem, ainda hoje cobre uma olaria; dirigem-se, depois, para o Sul, percorrendo todo o bairro da Madalena, onde, em tempos já muito antigos, ricos proprietários edificaram as suas residências, com as fachadas sobre elas.
O viajante que chega ao Recife por mar não sabe que está sobre as águas desses três rios, não sabe que o seu navio flutua sobre três águas longínquas; o viajante que chega ao Recife pelo ar desce no Aeroporto dos Guararapes, construído em terras do Engenho Ibura, em terras que em épocas talvez muito remotas foram sedimentadas pelo rio do mesmo nome."
Em versos, este Tarde no Recife passeia a vista sobre a cidade. É uma mirada sobre a urbe de 1925, recortada em cenas de uma tarde qualquer para a montagem de um filme em três tempo, três momentos:
Tarde no Recife.Da ponte Maurício o céu e a cidade.Fachada verde do Café Maxime, Cais do [Abacaxi. Gameleiras.
Tanta gente apressada, tanta mulher bonita;Um camelô gritando: - alerta!Algazarra. Seis horas. Os sinos.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes,Dos longos crepúsculos que assistiram à [passagem dos fidalgos holandeses,Que assistem agora ao movimento das ruas [tumultuosas,Que assistirão mais tarde à passagem dos [aviões para as costas do Pacífico;Recife romântico dos crepúsculos das pontesE da beleza católica do rio.

Leia o texto completo em:
http://www.interpoetica.com/figura_da_vez.htm

15.4.07

W.H.AUDEN

Aos 15 anos, o inglês Wystan Hugh Auden descobriu sua vocação para a poesia. Criado em uma atmosfera mais voltada para as ciências do que para as artes - o pai era médico e a mãe enfermeira -, já no início dos anos 30 era aclamado prematuramente como um dos principais poetas da língua inglesa. Os versos de Auden, nascido em 1907, identificam as mazelas sociais de seu tempo e expressam as imagens de seu mundo interior, repletas de fantasia. Às vezes obscuros, tomados em conjunto seus poemas compõem um universo rico de paisagens e personagens.
Após estudar na Universidade de Oxford, Auden passou um ano em Berlim, na Alemanha, de onde retornou para engajar-se no movimento de esquerda. No início da Segunda Guerra Mundial, mudou-se para os EUA e tornou-se cidadão americano. Em 1967, reuniu todos os seus poemas e publicou-os, em ordem cronológica, sob os títulos Poemas Breves Reunidos 1927-1957 e Poemas Longos Reunidos. Ao morrer, em 1973, o poeta deixou vasta obra, que inclui ensaios, peças de teatro, antologias e traduções.
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FUNERAL BLUES


W.H.Auden


Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.


Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.


He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.



The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.
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BLUES FÚNEBRES


W. H. Auden


Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.



Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.



Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.



É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.



Tradução: Nelson Ascher, Poesia Alheia - 124 poemas traduzidos. Editora Imago - Rio de Janeiro (RJ), 1998, pág. 129.



CANÇÃO

Apoia a tua cabeça adormecida, amor,
Tão humana sobre o meu braço descrente;
O tempo e a febre consomem
A própria beleza das
Pensativas crianças, e o túmulo
Mostra que a criança é efémera:
Mas, nos meus braços, até ao romper do dia
Deixa que a viva criatura jaza
Mortal, culpada, mas que para mim
É toda a beleza.

A alma e o corpo não têm limites:
Para os amantes quando jazem
Sobre o seu permissivo e encantado declive
Num habitual desfalecimento,
Grave é a visão que Vénus envia
De uma sobrenatural compaixão;
Amor universal e esperança;
Entretanto, uma visão abstracta desperta
Entre os glaciares e as rochas
O êxtase carnal do eremita.

A segurança e a fidelidade
Passam ao bater da meia-noite
Como as vibrações de um sino
E aqueles que são elegantes e loucos erguem
O seu pedante e enfadonho apelo:
A mais pequena moeda devida,
Tudo o que as temidas cartas auguram,
Há-de ser pago, mas desta noite
Nem um murmúrio, nem um pensamento,
Nem um beijo nem um olhar se hão-de perder.


