26.12.07

BOLSA LITERÁRIA DA FUNARTE: ESTRANHA AVALIAÇÃO

A publicação da matéria no jornal O Globo, em 23 de dezembro, amplia oespaço de discussão, mas a resposta dos jurados não dirimiu minhasdúvidas. Ou certezas? De que forma os jurados da Bolsa Funarte deIncentivo à Literatura avaliaram, em menos de dois dias, os trabalhos inscritos no último prazo (10/12/07), se havia acúmulo de tantosoutros? O resultado saiu em D.O. dois dias depois!
Cinco jurados avaliaram 484 projetos em apenas três dias. Mesmo que estaproeza tenha sido realizada, como crer que meu projeto, (entre tantos deigual importância), foi analisado com o esmero e o respeito que dediquei à sua elaboração e ao prêmio?
Trabalhei, durante madrugadas, na elaboração minuciosa do vasto materialsolicitado, para cumprir o prazo. Enviei, além do currículo COMPROVADO,sete exemplares de livros e cinco DVD`s (síntese da minha carreira) que, segundo o edital, não serão devolvidos. Mais de 500 páginasencadernadas. Imprimi ao meu sonho energias intelectual, física eemocional inumanas. Jamais participaria se soubesse que o resultadoseria definido dois dias após o prazo máximo da inscrição.
Esta questão diz respeito não só aos escritores, mas a todas as pessoasque lutam por transparência e Justiça neste País.
CARMEN MORENO é escritora carioca. Publicou: Diário de Luas (Rocco),Sutilezas do Grito (Rocco); O Primeiro Crime (Rocco) e O Estranho(Fivestar).

E-mails: carmenmoreno2@gmail.com;carmenmoreno@oi.com.br

20.12.07

MENSAGEM DE FIM DE ANO

MESMO QUE NÃO SEJA NATAL, NEM ANO NOVO SEJA...


Não pesarei o tempo,

nem seccionarei o mundo

em cortes sagitais.


Trocarei as compressas das feridas,

pelo algodão doce.

A maçã das dietas,

pela dos amores.


(-Waldir, trecho do poema – Pelas calçadas –)


Desejo a todos os meus amigos, aos conhecidos, aos que não conheço tanto, aos que apenas nos cruzamos, aos que somos contemporâneos, aos que nos afagamos com o olhar, com as palavras, com o aceno, o aperto de mãos, o beijo ou o abraço, com a lembrança; ou simplesmente aos que marchamos no desmesurado caminhar humano: a alegria das festas, o vigor para o ano de 2008, e desejo, muita poesia para o mundo!


O carinho de


Waldir Pedrosa Amorim


Dezembro de 2007.

waldirpedrosa@gmail.com

http://www.blogdowaldirpedrosa.blogspot.com/

4.11.07

Fim de semana feliz, recebo dois escritos de Heitor Rosa.

O HOSPITAL E O URUBU

Heitor Rosa

O hospital tinha de crescer
E crescer não podia
Se para isso tivesse que derrubar
A grande árvore que se colocava
No caminho da nova construção.
Palavra do Ibama.


O hospital tinha de crescer
Mas crescer não podia
Enquanto um ninho de urubu,
Na copa da árvore
Abrigasse os filhotes implumes.
Palavra do Ibama!

O hospital tinha de crescer
E crescer podia,
Pois no seu terreno só havia
uma família com uma criança
debaixo de uma lona.
Palavra da Justiça!

O hospital tinha de crescer
Podia e não podia
A Justiça permitia retirar a familia
O Ibama proibia retirar o urubu
Solução: deitar a criança no ninho
Levar o urubu para debaixo da lona

A criança tinha de crescer
Mas crescer não podia
Pois não cabia no ninho do urubu
O urubu tinha de voar
Mas voar não podia
Enquanto a lona seu espaço cobrisse

O hospital cresceu. Cortou a árvore,
Botou o urubu no telhado
O urubu adotou a criança
O Ibama processou o Hospital
A Justiça processou o urubu
A familia fugiu com a lona.

O umbigo do mundo


Um lindo texto de Raija Almeida sobre a maternidade, baseado numa experiência cotejada e curtida com sua primeira filhinha Gabi. No centro, melhor dizendo, no umbigo três personagens: Raija, Ivan e Gabi. No entorno Ronaldo Monte, Gloria, Iandê e Aninha; pai, mãe e irmãos. Na vizinhança, os que temos o privilégio de partilhar a emoção que a gravidez querida promove. Benvinda, Benvinda, Benvinva/Ai que bom que você veio/ e você chegou tão linda.../Benvinda do meu coração!


Dizem que passamos a vida olhando pro nosso umbigo. Ele é o centro do nosso mundo e de certa forma nos reconecta com algo ancestral, visceral e muito, muito interior. Assim, ele, o umbigo, acaba representando de alguma forma, o nosso egoísmo principalmente o modo como pensamos em nós em primeiro lugar.
Acontece que graças a um verdadeiro milagre da natureza essa forma egoísta de ver o mundo acaba mudando radicalmente para uma significativa parcela da população, são mulheres que passam por um processo irreversível de mudança física e psíquica: as grávidas.
Nessa fase tão turbulenta e mágica da vida da mulher tudo muda. O humor, o corpo, os sentimentos, os seios, a barriga que cresce, o embrião que se torna feto, os hormônios, etc. Mas ele, o nosso tão pequenino centro do mundo nunca é lembrado. Logo ele que antes foi o elo que nos mantinha conectado com a nossa mãe, que nos alimentava e que um belo dia é cortado, desconectado, para que possamos viver a nossa própria vida.
Nosso umbigo é um símbolo da nossa independência. Só que o estranho fenômeno da gravidez coloca tudo de pernas pro ar. De repente você não é mais só você. Uma nova vida cresce ali dentro da sua barriga conectado por um outro umbigo. Dois seres, duas formas, duas personalidades distintas coabitam milagrosamente quase o mesmo corpo.
E à medida que este outro ser vai crescendo e tomando forma dentro de você, vai também tomando espaço e nesta disputa interna vai deslocando seus órgãos de lugar, empurrando "praqui" e "prali" o seu estômago, seus rins, coração, pulmão; tudo se reorganiza para dar espaço a ele do lado de dentro do seu corpo e enquanto tudo isso acontece, você nada vê.
Mas outra mudança muito sutil acontece quase despercebida do seu lado de fora. Aos poucos o seu centro do mundo vai simplesmente desaparecendo. Um certo dia você está acariciando sua barriga e de repente percebe que aquele tão antigo e querido buraco, que lhe dava tanto orgulho e segurança está mais raso. E não pára por aí. A cada dia que passa e a sua gravidez avança, seu neném e sua barriga crescem, seu querido centro do mundo vai desaparecendo.
É como se teu corpo estivesse claramente dizendo pra você: "Olha, agora tudo mudou e você nunca mais vai ser só você, agora vai ser também um pouco ele, seu bebê". E assim uma nova conexão é feita, a mesma que um dia lhe nutriu e lhe ligou a sua mãe e ela à mãe dela.
E assim uma nova desconexão é feita, com o seu bebê se desligando de você e você se religando definitivamente nessa incrível emoção de amar incondicionalmente seu lindo e eterno bebê.
Raija Almeida
23 de setembro de 2007.

30.10.07

VERBOS NOVOS E HORRÍVEIS...

Ricardo Freire

Não, por favor, nem tente me disponibilizar alguma coisa, que eu nãoquero. Não aceito nada que pessoas, empresas ou organizações medisponibilizem. É uma questão de princípios. Se você me oferecer, me der,me vender, me emprestar, talvez tope. Até mesmo se você tornar disponível,quem sabe, eu aceite. Mas, se você insistir em disponibilizar, nada feito.Caso você esteja contando comigo para operacionalizar algo, vou dizendodesde já: pode ir tirando seu cavalinho da chuva. Eu não operacionalizonada para ninguém, nem compactuo com quem operacionalize. Se você quiser,eu monto, eu realizo, eu aplico, eu ponho em operação. Se você pedir comjeitinho, eu até implemento, mas operacionalizar , jamais.O quê? Você quer que eu agilize isso para você? Lamento, mas eu não seiagilizar nada. Nunca agilizei. Está lá no meu currículo: faço tudo, menosagilizar. Precisando, eu apresso, eu ponho na frente, eu "dou um gás". Masagilizar, desculpe, não posso, acho que matei essa aula.Outro dia mesmo queriam reinicializar meu computador. Só por cima do meucadáver virtual. Prefiro comprar um computador novo a reinicializar oantigo. Até porque eu desconfio que o problema não seja assim tão grave.Em vez de reinicializar, talvez seja o caso de simplesmente reiniciar, epronto. Por falar nisso, é bom que você saiba que eu parei de utilizar.Assim, sem mais nem menos. Eu sei, é uma atitude um tanto radical da minhaparte, mas eu não utilizo mais nada. Tenho consciência de que, a cada diaque passa, mais e mais pessoas estão utilizando, mas eu parei. Não utilizomais. Agora só uso. E recomendo. Se você soubesse como é mais elegante,também deixaria de utilizar e passaria a usar.Sim, estou me associando à campanha nacional contra os verbos que acabamem "ilizar". Se nada for feito, daqui a pouco eles serão mais numerosos doque os terminados simplesmente em "ar". Todos os dias, os maus tradutoresde livros de marketing e administração disponibilizam mais e mais termosinfelizes, que imediatamente são operacionalizados pela mídia,reinicializando palavras que já existiam e eram perfeitamente claras eeufônicas.A doença está tão disseminada que muitos verbos honestos, com currículo deótimos serviços prestados, estão a ponto de cair em desgraça entre pessoasde ouvidos sensíveis. Depois que você fica alérgico a disponibilizar, comovai admitir, digamos, "viabilizar"? É triste demorar tanto tempo para agente se dar conta de que "desincompatibilizar" sempre foi umpalavrão.Precisamos reparabilizar nessas palavras que o pessoalinventabiliza só para complicabilizar. Caso contrário, daqui a pouco nossosfilhos vão pensabilizar que o certo é ficar se expressabilizando dessamaneira. Já posso até ouvir as reclamações: "Você não vai me impedibilizarde falabilizar do jeito que eu bem quilibiliser".Problema seu e da vilipendiada lingua portuguesa. Me inclua fora dessa.

Texto enviado por Dôra Limeira

23.10.07

Medicina e literatura

jornalOdebate

odebate.com.br


A discussão médica e científica não será o único tema de destaque do XIX Congresso Brasileiro de Hepatologia, realizado em Ouro Preto, Minas Gerais. O evento abre espaço também para a humanização, expressa por meio da literatura.
Neste encontro, o hepatologista Waldir Pedrosa Amorim apresenta sua obra Palheiro Cotidiano, uma reunião de crônicas e contos. O livro é composto por 46 textos que trazem o cotidiano do ser humano como temática central, esmiuçando aspectos comuns do dia-a-dia. O lançamento da obra será realizado às 18h30, 18/10 (hoje), no stand da farmacêutica Roche, durante o Congresso.
Pernambucano que adotou a cidade de João Pessoa como morada, Dr. Waldir Pedrosa desde criança cultiva a paixão pela literatura e atualmente divide-se entre a medicina, a leitura e a escrita. O especialista é autor também de outros três livros, Cantos da Vida de Amar - poemas e solilóquios, Amor Que Sai do Casulo e O Avesso da Pele, todos de poesias.

