25.3.07

Maria Valéria Resende lança romance em Portugal.



O romance O Vôo da Guará Vermelha de Maria Valéria Rezende encontra-se nas livrarias portuguesas desde o dia 19 de março em edição da Oficina do Livro.





Conheci a escritora Maria Valéria Rezende a partir do lançamento deste seu edificante romance que está chegando ao público português e creio que ao restante do mundo lusófono. Depois li Modo de Apanhar Pássaros à Mão e em seguida, Vasto Mundo, este último esgotado e seu primeiro livro.
Nenhum me deixou a alma vazia ou a mente enfastiada. Percebi no Vôo da Guará Vermelha que estava diante de uma grande escritora e romancista em qualquer latitude.
Mas apenas dizer que Maria Valéria é uma grande escritora é muito pouco e parecerá lugar comum para alguns. Eu diria que ela é uma tecelã especial. Afirmaria como seu leitor, que seus personagens emergem do seu cotidiano rico em humanismo e ações voltadas para a promoção do ser humano, - já há bastante tempo. Em Valéria o ficcional e o verossímil estão untados pela força da convicção.
Mas, além disto, há que se ressaltar a feitiçaria competente e peculiar de que é possuidora. Não é uma carpintaria unicamente, vai além da arte de construir com esforço físico e alma criativa. Há o espírito de uma viandante que possui uma bagagem cultural invejável e que a utiliza com a maestria, autenticidade e simplicidade de quem tem identidade com as poções mágicas que conduzirão o leitor ao deleite e à reflexão.
Já é mais que tempo desta mulher forte ganhar o mundo vasto dos apreciadores da palavra escrita em língua portuguesa, com o carinho de quem apanha pássaros à mão. Oxalá seja traduzida brevemente para outros idiomas.
Esta também é mais uma oportunidade do público brasileiro que não o fez, ler e divulgar a edição original do seu romance publicado pela editora Objetiva.

Waldir Pedrosa Amorim



Leia uma entrevista com Maria Valeria por Márcio Vassallo sob o título - VASTAS EMOÇÕES DE UMA AUTORA INSPIRADORA -


Maria Valéria Rezende fala sobre o seu primeiro romance e revela o lado mais apaixonante das suas andanças de educadora popular pelo mundo.


"As palavras nos constroem como seres humanos". Maria Valéria Rezende

15.3.07

FAMA PARA TODOS, um texto que merece ser lido e refletido.

por Ana Paula Sousa

Transcrito do original publicado em: http://www.cartacapital.com.br/edicoes/2007/marco/434/fama-para-todos