A beleza, a meia-noite, a visão que morre;
Que os ventos da madrugada ao soprarem
Suaves em redor da tua cabeça sonhadora
Mostrem um dia de boas-vindas
Que o olhar e o coração palpitante abençoem,
Que achem suficiente o nosso mundo mortal;
Que meios-dias de aridez te encontrem alimentada
Por poderes involuntários,
ue noites de afronta te deixem passar
Vigiada por todos os amores humanos.



Janeiro 1937

W. H. Auden
(1907-1973)
Reino Unido
TRAD.:Jorge Emílio
Rosa Do Mundo
2001 POEMAS PARA O FUTURO
Assírio & Alvim

8.4.07

OSCAR WILDE – A PAIXÃO DE UMA VIDA

Paulo Azevedo Chaves*

“Algo belo é uma alegria para sempre”John Keats


Nascido em Dublin, em 1854, filho de um médico famoso e uma escritora, desde criança Oscar Wilde evidenciou sua vocação literária sempre se cercando de livros e intelectuais. De família rica, teve oportunidade de cursar os melhores colégios e a famosa universidade de Oxford, na Inglaterra.
O espírito rebelde e inconformista, a inteligência brilhante, o humor fino e sarcástico logo fizeram com que sobressaísse entre os jovens de sua geração. Em 1885, casou-se, em Dublin, com Constance, filha de um advogado irlandês de renome.
Sua obra literária, a partir de então, é vasta e diversificada. Ensaios, contos, novelas, peças de teatro construíram uma sólida reputação entre os seus contemporâneos. Em 1891, lançou uma de suas obras mais famosas – O Retrato de Dorian Gray, cujo personagem-título se mantém sempre jovem e belo através das décadas, as marcas da passagem do tempo e de seu espírito depravado e cruel se evidenciando numa pintura que o retratava. O final é tão inesperado quanto trágico: Dorian apunhala a hedionda figura do quadro e, no mesmo instante, morre incorporando as características fisionômicas do modelo retratado, enquanto a figura na pintura readquire a antiga beleza impregnada de inocência.
Já então rumores sobre a sua homossexualidade eram assunto de fofocas constantes nos Salões aristocratas ingleses. Seu envolvimento com o belo Lord Alfred Douglas eram tão notórias que o pai do jovem, o marquês de Queensberry, lhe endereçou uma carta desaforada, proibindo-o de ver o filho. Em resposta, Wilde teve uma atitude inesperada e estúpida: processou o marquês por calúnia e difamação. Mas como tinha culpa no cartório, resolveu desistir do processo. Tarde demais. Provas contundentes de seu relacionamento com Bosie (como tratava na intimidade Alfred Douglas) começaram a aparecer e Wilde foi a julgamento.
Na Inglaterra, a prática homossexual sempre foi muita difundida em todos os estratos da sociedade. Mas o país também era conhecido pelo rigor de suas leis contra o homossexualidade. Diferentemente de outros países europeus, em que só a sedução de menores de idade era punida com rigor, a prática homossexual envolvendo adultos era – e continuou a ser até anos recentes – punida na Inglaterra vitoriana com a pena de reclusão por dois anos com trabalhos forçados. É um paradoxo que só a proverbial hipocrisia inglesa pode explicar: um povo tão dado às relações entre as pessoas do mesmo sexo ser também tão severo na punição daqueles que praticavam “o amor que não