Publicado em O Debate http://odebate.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=6782&Itemid=41

17.10.07

Waldir lança livro de contos e crônicas em Ouro Preto-MG. durante o Congresso Brasileiro de Hepatologia

Contos e Crônicas - Literatura brasileira
160 páginas

Ed. Manufatura










No dia 18 de outubro de 2007, dia do médico, Waldir Pedrosa Amorim estará fazendo o lançamento do seu mais novo livro, Palheiro Cotidano, para um público de especialistas em hepatologia de todo o Brasil, durante o XIX Congresso Brasileiro de Hepatologia, que ocorre na cidade mineira de Ouro Preto entre os dias 16 e 20 de outubro.
A recente obra literária de Waldir, diferente das tres últimas, que versaram sobre poesia, traz vivências do cotidiano humano numa coletânea de contos e crônicas.
De acordo com Samuel Hulak, autor do prefácio, trata-se de um primor de receita que combina o simples com o profundo e o puro do cotidiano. Retratando nos personagens aqueles que o leitor conhece ou conheceu. Algo de todos nós por pinceladas...a face da humanidade sem retoques ou exageros. Concluindo que vale a pena ler, para encontrar as agulhas de ouro achadas neste palheiro.
Este é o quarto livro de Waldir, que como nos anteriores, escolheu como público para iniciar o seu lançamento, os colegas brasileiros de sua especialidade, comprovando e reforçando que a medicina e a ciência podem ser exercidas contemplando e convivendo com a face singela, humana e erudita do cotidiano.
Em dezembro este livro será lançado ao público de João Pessoa e certamente estará à venda em algumas livrarias do país.

7.10.07

Deixem a nossa ortografia em paz!

Por Claudio Moreno


http://sualingua.com.br/


1 — Neste mar quase infinito em que se transformou a internet, às vezes é quase impossível descobrir a verdadeira origem das informações — e dos boatos — que chegam até nossa casa. Nas últimas semanas, muita gente recebeu um e-mail que anuncia, para o final deste ano, a chegada de uma tal "reforma da Língua Portuguesa". Uma jovem leitora, naturalmente preocupada com a educação de sua filhinha, que ainda está na pré-escola, pediu que eu comentasse a notícia, porque — diz ela — "eu preciso saber se isso vai ser bom ou ruim para a minha filha". Pois eu responderia, sem a menor hesitação, que esta catástrofe, se chegar a ocorrer, vai ser ruim para ela e para todos nós. Felizmente, como no caso do aquecimento global, há sempre a esperança de que o bom senso volte a prevalecer e consigamos evitar o desastre anunciado. Explico.
No mundo inteiro, o Português foi um dos poucos idiomas que editaram uma norma "oficial" para regular sua ortografia. A iniciativa é relativamente recente, pois até a 2ª Grande Guerra cada cidadão podia escrever como lhe dava na veneta, usando acentos, agás, ípsilons e letras mudas a seu bel-prazer. Esta situação absurda, impensável nos dias de hoje, felizmente terminou quando o Brasil e Portugal assinaram o Acordo de 1943, incentivado pelo nosso benigno ditador Getúlio Vargas como parte de seu esforço para modernizar o país. É este o texto que serve de base para aquele sistema que o brasileiro médio chama respeitosamente de "ortografia oficial", atribuindo-lhe uma infalibilidade maior que a do Papa, embora os estudiosos saibam que ele (o acordo, é claro) não é tão oficial nem tão infalível assim.
Em Portugal, discussões posteriores levaram a uma versão ligeiramente modificada desse acordo, transformada em lei por aquele país em 1945; o Brasil, no entanto, não quis acompanhá-lo, ficando mesmo com o texto de 1943 — o que naturalmente gerou algumas diferenças entre o sistema usado aqui e o sistema adotado por Portugal (e pelas colônias que, na época, estavam sob seu domínio). Abrimos um livro editado em Portugal e encontramos colecção, adopção, eléctrico, facto, subtil, sumptuoso; amámos, trabalhámos, fémur, bónus, António, sinónimo — onde, no Brasil, encontramos coleção, adoção, elétrico, fato, sutil, suntuoso; amamos, trabalhamos, fêmur, bônus, Antônio, sinônimo. Se isso nunca dissuadiu os bons leitores portugueses de ler publicações brasileiras (ou vice-versa), não há dúvida, por outro lado, de que essas diferenças constituem um fator perturbador para o leitor mais simples ou para o público infantil.
Talvez por isso (ou sob esse pretexto), surgiu, a partir da década de 80, um movimento messiânico para "unificar a língua portuguesa", agora incluindo os países lusófonos que haviam conquistado sua soberania, como Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, entre outros. Formaram-se grupos e comissões, redigiram-se propostas e cartas de intenção, fixaram-se projetos e anteprojetos sucessivos, com objeções de todos os lados, tentando chegar-se a essa "unificação", numa versão singularíssima da Torre de Babel que muito teria agradado a J. L. Borges por sua ironia: agora todos falam a mesma língua, mas defendem projetos completamente diferentes para o edifício que pretendem construir. Como em Babel, não haverá torre. O produto de todas essas idas e vindas foi uma colcha de retalhos que precisa, para entrar em vigor, da aprovação do Legislativo de todos os países participantes — o que, felizmente, não está sendo fácil de obter. Por um lado, porque alguns desconfiam de que o espírito oculto do Acordo seja apenas o de favorecer grandes grupos editoriais, que teriam assim um mercado muito maior; por outro, porque uma mudança na ortografia — seja qual for a sua amplitude — traz a imediata necessidade de substituir os livros das bibliotecas escolares de todo o país. A criança que está aprendendo a escrever no novo sistema não pode ficar em contato com publicações que utilizem o sistema antigo; a inevitável atualização das bibliotecas representaria um gasto pesado demais para todos, ou quase todos, os países lusófonos, que ainda enfrentam graves problemas estruturais.
Além disso, os termos do Acordo favoreceriam alguns países e prejudicariam outros — especialmente o Brasil. A meu ver, nós deveríamos ser os maiores interessados em "melar" essa irresponsável aventura, pois — se fosse aprovada a reforma — nós teremos de ceder muito mais que os outros, abandonando hábitos ortográficos já consolidados em nosso meio para contentar a pressão de Portugal e de suas antigas colônias, que, por razões históricas, estão claramente dentro da área de influência cultural lusitana.
2 — Felizmente, começamos a notar, de alguns anos para cá, uma nítida atitude protelatória dos principais países envolvidos, certamente ditada pela cautela e pela prudência; afinal, mudar os hábitos ortográficos, que acabam se tornando praticamente uma segunda natureza dos falantes de uma língua, é assunto sério demais para se ter pressa ou açodamento. Se os deuses ajudarem, a idéia vai ser posta, mais uma vez, em banho-maria, ficando a sua aprovação final para as calendas gregas — maneira elegante que os antigos usavam para denominar o nosso famoso dia de São Nunca.
Se, por desgraça, esta desnecessária reforma chegar a entrar em vigor, os brasileiros (mais) e os portugueses (menos) vão ter de mudar sua maneira de escrever. Antes de prosseguir, contudo, acho melhor mostrar aos meus leitores as modificações anunciadas. Primeiro, ela propõe que nosso alfabeto passe a incluir também as letras k, w e y. Isso muda alguma coisa? Não, porque seu uso obedecerá às mesmas regras de hoje: só nos símbolos científicos internacionais e nos vocábulos derivados de nomes próprios (shakespeariano, darwinista, keynesiano, etc.). A novidade é que, fazendo parte do alfabeto oficial, a escola deverá ensinar às crianças o lugar que essas três letras ocupam na ordem alfabética.
Outra área em que haveria inovação é a das chamadas consoantes mudas. Quanto a elas, nada seria alterado para os brasileiros. Elas permaneceriam nas palavras em que sempre foram pronunciadas, como em compacto, ficção, convicto, adepto, apto, eucalipto, núpcias, etc.; seriam consideradas facultativas nos vocábulos em que há divergência entre as normas cultas dos dois países (aspecto ou aspeto, dicção ou dição, facto ou fato, sector ou setor, ceptro ou cetro, corrupto ou corruto, recepção ou receção, amígdala ou amídala, amnistia ou anistia, sumptuoso ou suntuoso), aliás, como sempre aconteceu, numa convivência para lá de pacífica; finalmente, desapareceriam nas palavras em que são mudas — o que significa que Portugal e os países africanos teriam de eliminá-las de palavras como acção, afectivo, acto, director, exacto, adoptar, baptizar; no Brasil, elas não são usadas desde 1943.
Na acentuação é que o ônus da mudança é mais pesado para o Brasil, pois deixaríamos de aplicar algumas regras que Portugal já não adota há muito: (1) seriam eliminados os acentos que marcam o ditongo aberto em palavras como jóia, heróico, idéia, assembléia; (2) desapareceriam o trema e o acento agudo no U, depois de G e de Q, em palavras como sagüi, lingüiça, seqüestro, argúem, averigúem; (3) seria eliminado o acento circunflexo dos hiatos ÊE, ÔO (vêem, vôo, enjôo, relêem). Continuariam facultativos, como sempre, (1) o acento da 1ª pessoa do plural do pretérito perfeito (na pronúncia lusa, amámos e levámos, para distinguir de amamos e levamos, do presente do indicativo); (2) o acento agudo ou circunflexo sobre o E ou o O, nas palavras em que há divergência quanto ao timbre: acadêmico, académico; Antônio, António; Amazônia, Amazónia; fenômeno, fenómeno; gênio, génio; fênix, fénix; ônix, ónix; fêmur, fémur; sêmen, sémen; tênis, ténis; Vênus, Vénus; bônus, bónus; bebê, bebé; caratê, caraté; guichê, guiché; e muitas mais.
A meta obsessiva dos reformistas é diminuir ao máximo as diferenças entre Portugal e Brasil, cobrando de cada país sua taxa de sacrifício. Considerando a unificação gráfica do Português como um valor supremo — o que é perfeitamente discutível, se considerarmos o preço que se vai pagar por isso —, a reforma não hesita em limar aqui, aparar ali, lixar acolá, numa sucessão de "retoques" que parecem feitos por quem não é do ramo. Isso fica muito claro nas mudanças propostas para a acentuação, insignificantes para trazer uma verdadeira melhora no sistema, mas amplas o suficiente para perturbar a vida de todos nós — brasileiros, angolanos, portugueses, moçambicanos e os demais irmãos lusófonos.
Na verdade, deveríamos ou deixar tudo como está, ou eliminar o acento de uma vez por todas. Na primeira hipótese (a mais econômica), daremos ao sistema atual o tempo indispensável para sua maturação; o trabalho que começou em 1971 deve prosseguir por mais cem anos, no mínimo, quando então ele estará consolidado, infiltrado até mesmo no movimento da mão que traça as palavras, perfeitamente assimilado por brasileiros que já terão nascido dentro dele, sem ter conhecido o sistema de 1943 ou anteriores. A segunda hipótese é muito mais radical e trabalhosa, pois exigiria um grande esforço de todos os já alfabetizados, obrigando-os a evitar, no texto escrito, as armadilhas de interpretação que hoje o acento se encarrega de desfazer — mas projetaria um futuro muito mais simples para os netos de nossos netos, pois teriam muito maior facilidade em dominar o sistema ortográfico. Não duvido que custo fabuloso dessa mudança fosse compensado, a médio prazo, pela maior eficiência dos programas de alfabetização.
O que não tem cabimento é continuar usando acentuação mas mudar algumas regras em nome de uma unificação que é utópica e impossível, pois, considerando o grande número de formas facultativas que foram mantidas, os livros do Brasil e de Portugal continuarão a ser diferentes. Jamais um livro escolar editado aqui poderá ser utilizado no além-mar, e vice-versa. A unificação ortográfica, que era a razão de ser da reforma, cai como um castelo de cartas — sem falar nas incontornáveis diferenças lexicais entre um país que apregoa "berbequim para betão ao desbarato" de outro que anuncia "furadeira para concreto em oferta" — e estão falando da mesma coisa.
Extraído de: http://sualingua.com.br/06/06_deixem_paz.htm