O jornalista Sérgio Augusto e a filósofa Olgária Matos falam da “escalada da insignificância” que toma o Brasil
Varridas as cinzas carnavalescas, é de se perguntar: por que somos obrigados a saber quem é Luciana Gimenez, rainha da bateria? Por que já ouvimos falar em Preta Gil? E por que, mal saem de cena os famosos que piruetaram em camarotes, trombamos com o par romântico do Big Brother em sites e jornais?
O jornalista Sergio Augusto, lâmina sempre afiada, matou a charada há tempos, ao ver atores globais numa Bienal do Livro. “No antigo Egito, havia pragas terríveis, como ratos e gafanhotos; nós temos as celebridades televisivas. Convidadas, indistintamente, para tudo, até para eventos onde em princípio deveriam se sentir mais deslocadas do que um vegetariano numa churrascaria ou o papa num bacanal, não perdem uma boca-livre, são pragas onipresentes”, escreveu em Assim Rasteja a Humanidade, um dos textos reunidos no livro Penas do Ofício (Agir, 310 págs., R$ 34,90), lançado este ano.
A filósofa Olgária Matos, da Universidade de São Paulo, também se viu às voltas com esse gênero humano ao selecionar os ensaios que comporiam Discretas Esperanças (Nova Alexandria, 208 págs., R$ 34). “A sociedade do espetáculo é a da visibilidade total. Em decorrência do vazio espiritual da sociedade contemporânea, coisas sem nenhuma relevância tomam um espaço enorme. O que é a fama? Na verdade, é a infâmia”, arremata, ao tratar da “escalada da insignificância”.
A celebridade, no dizer de Emily Dickinson, é a “punição do mérito e o castigo do talento”. E sua expansão inquieta, sobretudo, porque atinge até mesmo quem quer manter ouvidos tapados e olhos vendados diante do desfile de ninguéns. Salvo um eremita que viva na caverna de uma reserva ecológica, não há brasileiro que desconheça Daniella Cicarelli e Cia. Surge então a inevitável pergunta: o que fez Daniella para que todos a conheçam?
“A celebritite não tem queda de volume. Ao contrário, é cada vez maior”, atesta Sergio Augusto, que, na coluna que mantém no jornal O Estado de S. Paulo, cunhou o termo “celebritylândia”. Para ele, a mídia é a maior responsável pela “jeca vassalagem” a celebridades.
“Por que a imprensa não pára com isso, por que não diz: ‘Essas pessoas não têm a menor importância, nós é que as valorizamos à exaustão? Deixa essa gente circular em revistas tipo Contigo! e Quem e Caras e vamos falar de gente mais séria, vamos valorizar quem, de fato, faz alguma coisa importante.’ Mas o que se vê é justamente o inverso. Jornais ‘sérios’ sucumbiram a isso. São todos vassalos da indústria cultural, que ganha muito dinheiro com as tais celebridades”, observa Augusto.
Espiando algumas notícias da Quarta-Feira de Cinzas, o jornalista listou fatos fundamentais para os destinos da humanidade. “Deparei com a guerra de lingeries travada entre Ivete Sangalo, Alinne Rosa, Claudia Leitte e Preta Gil, no carnaval de Salvador e soube que ‘Ivete pôs o Gianecchini para rebolar’. A pauta é incrível. Quem é Tatiana Pagung, uma pessoa ou uma bunda? O que faz ela no resto do ano? Carla Perez e Kelly Key ressurgiram das sombras e para lá devem voltar, com Márcia Imperator, outra que, quando alcançar a idade da Fernanda Montenegro, há muito terá deixado de ser uma celebridade. Não foi só a mediocridade que venceu. A cafajestice, também.”
Nesse cozido de irrelevâncias, convém voltar à origem de certos termos que borbulham no caldeirão das celebridades. Fama é o principal deles. A origem da fama, no Ocidente, é a Guerra de Tróia. Aqueles heróis exemplares, na definição de Olgária Matos, eram homens que, por um gesto heróico, se tornavam eternos e, assim, driblavam o esquecimento que a morte acarreta.
“A glória está ligada ao mundo ancestral, guerreiro, que possui toda uma expressão de valores presentes na Ilíada e na Odisséia. A primeira forma do heroísmo e da fama no Ocidente é se tornar digno de ser cantado pelos aedos e rapsodos e, por algum gesto que o tenha destacado do comum dos mortais, não desaparecer do mundo.”
O conceito de fama hoje em voga remonta às décadas de 50 e 60 do século XX. Até a aparição da chamada cultura pop, havia, para além do heroísmo, as figuras ilustres, sempre ligadas a alguma atividade. “Era o grande político, o grande intelectual, o grande artista. Você ainda tinha a idéia do grande. E grandes são aqueles sem os quais o mundo seria incompleto”, esclarece Olgária. Imagine, portanto, o que seria do mundo sem Luciana Gimenez, Adriane Galisteu e Kleber Bamban, ex-Big Brother, digno de menções pelos feitos do último carnaval.