ousa dizer o seu nome” (expressão criada pelo próprio Wilde). Assim, no auge da fama, o autor de mais prestígio na Inglaterra de sua época é condenado a dois anos de reclusão em Reading. Em sua sentença, o juiz diz a certa altura: “... É o pior caso que jamais julguei”. A paixão dos ingleses por seu escritor mais famoso e ilustre se transformara em ódio. Seus livros são recolhidos das livrarias, suas comédias são retiradas de cartaz nos melhores teatros londrinos, seu patrimônio é leiloado para pagamento das custas do processo e de seu advogado. Mas em nenhum momento Oscar Wilde se acovardou ou mostrou arrependimento por seus affairs com rapazes ingleses e seu caso de amor com Bosie. Muito pelo contrário: no julgamento fez uma defesa apaixonada do amor entre pessoas do mesmo sexo . Vale à pena ler um trecho: “...O amor que não ousa dizer seu nome neste século é a grande afeição de um homem mais velho por um homem mais jovem, como aquela que houve entre Davi e Jônatas, o amor que Platão tornou a base de sua filosofia, o amor que se pode achar nos sonetos de Michelangelo e Shakespeare. Ele é bonito, é bom, é a mais nobre forma de afeição. Não há nada que não seja natural nele. Ele é intelectual e repetidamente existe entre um homem mais velho e um homem mais novo, quando o mais velho tem o intelecto e o mais jovem tem toda a alegria, a esperança e o brilho da vida à sua frente”.
Entretanto, os inimigos de Oscar Wilde não prevaleceram. Destruíram o homem físico, mas não a perenidade de seu prestígio, de seu valor literário e de sua paixão latu senso. Ele defendeu sempre sua orientação sexual, o seu envolvimento apaixonado pelo Verdadeiro e pelo Belo. Afinal, como escreveu o grande poeta romântico inglês John Keats, “Beleza é verdade, verdade beleza -eis tudo que sabeis na terra e tudo que precisais saber”. É significativo que na prisão de Reading Oscar Wilde tenha escrito talvez suas duas obras mais importantes: o poema Balada do Cárcere de Reading e o pungente e o sofrido De Profundis, uma longa carta escrita ao seu amigo íntimo Lord Alfred Douglas.
Ao sair da prisão, em 1897, Wilde transferiu-se para Paris, adotando o pseudônimo de Sebastian Melmouth, Pobre e abandonado por todos, inclusive por seus dois filhos, que chegaram a trocar de nome para não serem reconhecidos como seus descendentes, o autor do De Profundis morreu, em 1900, de meningite, num quarto de hotel barato na capital francesa. Apenas duas pessoas estavam presentes no enterro: o amigo Robert Boss e Lord Alfred Douglas, pivô de sua tragédia pessoal. Aliás, sobre Bosie deve-se reconhecer e elogiar sua fidelidade ao mentor e amigo íntimo mais velho: além de pagar seu enterro, em 1938 o filho do implacável marquês de Queensberry dá o troco ao pai e publica um livro autobiográfico, balanço de toda a sua vida, com o título sugestivo de Without Apology (Sem Desculpas). Neste livro, ele relembra sem pudor os sentimentos que o uniram a Wilde. E em seu fecho bem que poderia ter citado estes versos do Soneto 29, de William Shakespeare: “Pois teu doce amor relembrado tal riqueza traz/ Que desdenho trocar com reis o meu estado”.