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Deixem a nossa ortografia em paz!

1 — Neste mar quase infinito em que se transformou a internet, às vezes é quase impossível descobrir a verdadeira origem das informações — e dos boatos — que chegam até nossa casa. Nas últimas semanas, muita gente recebeu um e-mail que anuncia, para o final deste ano, a chegada de uma tal "reforma da Língua Portuguesa". Uma jovem leitora, naturalmente preocupada com a educação de sua filhinha, que ainda está na pré-escola, pediu que eu comentasse a notícia, porque — diz ela — "eu preciso saber se isso vai ser bom ou ruim para a minha filha". Pois eu responderia, sem a menor hesitação, que esta catástrofe, se chegar a ocorrer, vai ser ruim para ela e para todos nós. Felizmente, como no caso do aquecimento global, há sempre a esperança de que o bom senso volte a prevalecer e consigamos evitar o desastre anunciado. Explico.
No mundo inteiro, o Português foi um dos poucos idiomas que editaram uma norma "oficial" para regular sua ortografia. A iniciativa é relativamente recente, pois até a 2ª Grande Guerra cada cidadão podia escrever como lhe dava na veneta, usando acentos, agás, ípsilons e letras mudas a seu bel-prazer. Esta situação absurda, impensável nos dias de hoje, felizmente terminou quando o Brasil e Portugal assinaram o Acordo de 1943, incentivado pelo nosso benigno ditador Getúlio Vargas como parte de seu esforço para modernizar o país. É este o texto que serve de base para aquele sistema que o brasileiro médio chama respeitosamente de "ortografia oficial", atribuindo-lhe uma infalibilidade maior que a do Papa, embora os estudiosos saibam que ele (o acordo, é claro) não é tão oficial nem tão infalível assim.
Em Portugal, discussões posteriores levaram a uma versão ligeiramente modificada desse acordo, transformada em lei por aquele país em 1945; o Brasil, no entanto, não quis acompanhá-lo, ficando mesmo com o texto de 1943 — o que naturalmente gerou algumas diferenças entre o sistema usado aqui e o sistema adotado por Portugal (e pelas colônias que, na época, estavam sob seu domínio). Abrimos um livro editado em Portugal e encontramos colecção, adopção, eléctrico, facto, subtil, sumptuoso; amámos, trabalhámos, fémur, bónus, António, sinónimo — onde, no Brasil, encontramos coleção, adoção, elétrico, fato, sutil, suntuoso; amamos, trabalhamos, fêmur, bônus, Antônio, sinônimo. Se isso nunca dissuadiu os bons leitores portugueses de ler publicações brasileiras (ou vice-versa), não há dúvida, por outro lado, de que essas diferenças constituem um fator perturbador para o leitor mais simples ou para o público infantil.
Talvez por isso (ou sob esse pretexto), surgiu, a partir da década de 80, um movimento messiânico para "unificar a língua portuguesa", agora incluindo os países lusófonos que haviam conquistado sua soberania, como Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, entre outros. Formaram-se grupos e comissões, redigiram-se propostas e cartas de intenção, fixaram-se projetos e anteprojetos sucessivos, com objeções de todos os lados, tentando chegar-se a essa "unificação", numa versão singularíssima da Torre de Babel que muito teria agradado a J. L. Borges por sua ironia: agora todos falam a mesma língua, mas defendem projetos completamente diferentes para o edifício que pretendem construir. Como em Babel, não haverá torre. O produto de todas essas idas e vindas foi uma colcha de retalhos que precisa, para entrar em vigor, da aprovação do Legislativo de todos os países participantes — o que, felizmente, não está sendo fácil de obter. Por um lado, porque alguns desconfiam de que o espírito oculto do Acordo seja apenas o de favorecer grandes grupos editoriais, que teriam assim um mercado muito maior; por outro, porque uma mudança na ortografia — seja qual for a sua amplitude — traz a imediata necessidade de substituir os livros das bibliotecas escolares de todo o país. A criança que está aprendendo a escrever no novo sistema não pode ficar em contato com publicações que utilizem o sistema antigo; a inevitável atualização das bibliotecas representaria um gasto pesado demais para todos, ou quase todos, os países lusófonos, que ainda enfrentam graves problemas estruturais.
Além disso, os termos do Acordo favoreceriam alguns países e prejudicariam outros — especialmente o Brasil. A meu ver, nós deveríamos ser os maiores interessados em "melar" essa irresponsável aventura, pois — se fosse aprovada a reforma — nós teremos de ceder muito mais que os outros, abandonando hábitos ortográficos já consolidados em nosso meio para contentar a pressão de Portugal e de suas antigas colônias, que, por razões históricas, estão claramente dentro da área de influência cultural lusitana.
2 — Felizmente, começamos a notar, de alguns anos para cá, uma nítida atitude protelatória dos principais países envolvidos, certamente ditada pela cautela e pela prudência; afinal, mudar os hábitos ortográficos, que acabam se tornando praticamente uma segunda natureza dos falantes de uma língua, é assunto sério demais para se ter pressa ou açodamento. Se os deuses ajudarem, a idéia vai ser posta, mais uma vez, em banho-maria, ficando a sua aprovação final para as calendas gregas — maneira elegante que os antigos usavam para denominar o nosso famoso dia de São Nunca.
Se, por desgraça, esta desnecessária reforma chegar a entrar em vigor, os brasileiros (mais) e os portugueses (menos) vão ter de mudar sua maneira de escrever. Antes de prosseguir, contudo, acho melhor mostrar aos meus leitores as modificações anunciadas. Primeiro, ela propõe que nosso alfabeto passe a incluir também as letras k, w e y. Isso muda alguma coisa? Não, porque seu uso obedecerá às mesmas regras de hoje: só nos símbolos científicos internacionais e nos vocábulos derivados de nomes próprios (shakespeariano, darwinista, keynesiano, etc.). A novidade é que, fazendo parte do alfabeto oficial, a escola deverá ensinar às crianças o lugar que essas três letras ocupam na ordem alfabética.
Outra área em que haveria inovação é a das chamadas consoantes mudas. Quanto a elas, nada seria alterado para os brasileiros. Elas permaneceriam nas palavras em que sempre foram pronunciadas, como em compacto, ficção, convicto, adepto, apto, eucalipto, núpcias, etc.; seriam consideradas facultativas nos vocábulos em que há divergência entre as normas cultas dos dois países (aspecto ou aspeto, dicção ou dição, facto ou fato, sector ou setor, ceptro ou cetro, corrupto ou corruto, recepção ou receção, amígdala ou amídala, amnistia ou anistia, sumptuoso ou suntuoso), aliás, como sempre aconteceu, numa convivência para lá de pacífica; finalmente, desapareceriam nas palavras em que são mudas — o que significa que Portugal e os países africanos teriam de eliminá-las de palavras como acção, afectivo, acto, director, exacto, adoptar, baptizar; no Brasil, elas não são usadas desde 1943.
Na acentuação é que o ônus da mudança é mais pesado para o Brasil, pois deixaríamos de aplicar algumas regras que Portugal já não adota há muito: (1) seriam eliminados os acentos que marcam o ditongo aberto em palavras como jóia, heróico, idéia, assembléia; (2) desapareceriam o trema e o acento agudo no U, depois de G e de Q, em palavras como sagüi, lingüiça, seqüestro, argúem, averigúem; (3) seria eliminado o acento circunflexo dos hiatos ÊE, ÔO (vêem, vôo, enjôo, relêem). Continuariam facultativos, como sempre, (1) o acento da 1ª pessoa do plural do pretérito perfeito (na pronúncia lusa, amámos e levámos, para distinguir de amamos e levamos, do presente do indicativo); (2) o acento agudo ou circunflexo sobre o E ou o O, nas palavras em que há divergência quanto ao timbre: acadêmico, académico; Antônio, António; Amazônia, Amazónia; fenômeno, fenómeno; gênio, génio; fênix, fénix; ônix, ónix; fêmur, fémur; sêmen, sémen; tênis, ténis; Vênus, Vénus; bônus, bónus; bebê, bebé; caratê, caraté; guichê, guiché; e muitas mais.
A meta obsessiva dos reformistas é diminuir ao máximo as diferenças entre Portugal e Brasil, cobrando de cada país sua taxa de sacrifício. Considerando a unificação gráfica do Português como um valor supremo — o que é perfeitamente discutível, se considerarmos o preço que se vai pagar por isso —, a reforma não hesita em limar aqui, aparar ali, lixar acolá, numa sucessão de "retoques" que parecem feitos por quem não é do ramo. Isso fica muito claro nas mudanças propostas para a acentuação, insignificantes para trazer uma verdadeira melhora no sistema, mas amplas o suficiente para perturbar a vida de todos nós — brasileiros, angolanos, portugueses, moçambicanos e os demais irmãos lusófonos.
Na verdade, deveríamos ou deixar tudo como está, ou eliminar o acento de uma vez por todas. Na primeira hipótese (a mais econômica), daremos ao sistema atual o tempo indispensável para sua maturação; o trabalho que começou em 1971 deve prosseguir por mais cem anos, no mínimo, quando então ele estará consolidado, infiltrado até mesmo no movimento da mão que traça as palavras, perfeitamente assimilado por brasileiros que já terão nascido dentro dele, sem ter conhecido o sistema de 1943 ou anteriores. A segunda hipótese é muito mais radical e trabalhosa, pois exigiria um grande esforço de todos os já alfabetizados, obrigando-os a evitar, no texto escrito, as armadilhas de interpretação que hoje o acento se encarrega de desfazer — mas projetaria um futuro muito mais simples para os netos de nossos netos, pois teriam muito maior facilidade em dominar o sistema ortográfico. Não duvido que custo fabuloso dessa mudança fosse compensado, a médio prazo, pela maior eficiência dos programas de alfabetização.
O que não tem cabimento é continuar usando acentuação mas mudar algumas regras em nome de uma unificação que é utópica e impossível, pois, considerando o grande número de formas facultativas que foram mantidas, os livros do Brasil e de Portugal continuarão a ser diferentes. Jamais um livro escolar editado aqui poderá ser utilizado no além-mar, e vice-versa. A unificação ortográfica, que era a razão de ser da reforma, cai como um castelo de cartas — sem falar nas incontornáveis diferenças lexicais entre um país que apregoa "berbequim para betão ao desbarato" de outro que anuncia "furadeira para concreto em oferta" — e estão falando da mesma coisa.