“Essas pessoas que emergem por alguns segundos não permanecem. O problema dessa banalização é que tudo acaba se equivalendo, você não tem mais critério”, diz Olgária. O desejo de sair do anonimato, mesmo que por uma razão deletéria, explica a sujeição a cenas vexaminosas em reality shows como Big Brother ou, ainda mais, no já extinto No Limite. “Aí se mistura a busca pela fama com a busca pela recompensa material. O grande ideal do mundo contemporâneo é uma palavra de ordem vazia: ganhar dinheiro.”
Uma vez que os cifrões caem apenas nos bolsos dos famosos, há de se encontrar outras razões que expliquem o fascínio que essas pessoas exercem sobre parte da sociedade. Voyeurismo, sempre houve. Mas o que faz com que o vídeo em que Cicarelli e o namorado na praia tenha sido um dos mais vistos no mundo?
“O voyeurismo do Big Brother ou o da Cicarelli no YouTube é só o grotesco. Eu saio da banalidade da minha vida e vou ver a banalidade da vida do outro. Querer viver por transferência faz parte de um processo de perda do significado das coisas e de incapacidade de imaginação. É a incapacidade de imaginar a própria vida”, analisa Olgária.
Quando a imaginação desvanece e os sonhos passam a ser construídos pelas imagens que a mídia fornece, o homem se esvazia, sem se dar conta disso. A tevê, com modelos acabados de famílias e vidas, é pródiga nisso. “Quando pensamos no papel que vem sendo exercido pela televisão, vemos que há um genocídio cultural no Brasil. Quando você se identifica com Adriane Galisteu... é complicado. E, em geral, quanto menos educação tem uma pessoa, mais sujeita a essas influências ela está.”
É fato que telenovelas e modelos midiáticos existem mundo afora. O problema, alerta Olgária, é quando esse passa a ser o padrão de organização da sociedade. “Pensar a democracia no Brasil requer refletir, em particular, acerca da esfera pública cultural”, escreve ela em Discretas Esperanças.
Não se trata de condenar a cultura de massa porque ela é de massa. Preocupante é que todas as produções culturais passem a ser impregnadas pelos valores da mídia e da indústria do entretenimento e só exista isso como horizonte cultural “Quando tudo se transforma em divertimento e isso invade também os terrenos que não deveriam ser do divertimento, como a educação, aí você tem verdadeiras catástrofes”, diz Olgária.
Dilui-se assim a formação da sensibilidade, do gosto e do pensamento. Não por acaso, nesse mar de imagens, gentes e fatos irrelevantes, desaparece no horizonte a prática da leitura, como anota Olgária. “Vivemos num mundo em que tudo conspira contra a leitura, que é lenta, concentrada. Ela contraria a aceleração do tempo das mídias, da fama curta, ela é a longo prazo. A educação está invadida pela temporalidade do mercado financeiro, mas, para você aprender a se sentir solicitado por um texto, você precisa vencer resistências. Ler é um aprendizado, não é um dado imediato: você lê e já gosta.”
Augusto também não adere ao cordão “ler, como coçar, é só começar”. O jornalista lembra que não há ser neste mundo que tenha entrado nas trilhas da ficção pelas mãos de William Faulkner. As leituras de qualquer pessoa evoluem “à medida que seu repertório cognitivo consegue se ampliar e se sofisticar”. E, no Brasil, quem tem dinheiro para abrir a carteira numa livraria lê, geralmente, “os best-sellers computados pela Veja”. Quando lê. “A maior parte da humanidade começa lendo chorumelas, toma gosto pelo negócio, e morre lendo chorumelas. Por isso, mas não só por isso, se bem que muito por isso, a humanidade, em vez de caminhar, rasteja”, concluiu no texto de Penas do Ofício.
Se a paciência para a leitura tradicional escasseia, o mesmo não se pode dizer da leitura das pílulas internáuticas, em blogs e sites que existem à farta. É na internet, não por acaso, que se cruzam o desejo pela fama e o voyeurismo tolo. Quando Bruna Surfistinha, a mais famosa “ex-garota de programa” do Brasil, conta sua vida num blog e milhões de pessoas entram nesse blog, não é de espantar que Lucianas, Daniellas e Adrianes ajudem a vender revistas e jornais.
Sergio Augusto conta que, na Inglaterra, a imprensa dedicada aos “chiques e famosos” está sendo chamada de gutter press. Gutter, acorre o dicionário, significa sarjeta. No Brasil, ela continua sendo vista, apenas, como lucrativa.