*Paulo Azevedo Chaves (jornalista, poeta e cronista) Casa Branca, Jaboatão dos Guararapes, março/2007

Transcrito de Interpoética http://www.interpoetica.com/oscar_wilde.htm

O impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

Manuel Bandeira

6.4.07

O rabino Sobel e o Brasil



Por Jaime Pinsky *

Conheci o rabino Sobel na época do enterro de Vladimir Herzog, o Vlado. Assassinado pelo regime militar depois de barbaramente torturado, o corpo do jornalista foi entregue à família com a informação de que teria se suicidado. Uma foto do suposto auto-enforcamento foi entregue à imprensa. A farsa, como em tantos outros casos, era evidente. Mas aqui havia um detalhe. Como judeu Vlado deveria ser enterrado em um cemitério judaico, e a tradição prescrevia um local separado para suicidas, por terem atentado contra sua própria vida. O então jovem rabino da CIP (Congregação Israelita Paulista), chegado havia pouco dos Estados Unidos, calculou e correu o risco. Determinou que o corpo não seria enterrado junto aos suicidas, pois suicida não era. O enterro foi dramático: inconformismo da mãe, esposa e filhos, algumas falas corajosas, fotógrafos e cineastas (sic) do governo registrando a presença dos "subversivos" à cerimônia. Havia medo, mas a atitude daquele rabino deu coragem às dezenas de colegas e amigos do jornalista assassinado que se comprimiam em volta do caixão e que acompanharam, chorosos, mas conscientes do seu papel, a descida do corpo para dentro da cova no Cemitério Israelita do Butantã.
Todos, na sociedade e no governo, viram que o país já não suportava mais a intolerância política. Aquelas mesmas pessoas e mais milhares de outras acorreram ao serviço religioso ecumênico que seria realizado alguns dias depois na Catedral da Sé, sob a responsabilidade de D. Paulo Evaristo Arns e o rabino Sobel, entre outros. O Brasil não seria mais o mesmo.
Atingido pelos acontecimentos o rabino, então com pouco mais de 30 anos, soubera se portar como um liberal americano de boa estirpe, e como um líder religioso corajoso, tolerante e pleno de compaixão.
Ao longo de toda a sua permanência no Brasil Sobel continuou na mesma linha. Preocupado mais com a essência das coisas religiosas do que com sua aparência, ele sempre apostou no diálogo inter-religioso e tem sido um dos seus mentores, com atuação que não se circunscreveu às nossas fronteiras. Também na política internacional sua posição tem sido de diálogo, inclusive no que se refere a um estado nacional para os palestinos, em coexistência com Israel. Óbvio? Nem tanto, para alguém que se tornou o mais importante líder religioso judaico e precisa conviver com setores mais ortodoxos e menos abertos. De resto, pretensos líderes comunitários, com mais dinheiro do que talento, sentiam-se ofuscados pelo rabino "pop" e, por muitas vezes, tentaram destituí-lo de suas funções. Até a semana passada, sem sucesso.
E agora que estamos na Páscoa Judaica, o Pessach, deve-se lembrar que, para além, para bem além da figura pessoal (rosto grande, nariz forte, solidéu cor de vinho encimando cabelos cortados com estilo característico, sotaque forte) o rabino Sobel tem representado para a comunidade judaica e para a sociedade toda uma travessia: a passagem do judaísmo de gueto, da mentalidade paranóica, para um judaísmo mais universal, que se preocupa com o povo judeu no mundo e não com o mundo contra o povo judeu. Quando criança, meus pais me contavam que "pogrom" era palavra de origem russa que significava perseguição contra os judeus, oprimidos na Europa Oriental. Ao ver a polícia do então interventor Adhemar de Barros jogar seus cavalos contra os operários da "Sorocabana" corri assustado para casa para contar a meus pais sobre o "pogrom" que estava acontecendo perto de casa. Pouco interessava que os "judeus" não fossem judeus. Esta passagem, do tribal para o universal, Sobel realizou.
Não escrevo estas linhas como judeu religioso, que não sou, como não sou membro da comunidade que o contratou. Escrevo como historiador, incomodado com a falta de compaixão contra um homem que, provavelmente, está com problemas e precisa de ajuda neste momento, ele que ajudou tanta gente. Afinal, ele nunca cometeu abuso sexual, ou assaltou os cofres públicos...
Enquanto outros buscavam pecados em todos os gestos humanos, Sobel sempre buscou compreendê-los. Sem dúvida, O Brasil ficaria menor sem ele.


* Historidor, doutor e livre-docente pela USP e professor titular da Unicamp

A Condição Humana - Uma Reflexão à Passagem (Páscoa ou Pessach) de cada um.




Ao Rabino Henry Sobel



Não somos piores por que somos frágeis, nem a fragilidade desnutre a natureza humana; antes confirma a sua essência.
Nossa onipotência nos engana de fortes, inquebrantáveis.
Nossa humanidade nos adoece, nos envelhece, nos põe dilemas e tormentas.
Nossa compaixão é uma peça lançada que retorna à mão de quem a arremessa, depois de cumprido o seu périplo no ar.
O Henry Sobel está temporariamente mais frágil, mas os bumerangues de paz que corajosamente lançou, lhe devem ser retribuídos, sem favores, com o respeito que sempre fez por merecê-los.
Quem confirma a natureza humana com coragem, fragilidade e dignidade, nos lega uma importante reflexão nesta Páscoa ou Pessach. Saibamos merecê-la.
Ao Henry Sobel uma fugaz passagem pelas tormentas e um breve retorno à cena brasileira que sempre ajudou a aperfeiçoar.
Waldir Pedrosa Amorim