Extraído de http://sualingua.com.br/06/06_deixem_paz.htm

31.7.07

FERREIRA GULLAR





Galo galo

O galo
no saguão quieto.

Galo galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval.

De córneo bico e
esporões, armado
contra a morte,
passeia.

Mede os passos. Pára.
Inclina a cabeça coroada
dentro do silêncio
- que faço entre coisas?
- de que me defendo?

Anda
no saguão.
O cimento esquece
o seu último passo.

Galo: as penas que
florescem da carne silenciosa
e o duro bico e as unhas e o olho
sem amor. Grave
solidez.
Em que se apóia
tal arquitetura?

Saberá que, no centro
de seu corpo, um grito
se elabora?

Como, porém, conter,
uma vez concluído,
o canto obrigatório?

Eis que bate as asas, vai
morrer, encurva o vertiginoso pescoço
donde o canto rubro escoa.

Mas a pedra, a tarde,
o próprio feroz galo
subsistem ao grito.

Vê-se: o canto é inútil.

O galo permanece - apesar
de todo o seu porte marcial -
só, desamparado,
num saguão do mundo.
Pobre ave guerreira!

Outro grito cresce
agora no sigilo
de seu corpo; grito
que, sem essas penas
e esporões e crista
e sobretudo sem esse olhar
de ódio,
não seria tão rouco
e sangrento.

Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.
Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras.

in: A luta corporal, 1950-1953

Foto sem referência a autoria - obtida do site www.canalzero.com.br/c3_gal_e01.htm

13.7.07

LIMPO - uma crônica de Ronaldo Monte





A lavadeira caminhava em minha frente. O braço esquerdo apoiava um pequeno volume de roupas coberto com um pano muito alvo. A mão direita segurava quatro cabides, cada um com uma camisa masculina. Todas limpas. Podia imaginar o cheiro bom do tecido lavado e passado com cuidado. Não sabia de quem eram as roupas. Não podia imaginar o teor do trabalho que as havia sujado. Nem me interessava. Olhava apenas com carinho para aquela mulher que exibia na rua o resultado do seu trabalho. E me senti confortado com a sua existência, mesmo sabendo do quanto seu esforço era mal recompensado.Essa é uma das injustiças do mundo: os que limpam ganham muito menos do que os que sujam. E é muito mais fácil sujar. Basta ver o pouco esforço que requer jogar uma lata de cerveja pela janela do carro, difamar injustamente um semelhante, fraudar uma assinatura, assaltar um aposentado na porta de um banco.A operária do limpo ia entregar o fruto do seu trabalho sabendo que na outra semana tudo estará sujo outra vez. E ela novamente limpará. Há uma lição a aprender aí, por quem se ocupa com a limpeza do mundo. É um trabalho sem descanso, pois tem mais gente sujando que limpando.


Ilustração obtida em http://josesobrinho.planetaclix.pt/profissoes/lavadeiras.html
acesse o blog-do-rona clicando aquí

26.6.07

Jacob do Bandolin plagiou Canhoto da Paraíba?


...Domingo passado, estive na casa de Canhoto da Paraíba para levar a ele um presente, o magnífico trabalho de choro de Carlos Henrique Machado, o Vale dos Tambores. Então lá pras tantas da tarde de 17 de junho ele me sussurrou, como se nada dissesse: “Eu tenho uma música que foi plagiada”. Como ele fala com muita dificuldade agora em razão do AVC, eu lhe devolvi, “O quê?”. Ele repetiu, “Plagiaram uma música minha”. E eu: “Que música?”. Ele: “Tua Imagem”. E quem plagiou?...

autor: Urariano Mota

Leia a matéria na íntegra clicando sobre título desta postagem no blog de Urariano Mota.

14.6.07

CLUBE DO CONTO FAZ LEITURAS NO CASARÃO 34

O Clube do Conto da Paraíba faz leitura aberta ao público neste sábado, 16, a partir das 17 horas, no Casarão 34, localizado na Av. Visconde de Pelotas, 34, Centro da Capital. O grupo, que é integrado por escritores paraibanos ou radicados no Estado, surgiu em 2004 de uma lista de discussão na internet criada e moderada pelo poeta e ficcionista Antônio Mariano. As reuniões são semanais e estavam acontecendo todos os sábados em um Shopping Center no bairro dos Bancários, na Capital Paraibana, mas há algum tempo os autores estão sentindo a necessidade de um espaço maior para acolher os membros e convidados que têm crescido cada vez mais, já que o grupo é aberto a quem quiser participar e tem ganhado visibilidade na mídia nacional, atraindo o interesse de escritores de outros estados que querem agendar encontros para interagir com a literatura e os leitores da Paraíba.
Nesses três anos de existência, têm marcado presença no Clube do Conto da Paraíba, escritores como Ronaldo Monte, Maria Valéria Rezende, André Ricardo Aguiar, Dôra Limeira, Geraldo Maciel, Waldir Amorim, Cláudio Rodrigues, Regina Behar, Mercedes Cavalcanti, Raoni Xavier, Joana Belarmino, Dira Vieira, Laudelino Menezes, Bonifácio Segundo e João Batista de Brito, entre outros, numa lista que ultrapassa o número de vinte autores entre veteranos e novatos a exemplo do adolescente Alexandre Santos.

AS LEITURAS SÃO TEMÁTICAS

A cada encontro os escritores trazem contos produzidos a partir de tema que elegem na semana anterior, expondo os mais diferentes e curiosos assuntos ficcionais para leituras abertas ao público como preconceito, embriaguez, biblioteca, velório, vampiro, burocracia, os sete pecados capitais, monstros, elevador, apartamento, celular, escatologia, acaso, ciúme, ponte, entre os mais de duzentos pontos eleitos para exercícios narrativos. O tema escolhido para esta semana é “Casarão”.

SESSÃO DE AUTÓGRAFOS

Os autores do Clube do Conto da Paraíba têm produzido publicações populares intituladas “Atas do Clube do Conto” que são comercializadas a 1 real. Uma mostra deste trabalho estará exposta ao lado de livros de membros do grupo, que serão autografados ao fim da leitura nesta sessão do Casarão 34.

Enviado pelo poeta e ficcionista Antônio Mariano
http://antoniomariano.weblogger.terra.com.br

Vale a pena conhecer a produção literária de Antônio Mariano:
http://www.antoniomariano.hpg.ig.com.br

30.5.07

MARKETING DA PITOMBA









A pitomba,
mais semente que fruto
atrai outras
causa a sensação
de mais fruto que semente.

Waldir Pedrosa Amorim

20.5.07

Que os condôminos do Céu respeitem os do Inferno.

João Pessoa-PB.
Paróquia acusa Prefeitura de ter colocado o "Porteiro do Inferno" no girador da UFPB "às escondidas" www.wscom.com.br


Que os condôminos do Céu respeitem os do Inferno, que assim seja com os do Purgatório e até os do Limbo, que nos usurparam.
Nunca em minha vida visitei uma cidade confessional. Não sei se existem. Restarei triste e acabrunhado ao vislumbrar a possibilidade de viver numa delas.
A cidade de Salvador convive com os Orixás e com a Igreja de Nosso Senhor do Bomfim e outros cultos religiosos. Assim numerosas cidades.
Florença é um museu de arte a céu aberto. O museu do Vaticano não contém apenas uma alusão artística a Satanás, porém várias.
Em João Pessoa resolveram abrir uma polêmica sobre uma escultura do artista plástico Jackson Ribeiro que segundo consta foi apelidada de Porteiro do Inferno pelo escritor Virginius da Gama num lampejo poético. Desabaram protestos de segmentos políticos contrários ao prefeito, de setores religiosos e da comunidade das circunvizinhanças de onde a obra foi instalada. A razão alegada repousa na alcunha dada, a que se atribui atração de males. Tendo sido instalada num entroncamento próximo ao campus universitário, vem ganhando a defesa de estudantes, professores e intelectuais que se preparam para defendê-la. Foi programado um abraço simbólico, liderado pela escritora Dôra Limeira e corre uma lista de defensores em abaixo assinado pela Internet. Outro abaixo assinado circula entre favoráveis à sua remoção.
Os símbolos do mal e do bem nasceram da necessidade humana de bipartir-se. Quem inventou o inferno senão os habitantes do céu? Se provarem que as boas divindades são posteriores a Satanás, Belzebu ou outro que o represente, terão certamente negado a existência de Deus na origem das coisas. A um agnóstico ou ateu isto não apresenta pertinência alguma.
A alma humana se aperfeiçoa quando ecumênica, diversa, respeitosa. Preconceito é apanágio de ignorantes e oportunistas. Aos ignorantes de alguma coisa, que somos todos nós, resta-nos a humildade do aprendizado, do questionamento, da boa informação buscada ou transmitida pelos mais sábios. Aos oportunistas de qualquer matiz, dedetizá-los, para que desapareçam como as pragas. Ou ao sol do tempo que os seleciona naturalmente! Onde se encontravam estes quando os nossos logradouros públicos, casas de justiça e outros ficaram sendo cognominados por indivíduos que se auto-intitularam com algum mérito para figurarem nos frontispícios de sua identidade. Oh! Cidade onomástica!
Preconceito no seio das religiões cheira a obscurantismo, inquisição e outros males que almejamos ver distantes de nós.
Enquanto se debate tanto para que uma expressão de arte seja apedrejada, a injustiça social campeia. Paralelamente, poucas são as organizações públicas, civis ou religiosas que se comprometem com o resgate da miséria. Isto sim é um inferno sem porteiro para solicitar o tíquete.
O inferno e o paraíso moram dentro de cada um de nós.
Meu Deus! Não mereceremos figurar no mundo através do nome de capital do ridículo universal!
Estamos no século XXI, olhem vocês!
O nosso número de museus, acervo de obras de arte ao ar livre ou não, centros de cultura artística e galerias de arte, é ínfimo. O número de leitores de livros, jornais e outros periódicos dispensam comentários. O número de casas de espetáculos, companhias de teatro e cinema é delgado - raros se auto-sustentam. Os melhores circuitos artísticos e musicais não acorrem à nossa agenda cultural. As livrarias são ainda escassas e algumas locais desapareceram. Quantas editoras possuimos com alcance nacional? Nossos músicos e a nossa maravilhosa orquestra sinfônica, muito padeceram e padecem a fim de sobreviverem através da música.
O contingente de alfabetizados de verdade, de pessoas com acesso a cultura de um modo geral, certamente nos remete a uma fase anterior aos meados do século XX -estou sendo benevolente? Ora, vamos cuidar de coisas mais significativas. Vamos tornar esta cidade não somente mais bela, porém mais humana e menos injusta. A natureza nos presenteia com um lugar especial e com uma gente boa, neste pedacinho de planeta. Que nele possa morar o amigo, o irmão, o vizinho, o igual, o diferente, o amigo ou o inimigo. Afinal de contas até o inimigo tem que ser decente.