12.3.07

Embolada de rock, eletrônica e cordel


O paraibano Beto Brito é um dos representantes do Rock-Cordel, em cartaz no CCBN. Na última Feira da Música, o público cearense foi apresentado ao talento versátil de Beto Brito, músico e cordelista, que apresentou sua caixa de doze cordéis autorais, acompanhando o álbum ´Imbolê´, produzido por Robertinho de Recife,com participação especial de Zé Ramalho e trechos da poesia onírica de Zé Limeira, entre algumas das muitas modalidades da cantoria de viola, o nosso repente, e até de outras sonoridades orgânicas como coco, baião e toré, sem deixar de dar uma modernizada com o rap e com esse tal de rock.Na tarde e na noite de hoje, nova chance de encontrar a poesia e a musicalidade deste incrementado vate paraibano. Ao meio-dia e às 19h, o músico abre e encerra, respectivamente, uma programação que, ao longo de toda a tarde, de hora em hora, a partir das 13h30, contará com atrações um tanto quanto mais heterodoxas: Plastic Noir, K-waves, Altifalante, Jabá e a Fotossônica e ainda Sede Vacante. Uma chance para conhecer muita gente boa, certamente.O caldeirão de Beto Brito fervilha, não se aquieta nunca. Quer dizer, junta a raiz, a força revigoradora da tradição, com as folhas fresquinhas das levadas e concepções mais atuais. Assim, com este “herdeiro dos ancestrais do cordel”, a nordestinidade desta linguagem embrionária e tão natural do Rock-Cordel, ou seja lá que denominação venha a ter, alcança relações cada vez mais complexas e universais.Das feiras, as violas, rabecas e zabumbas transcendem, aqui e acolá em “Imbolê”, as formas tradicionais do baião, das emboladas e das cirandas, através dos compassos coerentes de grooves eletrônicos, guitarras pesadas e até mesmo de outras fontes orgânicas, de cítaras a tambores de outras plagas.O rock vem forte em “Pau Podre” e “Ciranda mei-de-feira” e até no punch acústico de “Chá de coragem” . Mais groovado, bem Nação Zumbi, em “Dureza”. E além do Mestre Ambrósio e de Humberto Teixeira, em “A mulher e o teatro´ e ´Isso é coco”.É a música regional cada vez mais próxima da World Music. E de volta à feira, noutra linguagem, a dos próprios cordéis escritos por este dinâmico paraibano. Historias nordestinas, igualmente tradicionais e contemporâneas: das “Lendas do Folclore Popular” à “Nova Peleja de Zé Ramalho com Zé do Caixão”. É “cordel e som na caixa”, como está estampado na sua caixinha.


HENRIQUE NUNES Repórter


Leia a matéria original em Diário do Nordeste Fortaleza, Ceará Segunda-Feira 12 de Março de 2007
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=398965

6.3.07

MADRI PRESTA HOMENAGEM A GABRIEL GARCIA MARQUES NA VÉSPERA DOS SEUS 80 ANOS








MADRID, 5 de Março de 2007 (AFP) - 05/03/2007 14h16 - Intelectuais, artistas e representantes políticos fizeram em Madrid uma homenagem ao escritor colombiano Gabriel Garcia Marques na véspera dos seus 80 anos, lendo alternadamente as páginas de seu famoso romance “Cem anos de solidão”.

A Vice-Presidente do governo espanhol, Maria Teresa Fernandez da Vega, foi a primeira a render homenagem “ao mestre das letras hispânicas”, prêmio Nobel de literatura em 1982, lendo as primeiras linhas do seu romance mais conhecido, publicado em 1967:

A Sra. Maria Tereza anteriormente tinha soprado duas velas que formam o número 80 sobre um bolo na forma de livro para festejar o aniversário do romancista, nascido a 6 de Março de 1927 em Aracataca na Colômbia.

No total 80 leitores se revezarão até a madrugada da terça feira na Casa da América para ler publicamente sete páginas cada um “de Cem anos de solidão” e fazer reviver a história das sete gerações da família Buendia na aldeia imaginária de Macondo.
Este romance fundador “do realismo mágico " e considerado uma das obras essenciais da literatura hispânica foi traduzido em 35 línguas e vendeu mais de 30 milhões de exemplares.