Aí vai um poemeto:

O PORTEIRO DO INFERNO


Pequenina cidade
querida cidade onde vivo

Um homem de lata,
O Homem Astronauta,
ganhaste com carinho
das mãos de um artista
para os teus olhos de carne,
não para olhos mesquinhos.

Se de porteiro do inferno
ou de porteiro do céu
alcunharem aquela obra.
Pouco importa,
nunca um mero apelido
melhores dias farão.

Melhores dias
no trabalho, na alegria
sem politicagens ou mistificações.
Dias que alimentem
liberdade ao espírito
sem dolo ou superstição.

Grande cidade de artistas,
músicos, escultores, letristas,
pintores, poetas, contistas,
cinegrafistas, atores,
cantadores, repentistas,
exprimem a tua visão.

Uns te agradam,
outros não?
Melhor que assim seja,
a teu sol desfile solta,
a liberdade de expressão.

Waldir Pedrosa Amorim



Leia a Carta Aberta ao Porteiro do Inferno da escritora Dôra Limeira

13.5.07

É DIA DAS MÃES.



Vou abrir a porta
mais uma vez podes entrar,
é dia das mães,
eu resolvi te perdoar. (Chico Buarque)

Minha mulher cunhou uma frase que costumamos repetir em muitas brincadeiras e blagues familiares, mas que nasce de uma inteligente reflexão sobre a significância do que é a mãe: “A mãe é símbolo de identificação universal”.
De fato, a começar pela assinatura ou a impressão digital do polegar, a identificação das pessoas se dá, além disto, pelo nome da mãe no documento de identidade. O do pai pode faltar e até ser desconhecido. Se extrapolarmos para os imprints lógicos como a gestação e os cuidados pós nascimento, como para aqueles de natureza afetiva e emocional, claro está que em todo ser humano existe mais pegadas maternas do que paternas. Recentemente tomei conhecimento de uma pesquisa enfatizando que uma significativa maioria de pessoas, tendo que optar entre amortizar uma dívida e comprar um presente para o dia das mães, priorizaria a segunda escolha. Apenas valores mercadológicos incutidos pela mídia? Não possuiria a coragem de afirmá-lo com segurança. E para o escopo desta breve opinião, me restringiria a admiti-lo como um sinal de que alguma coisa deve dizer.
Salvo em raras situações sociais de matriarcado, que eu tenha conhecimento, a trajetória da mulher nas civilizações, foi e tem sido a de uma penosa conquista pelo reconhecimento social do seu papel e direitos. E, quando sequencio papel e direitos, faço-o propositadamente, não para ser enfático, mas porque considero que ao papel se atribui razões subjetivas de toda sorte (culturais, religiosas, etc.); já ao direito, mesmo que elementar, ele tem a ponderabilidade objetiva daquilo que sem ele, vive-se mal e injustamente, ou não se pode viver.
Neste particular a luta do gênero feminino é magnânima, ela ultrapassa a luta pelo poder, pelo efêmero reconhecimento, se estendendo à vida.
A vida com qualidade dos seres humanos passa por uma retribuição justa a papéis femininos por natureza, como: procriação, maternagem, aleitamento, cuidados, interação com a criança, entre outros. A luta pela sobrevivência e pelo direito à intervenção e participação do gênero feminino no poder, é um direito humano e uma necessidade da espécie humana, portanto é obra comum aos dois gêneros e nunca apenas facultada à mulher na ausência do homem.
Comparo a situação do imenso contingente de mulheres-mães do mundo inteiro à condição do planeta que habitamos. Por intencionalidade e má fé, por avidez do capital, por individualismo, por descuido ou por ignorância fomos de forma perversa e deturpada habituados a desconsiderá-las como essenciais à perpetuidade da espécie humana.
Não cometo o viés do olhar deturpado por não haver falado do sol, das estrelas nem do gênero masculino, apenas me cinjo à temática desta data e procuro focalizar aqui o que desde priscas eras perdemos a argúcia de enxergar.
A mim a imagem fotográfica que consegui capturar nas ruas da cidade e a estrofe da canção de Chico Buarque, sozinhas, corroboram com o dito de Fátima, que eu apenas desdobraria em símbolo de identidade humana universal.

Waldir Pedrosa Amorim

domingo, 13 de maio de 2007

8.5.07

Antônio Mariano

Amigos, estou no Centro Oeste no Brasil desde ontem para divulgar meus livros "Guarda-chuvas esquecidos", de poemas, e "Imensa asa sobre o dia", de contos.
Hoje, 4, em Goiás
Hoje tenho uma noite de autógrafos em Goiânia-GO, seguido de recital com vários poetas goianos como convidados, entre eles Aidenor Aires, Beth Brito, Cecília Mello, Célia Siqueira, Coelho Vaz, Edival Lourenço, Fátima Paraguaçu, Fausto Rodrigues Valle, Heloísa Helena de Campos Borges, Leda Selma, Luiz de Aquino, Placidina Siqueira e Ubirajara Galli. Vejam matéria que saiu no maior jornal de Goiás, o Diário da Manhã:
http://www.dm.com.br/colunas.php?coluna=48&edicao=7119

Em Brasília, na segunda, 7 de maio.
No dia 7 de maio prevejo uma segunda-feira de muita poesia a partir das 20 horas no Restaurante Cultural Rayuela (412 Sul), com a noite de autógrafos de meus dois livros de poemas e de contos. A idéia é mesmo de confraternização poética reunindo amigos e o público interessado em poesia num recital coletivo trazendo além dos meus poemas, a presença de poetas importantes do cenário brasiliense como Nicolas Behr, Ana Maria Ramiro,
Ronaldo Cagiano, Antonio Miranda, Anand Rao, Nalu Nogueira Carlos Augusto Cacá e a Tribo das Artes.

Repassem a notícia para os seus contatos do Centro-Oeste. Grato desde já. Muita poesia e boa prosa.

Antônio Mariano
Conheça e opine no blogue de Antônio Mariano:
http://antoniomariano.weblogger.terra.com.br


Poemas e contos paraibanos
http://www.dm.com.br/colunas.php?coluna=48&edicao=7119 (Diário da Manhã)

O poeta e escritor de contos de João Pessoa, na Paraíba, Antônio Mariano, está em Goiânia, hoje, no Restaurante Vacalhau e Binho, a partir das 21h30, para noite de autógrafos de suas obras: O gozo insólito, Te odeio com doçura, Guarda-chuvas esquecidos e Imensa asa sobre o dia. O Grupo Rivotrio será a atração musical da noite.
Antônio Mariano é o criador e organizador do projeto Tome Poesia, evento poético mensal realizado em João Pessoa, que procura a cada edição mostrar um autor paraibano e um de outra unidade federativa brasileira.
Recentemente, Luiz de Aquino abrilhantou o projeto com seus poemas à beira das águas quentes do maravilhoso mar da Paraíba.
Um sarau de poesias será realizado em homenagem ao amigo poeta Antônio Mariano, que contará com vários convidados poéticos goianos.
Já confirmaram presença no sarau de poesias, autores como Aidenor Aires, Beth Brito, Cecília Mello, Célia Siqueira, Coelho Vaz, Edival Lourenço, Fátima Paraguaçu, Fausto Rodrigues Valle, Heloísa Helena de Campos Borges, Leda Selma, Luiz de Aquino, Placidina Siqueira e Ubirajara Galli.

Serviço
Evento: Antônio Mariano em noite de autógrafos e sarau de poesias
Horário: 21h30
Couvert: R$ 5
Local: Restaurante Vacalhau e Binho
Endereço: Rua T-55, esq. com Av. 85, Setor MaristaFone: 3278-2929Informações: 8127-4561 (com Flávia Cruvinel)
===========================================================
Conheça a produção literária de Antônio Mariano:
http://www.antoniomariano.hpg.ig.com.br

Enviado por Antônio Mariano

A arte do cuidado

Por Ronaldo Monte

Você pode estudar muito e se tornar um bom médico, um ótimo psicólogo, um excelente enfermeiro. Mas não tem livro que ensine você a cuidar dos outros.
O cuidado é uma arte cada vez mais rara entre as pessoas. E quase inexistente entre os profissionais da saúde. Uns alegam falta de tempo. Outros se bastam com sua competência técnica. Outros ainda se deleitam sadicamente com o poder que exercem, aumentando deliberadamente o sofrimento alheio.
Considero-me privilegiado quando encontro quem cuide de mim para além de meus achaques físicos. Quando sinto que a escuta ultrapassa a fronteira da minha anatomia e suas mazelas e se abre para toda a dimensão da minha existência.
Estou tocando neste assunto porque hoje é o aniversário de uma dessas artistas do cuidado. Uma que, antes de bisbilhotar sobre os estragos do tempo e do mal uso nesta frágil carcaça, abre-me um sorriso que me assegura que cuidará de mim, seja lá o que eu tenha feito de ruim com o meu fígado.
Alguns a chamam de Doutora Fátima. Eu me reservo o direito de chamá-la de Madame Duques. De um modo ou de outro, é a melhor pessoa que me ocorre chamar quando estou precisando de cuidado.

Foto retirada do blog "Andreye World".

Enviado por Ronaldo Monte
blog-do-rona.blogspot.com

7.5.07

Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa (Cineport)



CIDADE DO CINEMA

Clique para consultar a programação:

Cineport começa nesta sexta-feira e deve exibir mais de 100 filmes

A abertura oficial do Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa (Cineport) acontece nesta sexta-feira (4), a partir das 19h, na Usina Cultural Saelpa, em João Pessoa. O evento, que se estenderá até o dia 13, vai exibir mais de 100 filmes produzidos em oito países.
A estrutura – que inclui tendas climatizadas – foi preparada para receber um público total de até 5 mil pessoas durante os dez dias do evento. O festival conta com a parceria da Prefeitura de João Pessoa (PMJP), que incluiu na programação o projeto 'Cine Volante'.

O diretor de produção do festival, Henrique Frade, disse que a equipe está trabalhando para receber 5 mil pessoas na ‘Cidade Cinema’. “Construímos uma estrutura com tendas climatizadas, para vários eventos.

A Tenda Andorinha tem 400 lugares e a Andorinha Digital tem 250 lugares. Ainda tem uma tenda para música. O festival é dividido em duas partes.

Neste final de semana, serão exibidos os filmes dos homenageados e mostras. A partir da segunda-feira, serão exibidos aqueles que irão concorrer aos prêmios”, disse.

A assessoria de imprensa do festival, informou que o Cineport já conta com mais de 100 filmes inscritos para exibição, superando a expectativa dos organizadores. O festival vai fazer homenagem ao realizador angolano Zezé Gamboa, ao cineasta português Luiz Galvão Teles e ao documentarista paraibano Wlademir Carvalho.

A cerimônia de abertura nesta sexta-feira vai ser apenas para convidados.

Para o público, o festival começa mesmo a partir das 14h do sábado (5).

Durante uma semana, os eventos incluídos no festival vão acontecer tanto da Usina Saelpa, que é a sede, como em terrenos da empresa. Também haverá atividades em diversos locais da cidade. Os trabalhos serão exibidos também dentro do projeto 'Cine Volante', que leva produções cinematográficas aos bairros da Capital. As apresentações serão realizadas em praças públicas de bairros como Mangabeira, Jaguaribe, Manaíra e Mandacaru.

As atividades também acontecem no Espaço Cultural – com exibição de filmes infantis para alunos das escolas municipais e estaduais, no Cine Banguê – e na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Na universidade, acontecerão debates e palestras com professores e os produtores das películas dos oito países participantes do evento.

Instituído pela Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho em 2004, o Cineport tem como objetivo integrar e desenvolver o mercado audiovisual, promovendo os filmes realizados em português e dialetos falados nas nações que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), formado por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

PROGRAMAÇÃO DA SEXTA-FEIRA (4)
14h - Abertura do Encontro dos Cineclubes da Paraíba, apresentação dos cineclubes e encaminhamento dos trabalhos.
15h – Mesa redonda, no Hotel JR – Sala Forró – “O cineclubismo na Paraíba: um percurso histórico”. Convidados: Fernando Trevas, jornalista; João Batista de Brito, crítico de cinema; Luis Custódio, professor da UEPB; Vladimir Carvalho, cineasta; Wills Leal, pesquisador. Mediador: Carlos Dowling, cineasta e presidente da ABD-PB.
19h – Na Usina Cultural Saelpa – Cidade do Cinema
Cerimônia de abertura oficial. Presença de autoridades e convidados relacionados ao audiovisual dos países da CPLP.
21h – Na Tenda Andorinha - Sessão Troféu Humberto Mauro, com homenagem ao documentarista paraibano Vladimir Carvalho. Exibição do filme ‘O engenho de Zé Lins’.
22h - Tenda Cineport Música – Show com JP Sax, exclusivo para convidados.


Assessoria de imprensa do Cineport: Fernanda Brasileiro (9934 0266)

Enviado por Ruth Avelino

21.4.07

Lançado em Salvador O Livro de Poemas Casulo Azul - Cadernos de Virgínia -


Casulo Azul
Cadernos de Virgínia

Autora: Virgínia Andrade
Salvador: P555 Edições, 2007
288 páginas com ilustrações de autoria de Virgínia.
ISBN: 978-8589655-24-8
Literatura Brasileira – Poesia

www.p555.com.br



No dia 9 de abril de 2007 foi o lançamento do livro de poemas e ilustrações pictóricas da poetisa Virgínia Andrade, na Biblioteca Central Reitor Macedo Costa, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Uma obra póstuma dada a conhecer ao público nesta data. A autora faleceu aos 30 anos de idade em 18 de maio de 1984. Desde cedo revelou pendor para a pintura, para a música e para a literatura, havendo escrito uma série de crônicas aos 13 anos, que ainda são inéditas. Um dos seus quadros, O Mendigo, integrou a exposição Artistas Bahianos da Nova Geração, como parte da programação do Museu de Arte Moderna da Bahia, em 1970.
Médica pós-graduada em Imunopatologia com cursos de aperfeiçoamento em Imunologia em Lousane, Suíça e no Instituto de Medicina Tropical Príncipe Leopoldo em Antuérpia, na Bélgica; tornou-se posteriormente professora assistente da Faculdade de Medicina da UFBA. A maioria dos seus poemas foi escrita no período de 1981 a 1983, tendo sido resgatados para constituírem este seu primeiro e único livro de poemas.


Estas informações acima as compilei da apresentação do memorável livro Casulo Azul, que me chegou às mãos pela generosidade do seu pai, o insigne professor e pesquisador brasileiro Zilton Andrade, cujo exemplo de ser humano, de cidadão e de homem de ciência transcende o nosso país. Por ele guardo a maior admiração e respeito.
O livro é um primor editorial e contém belas ilustrações. Quem o apresenta não poderia ser mais íntima do universo da autora, trata-se da não menos importante e digna professora, pesquisadora e patologista Dra. Sônia Andrade. No texto Sônia Andrade toma a si, certamente mais um corajoso e pungente ofício de sua trajetória, fazendo-o de uma forma própria, serena e com uma maturidade invejáveis. ─ Não. Não entregarei a outros a tarefa de apresentar os poemas de Virgínia, porque estes transcendem ao seu próprio conteúdo e refletem a alma apaixonada de minha filha. E adiante prossegue: Não se trata de assumir o papel de mãe que preserva sua própria filha perante o mundo, enclausurando em elogios a essência do seu ser.
Se houver alguém que desmereça as apresentações e prefácios de livros, perceberá que neste é parte indissociável da obra. Dimensiona-a no espaço e tempo sem vernizes ou arranhões, com a autoridade da mãe que se desejaria fosse sua, nas mesmas circunstâncias.

Li e reli o Casulo Azul que denso me chegara às mãos pelo correio.
Visitei as reproduções de guache, aquarela. Encantei-me com a alma da autora e com a palavra tão bem acumpliciada com o sentimento.
Estes poemas e reproduções vieram à luz depurados pelo tempo, pela coragem, e com o carinho de pessoas fortes e significativamente belas.
Bastaria isto para que os lesse e folheasse com a volúpia de quem tem nas mãos um tesouro.
Qual nada! Muito mais que um tesouro encontrava-se diante dos meus olhos e às minhas mãos. Deparei-me com pérolas preciosas. Devorei-as e calmamente retornei a sorvê-las homeopaticamente.

Existiram lendas na antiguidade sobre o nascimento das pérolas. Atribui-se aos romanos a crença lendária de que estas resultavam das lágrimas das ninfas e era Vênus a consagrada, por ter nascido nos mares. Os hebreus as relacionavam às lágrimas condensadas de Adão e Eva. E uma fábula oriental, por sua vez, afirmava ser a pérola o fruto do casamento da ostra com o orvalho.
Os mitos precedem a realidade. Hoje sabemos que a pérola inicia-se de uma secreção endurecida que o molusco (a ostra) deposita ao redor de uma partícula irritante que não consegue eliminar.
Se estas não são as lágrimas dos mitos, são produtos da sensibilidade e da dor ─ são metáforas das lágrimas.
Disto é feita a poesia, a pintura e a maioria das artes decorrentes de um sentir humano especial.
A obra poética de Virgínia não é um livro de tristezas por ser póstumo, mas antes um livro de mergulho na alma humana. Não se confunda a dor do sentimento com as lamentações e prantos dos aflitos. O contido neste livro encerra amor, coragem, recomposição, alegria, suavidade, ternura, paixão, carinho, esperança, elaborações e caminhos frequentados pela alma humana. Como erigido no arcabouço humano, claro que não poderia deixar de conter melancolia, tristeza, ensimesmamento.
A nossa cultura tem passo a passo se desumanizado por resistir a falar de sentimentos que são inerentes ao homem. Ao contrário do que se imagina, isto nos torna cada vez mais despreparados para conviver com as vicissitudes.
Sendo a pérola considerada o mais antigo símbolo de perfeição, me consinto fazer analogia com esta obra, que é fruto da genuinidade do sentimento, que é casulo em sendo essencialmente pérola.
No início da leitura deparei-me com um lindo poema de dedicatória intitulado: Só para Isadora, única filha da autora, detentora dos direitos autorais da obra.

Não lhe ensinaremos
aquelas lições
que o tempo ruiu,
de que o homem riu
e que o rato roeu.

Não lhe mostraremos
o caminho
que a terra afogou
que o mapa traiu
onde o homem morreu.

Não lhe traremos
cartilha
com alfabeto ga
gue na
j d
o uma trilha
cívica.
Será atrevimento seu
ir ao jardim de infância
com uniforme azul.
Bahia/78



Este e os subseqüentes poemas, me envolveram em encantamento, confirmaram estar diante de uma especial artesã da palavra, da sutil e rica metáfora, do sentimento genuino. Afloram ora a dor sem ressaibos de amargura, ora a desesperança sem ressentimentos. Contudo nos seus versos há muito mais a ser aurido por quem os aprecia.
Seguem alguns trechos pinçados daqui e dacolá para que se tenha uma impressão desta importante contribuição poética.

[Limites] Limites não imponho nem exerço. / Os meus deixa que resolvo, /São de casa...... As fronteiras namoro, desdenhosa,/Estão verdes./ Como as uvas de tão raras,/ Me dão sede.
[Peito aberto] Gosto de ser secreta. /Por isso deposito sentimentos em plena rua./Solene ante o ato consumado/ Pecados postos à visitação pública/ Aprende-se nas vitrines avenidas/Que disfarce não há melhor que a verdade./ Por isso, de tão tímida,/ atiro pela janela que se abre/Para as tantas distâncias de outros mundos,/ O peito aberto.
[Restos de Dia] ....... Fecham-se distâncias sobre a ilha deserta/ Que já foi fácil.../Difícil acalentar pedaços.
[Metamorfoses] Mutante no mútuo contacto/ Sempre quero passar-me a limpo/ Perdida em metamorfoses/ Deste constante mimetismo.
[Queria] Queria varandas/Guirlandas de flores/ E bandeirolas.
[Coração]......Como faria/Coração cicatriz/Pra sofrer sem um ai/ No ritmo de quem vai/ Tentar ser feliz.
[Em dó maior] Tantos são os motivos para chorar/ Que podíamos inundar os caminhos/ E beber rios de lágrimas/ No café da manhã.........Mas tantos, são os motivos para lutar, / Que é preciso beber/ Em todos os lados da moeda/ E ousar não transformar/ Toda energia em água/ Esvaindo-se de dor. .........
Considero O Casulo Azul ─ Cadernos de Virgínia ─ uma obra atemporal e madura.
Um livro que com certeza se inscreverá, em quem tiver o privilégio de lê-la, como o alimento dorido da boa lavra, da inteligência e sensibilidade de uma mulher de diáfana beleza, que se eternizou.
O seu conteúdo denso e luzidio conduz-nos à reflexão e nos adiciona sentimento em cada página. Saí mais enriquecido de sua leitura. É deleite para a alma de quem ama os misteriosos caminhos do viver. É enlevo.
Waldir Pedrosa Amorim

Terra: pátria de H.D. Thoreau e Joaquim Cardozo

por Maria da Paz Ribeiro Dantas*

À medida que eu avançava na leitura, Caminhando, de Henri David Thoreau me mostrava vários pontos de afinidade com a poesia e episódios importantes da vida de Joaquim Cardozo. Alguns deles: o encanto pela natureza selvagem; a atração pela solidão; a responsabilidade de arrimo de família devido à morte do pai; a lida com a terra no trabalho de medir ou topografar (que ambos fizeram em determinados períodos de suas vidas).
É verdade que se pode ver nesses detalhes simples coincidências externas; mas, que chamam atenção as analogias, isso é inegável. A ponto de sugerirem um rota comum – paralela ? – convergindo para um plano (ou espaço ?) que certamente não é o imediato em que nos movemos. E qual seria esse plano/espaço ? Conjecturas não fazem mal, portanto aqui vai uma: o Clube Transcendental(1), um espaço para se aprofundar existencialmente o Transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson - autor de Natureza - e que, em 1835, se tornou grande amigo de Thoreau. Falta agora unir as pontas: onde entra Joaquim Cardozo nessa história: Bem, uma coisa é estarmos no plano do pragmático, das evidências.Aí, não tem nada a ver. As pontas começam a se entrelaçar quando avançamos um pouco além delas, guiados pela intuição. E adentramos o reino onde “Os Transcendentalistas buscavam a realidade espiritual além das aparências, acreditavam que o homem e o universo eram Deus, e numa vida de harmonia espiritual com as grandes leis da natureza. (...) O desdobramento prático do Clube Transcendental foi o Brooke Farm Institute, fundado em 1841 e que teve considerável sucesso até 1847 – um grupo de homens e mulheres que viveram comunitariamente compartilhando trabalhos manuais e investigações intelectuais.”(2)
O que me impressiona e até me dá uma certa inveja é o clima de companheirismo que envolve o grupo, dando-lhe coesão em torno de um ideal comum, transcendendo, assim, a mera busca de promoção pessoal. Por aí se tem uma linha de convergência com o que Joaquim Cardozo relata ao se referir ao trabalho em equipe, na redação da Revista do Norte e do grupo que a compunha; ao qual não faltava o aspecto comunitário, composto também de lazer, com suas excursões ecológicas e seus passeios pelas cidades vizinhas como Goiana, Itamaracá, Igarassu, guiados por uma motivação que juntava lazer e o conhecimento das peculiaridades naturais e culturais da região; a começar do barroco das igrejas. A propósito, Cardozo via naquele grupo uma afinidade com os poetas franceses que viviam comunitariamente em Créteil, Paris – o Abbaye –daí o nome Abbaye de Créteil. Entre outras atividades, o grupo confeccionava artesanalmente os seus livros.
É verdade que Joaquim Cardozo não chegou a ser um andarilho, no sentido pleno da palavra – ao menos nos moldes preconizados por Thoreau quando falou de sua concepção a respeito do que para ele significava caminhar: “Só conheci uma ou duas pessoas no curso de minha vida que entenderam a arte de caminhar, isto é, fazer caminhadas – que possuíam um gênio, por assim dizer, para flanar, para sauntering: palavra que é belamente derivada de pessoas errantes que vagavam pelo país, na Idade Média, e pediam caridade, a pretexto de irem à la Sainte Terre, à Terra Santa, até as crianças exclamarem: “Lá vai um Saint-Terrer”, um santerreador. (...) Alguns porém, derivariam a palavra de sans terre, sem terra ou sem lar, o que, portanto, no bom sentido, significará sem nenhuma terra, sem lar, mas igualmente em casa onde quer que seja. Pois este é o segredo de santerrear com sucesso. Aquele que fica sentado em casa o tempo todo pode ser o mais errante de todos; mas o santerreador, no bom sentido, não é mais errante do que o rio que segue seus meandros enquanto vai diligentemente buscando o caminho mais curto para o mar. (..) Cada caminhada é uma espécie de cruzada pregada por algum Pedro-o-eremita dentro de nós, para seguirmos em frente e reconquistarmos esta terra das mãos dos Infiéis” (p. 68).
Certo, Joaquim não era fundamentalista a esse ponto (vá lá o termo, já que se trata de um caso de postura radical...). Talvez o fosse se tivesse que optar entre a Terra planeta em seu estado natural e a versão geopolítica na forma como hoje é administrado o mundo.Podemos, aliás, refletir sobre isso tomando como referência o Canto da Serra dos Órgãos (poema III, do Trivium, 1970), onde se encontra uma meditação que vale também como profecia e julgamento:

Da vida natural se desfazendo
Se tornarão bonecos, robôs, títeres, fantoches...
E muito antes que a Terra deles prescinda,
Que a terra recuse suas presenças,
Os homens estarão mortos suicidas; (fragmento)

* Autora dos livros O mito e a ciência na poesia de Joaquim Cardozo (José Olympio, 1985); Joaquim Cardozo ensaio biográfico (Fundação de Cultura Cidade do Recife, Prêmio Jordão Emerenciano 1984); Joaquim Cardozo contemporâneo do futuro. Ensol Editora, 2003).
Editora do site www.joaquimcardozo.com

Leia o texto integral em:
http://www.interpoetica.com/terra_patria.htm

O texto teatral de Joaquim Cardozo: chão cósmico de singulares transfigurações

por João Denys*

O Teatro de Cardozo situa-se singularmente no imaginário estético brasileiro. O conjunto de seus textos teatrais é diferente da produção dramatúrgica do e sobre o Nordeste porque é um teatro da morte, assim como o é toda a sua poesia. Não a morte destruidora da vida e das idéias; não a morte apartada da vida (contra essa ele vai lutar até a morte), mas a morte inserida na vida e propiciadora de vida.
O Poeta-matemático nos provoca porque não faz distinção entre ciência exata e poesia. A paixão que ele nutre pela arte oriental será determinante em sua produção poético-dramatúrgica. Seu teatro de sombras e luzes é povoado de duplos, personagens-morte que caminham em regiões não apenas determinadas pela paisagem seca e hostil, mas pelas contingências históricas, econômicas e sociais.
O tipo de apropriação da matéria popular e suas manifestações; o modo como Cardozo as transfigura não seria análogo a uma operação geométrica? Operação esta que toma a matéria e a retorce, coloca-a pelo avesso, demonstrando que uma forma contém muitas formas e que muitas delas contêm apenas o vazio. É no vazio contido nessas formas que se encontra sua utilidade. Não é este um dos tópicos do livro da sabedoria taoista? O Tao-Te King também povoa as peças de Cardozo: às vezes, subterraneamente, em eternos seres caminhantes, desterrados; outras vezes, explicitamente, em caracteres chineses projetados na cena e em sua tradução vocal, amplificada eletronicamente. Esses elementos, sumariamente levantados, somados às influências que acolheu de tradições teatrais antigas ou modernas, e aos experimentos poéticos-teatrais dos expressionistas August Stramm, Lothar Schreyer e Rudolf Blümners, formaram um autor muito particular entre as singularidades dos autores nordestinos.
Diante da alteridade, vamos retirar Cardozo da Escola do Recife e colocá-lo na escola do mundo, sem delimitações de fronteiras entre Ocidente e Oriente, mas com um ponto referencial: o chão donde brota sua arte. Não há como emoldurar o seu teatro numa ótica aristotélica ocidental. Suas peças são filhas da dança, da música e da poesia como qualquer gênese teatral sobre a face da terra. Sua busca de um teatro absoluto aponta um caminho possível para um teatro brasileiro em sintonia com o teatro oriental, com o teatro de encenadores como Eugenio Barba, Jerzy Grotowski, Peter Brook e Ariane Mnouchkine.
Um teatro que busca nas manifestações espetaculares dos povos a matéria prima para a criação e a expressão, mantendo uma posição extremamente crítica para com o poder das instituições capitalistas, desvelando com sua poesia as intrincadas, ambíguas e contraditórias relações socioculturais.
O Bumba-Meu-Boi é uma dessas manifestações espetaculares escolhidas pelo poeta para alimentar três de suas obras. Essa escolha não se deve a questões regionalistas nem tampouco a um tipo de resgate folclórico. Até porque o Nordeste não é proprietário desse gênero de teatro popular. O Boi se manifestou e se manifesta em todo o Brasil, não é típico de uma região e possui características próprias de acordo com o chão onde germina. Suas raízes mais remotas estão fincadas em diversas partes do Globo. Basta recordar as pesquisas de Luis da Câmara Cascudo (1) (1984, p. 421-433) a garimpar as manifestações do Boi em todos os pontos cardeais, muito embora conclua que Boi dançado é, por direito, exclusivo do Brasil..............................

* João Denys de Araújo é design, dramaturgo, encenador, professor, escritor, pesquisador e diretor de teatro.

Leia o texto integral em:
http://www.interpoetica.com/o_texto_teatral_de_joaquim_cardozo.htm

Joaquim Cardozo terras e águas para as raízes

por Maria da Paz Ribeiro Dantas*

Não é possível, em poucas linhas, dizer tudo o que o Nordeste representa na obra de Joaquim Cardozo... nem o que ele representa para o Nordeste.
Para dizer da presença do Recife na poesia de Joaquim Cardozo, só invocando a sua voz poética.Ela se faz ouvir ora em textos de prosa ora em versos. Na prosa, temos um exemplo neste texto A cidade do Recife, do qual escolhi os parágrafos iniciais:
"A Cidade do Recife nasceu sobre terras por três rios trazidos de muito longe: o Beberibe, o Capibaribe e o Ibura. Construiu este solo de argila cinzenta, untuosa e macia, constitui toda uma longa várzea – uma veiga – como diria Garcia Lorca, falando da sua “veiga grandina”; uma várzea e vastos céus abertos à luz meridiana e tropical, onde, pelo verão, grandes nuvens, como montanhas de neve, brilham ao sol; onde os “ferreiros”, com gravetos, compõem a arquitetura dos seus ninhos nos ramos das cajazeiras, e, entre velhas cercas, ou em touceiras, na mesma época, florescem os espinheiros brancos e amarelos.
Dos três rios o mais amigo da cidade é o Capibaribe, pois traça, por todo o chão do Recife, um grande signo, um grande S em linhas sinuosas e caprichosas; as suas águas penetram na cidade pelas terras do antigo Engenho da Torre, cujo telhado, dizem, ainda hoje cobre uma olaria; dirigem-se, depois, para o Sul, percorrendo todo o bairro da Madalena, onde, em tempos já muito antigos, ricos proprietários edificaram as suas residências, com as fachadas sobre elas.
O viajante que chega ao Recife por mar não sabe que está sobre as águas desses três rios, não sabe que o seu navio flutua sobre três águas longínquas; o viajante que chega ao Recife pelo ar desce no Aeroporto dos Guararapes, construído em terras do Engenho Ibura, em terras que em épocas talvez muito remotas foram sedimentadas pelo rio do mesmo nome."
Em versos, este Tarde no Recife passeia a vista sobre a cidade. É uma mirada sobre a urbe de 1925, recortada em cenas de uma tarde qualquer para a montagem de um filme em três tempo, três momentos:
Tarde no Recife.Da ponte Maurício o céu e a cidade.Fachada verde do Café Maxime, Cais do [Abacaxi. Gameleiras.
Tanta gente apressada, tanta mulher bonita;Um camelô gritando: - alerta!Algazarra. Seis horas. Os sinos.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes,Dos longos crepúsculos que assistiram à [passagem dos fidalgos holandeses,Que assistem agora ao movimento das ruas [tumultuosas,Que assistirão mais tarde à passagem dos [aviões para as costas do Pacífico;Recife romântico dos crepúsculos das pontesE da beleza católica do rio.

Leia o texto completo em:
http://www.interpoetica.com/figura_da_vez.htm

15.4.07

W.H.AUDEN

Aos 15 anos, o inglês Wystan Hugh Auden descobriu sua vocação para a poesia. Criado em uma atmosfera mais voltada para as ciências do que para as artes - o pai era médico e a mãe enfermeira -, já no início dos anos 30 era aclamado prematuramente como um dos principais poetas da língua inglesa. Os versos de Auden, nascido em 1907, identificam as mazelas sociais de seu tempo e expressam as imagens de seu mundo interior, repletas de fantasia. Às vezes obscuros, tomados em conjunto seus poemas compõem um universo rico de paisagens e personagens.
Após estudar na Universidade de Oxford, Auden passou um ano em Berlim, na Alemanha, de onde retornou para engajar-se no movimento de esquerda. No início da Segunda Guerra Mundial, mudou-se para os EUA e tornou-se cidadão americano. Em 1967, reuniu todos os seus poemas e publicou-os, em ordem cronológica, sob os títulos Poemas Breves Reunidos 1927-1957 e Poemas Longos Reunidos. Ao morrer, em 1973, o poeta deixou vasta obra, que inclui ensaios, peças de teatro, antologias e traduções.
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FUNERAL BLUES


W.H.Auden


Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.


Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.


He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.



The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.
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BLUES FÚNEBRES


W. H. Auden


Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.



Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.



Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.



É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.



Tradução: Nelson Ascher, Poesia Alheia - 124 poemas traduzidos. Editora Imago - Rio de Janeiro (RJ), 1998, pág. 129.



CANÇÃO

Apoia a tua cabeça adormecida, amor,
Tão humana sobre o meu braço descrente;
O tempo e a febre consomem
A própria beleza das
Pensativas crianças, e o túmulo
Mostra que a criança é efémera:
Mas, nos meus braços, até ao romper do dia
Deixa que a viva criatura jaza
Mortal, culpada, mas que para mim
É toda a beleza.

A alma e o corpo não têm limites:
Para os amantes quando jazem
Sobre o seu permissivo e encantado declive
Num habitual desfalecimento,
Grave é a visão que Vénus envia
De uma sobrenatural compaixão;
Amor universal e esperança;
Entretanto, uma visão abstracta desperta
Entre os glaciares e as rochas
O êxtase carnal do eremita.

A segurança e a fidelidade
Passam ao bater da meia-noite
Como as vibrações de um sino
E aqueles que são elegantes e loucos erguem
O seu pedante e enfadonho apelo:
A mais pequena moeda devida,
Tudo o que as temidas cartas auguram,
Há-de ser pago, mas desta noite
Nem um murmúrio, nem um pensamento,
Nem um beijo nem um olhar se hão-de perder.


A beleza, a meia-noite, a visão que morre;
Que os ventos da madrugada ao soprarem
Suaves em redor da tua cabeça sonhadora
Mostrem um dia de boas-vindas
Que o olhar e o coração palpitante abençoem,
Que achem suficiente o nosso mundo mortal;
Que meios-dias de aridez te encontrem alimentada
Por poderes involuntários,
ue noites de afronta te deixem passar
Vigiada por todos os amores humanos.



Janeiro 1937

W. H. Auden
(1907-1973)
Reino Unido
TRAD.:Jorge Emílio
Rosa Do Mundo
2001 POEMAS PARA O FUTURO
Assírio & Alvim

8.4.07

OSCAR WILDE – A PAIXÃO DE UMA VIDA

Paulo Azevedo Chaves*

“Algo belo é uma alegria para sempre”John Keats


Nascido em Dublin, em 1854, filho de um médico famoso e uma escritora, desde criança Oscar Wilde evidenciou sua vocação literária sempre se cercando de livros e intelectuais. De família rica, teve oportunidade de cursar os melhores colégios e a famosa universidade de Oxford, na Inglaterra.
O espírito rebelde e inconformista, a inteligência brilhante, o humor fino e sarcástico logo fizeram com que sobressaísse entre os jovens de sua geração. Em 1885, casou-se, em Dublin, com Constance, filha de um advogado irlandês de renome.
Sua obra literária, a partir de então, é vasta e diversificada. Ensaios, contos, novelas, peças de teatro construíram uma sólida reputação entre os seus contemporâneos. Em 1891, lançou uma de suas obras mais famosas – O Retrato de Dorian Gray, cujo personagem-título se mantém sempre jovem e belo através das décadas, as marcas da passagem do tempo e de seu espírito depravado e cruel se evidenciando numa pintura que o retratava. O final é tão inesperado quanto trágico: Dorian apunhala a hedionda figura do quadro e, no mesmo instante, morre incorporando as características fisionômicas do modelo retratado, enquanto a figura na pintura readquire a antiga beleza impregnada de inocência.
Já então rumores sobre a sua homossexualidade eram assunto de fofocas constantes nos Salões aristocratas ingleses. Seu envolvimento com o belo Lord Alfred Douglas eram tão notórias que o pai do jovem, o marquês de Queensberry, lhe endereçou uma carta desaforada, proibindo-o de ver o filho. Em resposta, Wilde teve uma atitude inesperada e estúpida: processou o marquês por calúnia e difamação. Mas como tinha culpa no cartório, resolveu desistir do processo. Tarde demais. Provas contundentes de seu relacionamento com Bosie (como tratava na intimidade Alfred Douglas) começaram a aparecer e Wilde foi a julgamento.
Na Inglaterra, a prática homossexual sempre foi muita difundida em todos os estratos da sociedade. Mas o país também era conhecido pelo rigor de suas leis contra o homossexualidade. Diferentemente de outros países europeus, em que só a sedução de menores de idade era punida com rigor, a prática homossexual envolvendo adultos era – e continuou a ser até anos recentes – punida na Inglaterra vitoriana com a pena de reclusão por dois anos com trabalhos forçados. É um paradoxo que só a proverbial hipocrisia inglesa pode explicar: um povo tão dado às relações entre as pessoas do mesmo sexo ser também tão severo na punição daqueles que praticavam “o amor que não ousa dizer o seu nome” (expressão criada pelo próprio Wilde). Assim, no auge da fama, o autor de mais prestígio na Inglaterra de sua época é condenado a dois anos de reclusão em Reading. Em sua sentença, o juiz diz a certa altura: “... É o pior caso que jamais julguei”. A paixão dos ingleses por seu escritor mais famoso e ilustre se transformara em ódio. Seus livros são recolhidos das livrarias, suas comédias são retiradas de cartaz nos melhores teatros londrinos, seu patrimônio é leiloado para pagamento das custas do processo e de seu advogado. Mas em nenhum momento Oscar Wilde se acovardou ou mostrou arrependimento por seus affairs com rapazes ingleses e seu caso de amor com Bosie. Muito pelo contrário: no julgamento fez uma defesa apaixonada do amor entre pessoas do mesmo sexo . Vale à pena ler um trecho: “...O amor que não ousa dizer seu nome neste século é a grande afeição de um homem mais velho por um homem mais jovem, como aquela que houve entre Davi e Jônatas, o amor que Platão tornou a base de sua filosofia, o amor que se pode achar nos sonetos de Michelangelo e Shakespeare. Ele é bonito, é bom, é a mais nobre forma de afeição. Não há nada que não seja natural nele. Ele é intelectual e repetidamente existe entre um homem mais velho e um homem mais novo, quando o mais velho tem o intelecto e o mais jovem tem toda a alegria, a esperança e o brilho da vida à sua frente”.
Entretanto, os inimigos de Oscar Wilde não prevaleceram. Destruíram o homem físico, mas não a perenidade de seu prestígio, de seu valor literário e de sua paixão latu senso. Ele defendeu sempre sua orientação sexual, o seu envolvimento apaixonado pelo Verdadeiro e pelo Belo. Afinal, como escreveu o grande poeta romântico inglês John Keats, “Beleza é verdade, verdade beleza -eis tudo que sabeis na terra e tudo que precisais saber”. É significativo que na prisão de Reading Oscar Wilde tenha escrito talvez suas duas obras mais importantes: o poema Balada do Cárcere de Reading e o pungente e o sofrido De Profundis, uma longa carta escrita ao seu amigo íntimo Lord Alfred Douglas.
Ao sair da prisão, em 1897, Wilde transferiu-se para Paris, adotando o pseudônimo de Sebastian Melmouth, Pobre e abandonado por todos, inclusive por seus dois filhos, que chegaram a trocar de nome para não serem reconhecidos como seus descendentes, o autor do De Profundis morreu, em 1900, de meningite, num quarto de hotel barato na capital francesa. Apenas duas pessoas estavam presentes no enterro: o amigo Robert Boss e Lord Alfred Douglas, pivô de sua tragédia pessoal. Aliás, sobre Bosie deve-se reconhecer e elogiar sua fidelidade ao mentor e amigo íntimo mais velho: além de pagar seu enterro, em 1938 o filho do implacável marquês de Queensberry dá o troco ao pai e publica um livro autobiográfico, balanço de toda a sua vida, com o título sugestivo de Without Apology (Sem Desculpas). Neste livro, ele relembra sem pudor os sentimentos que o uniram a Wilde. E em seu fecho bem que poderia ter citado estes versos do Soneto 29, de William Shakespeare: “Pois teu doce amor relembrado tal riqueza traz/ Que desdenho trocar com reis o meu estado”.

*Paulo Azevedo Chaves (jornalista, poeta e cronista) Casa Branca, Jaboatão dos Guararapes, março/2007

Transcrito de Interpoética http://www.interpoetica.com/oscar_wilde.htm