29.12.06

Circuito Universitário do Conto divulga lista de autores selecionados

Depois de passar por uma comissão de seleção do Clube do Conto da Paraíba, sete textos inéditos do gênero foram escolhidos para compor a primeira publicação do Circuito Universitário do Conto (CUC), promovido pela ADUFPB, através de seu Grupo de Trabalho de Cultura. O anúncio oficial e a apresentação prévia da publicação acontecem na próxima terça-feira (19/12), a partir das 20h, no Parahyba Café.
Foram selecionados os textos “Automóveis e HIV”, de Giovanni Boaes; “A Última Prova Final” e “Nos Lábios da Professora”, de Marcos Antônio Pimentel Pequeno; “As Tantas Cordas do Sonho” e “O Dedo de Deus”, de Joana Belarmino; “Parapeitos Cariocas”, de Virgínia Gualberto; e “A Máquina do Protótipo”, de Eugênia Correia.
“Os trabalhos apresentaram um nível muito bom, com temas diversos. Esse resultado nos dá uma idéia do quanto podemos desenvolver e crescer para outras edições do Circuito”, declarou Ricardo Lucena, idealizador e coordenador do CUC.
Além dos contos selecionados, a publicação contará com uma segunda parte composta por contos de autores convidados. O primeiro volume da coletânea Circuito Universitário do Conto deverá ser lançada oficialmente em fevereiro de 2007.

Apresentação prévia dos selecionados no CUC – 1ª edição
Data: 19/12/2006 (terça-feira)
Local: Parahyba Café
Horário: 20h

CONFIRA A LISTA DOS SELECIONADOS

Eugênia Correia - “A Máquina do Protótipo”
Giovanni Boaes - “Automóveis e HIV”;
Joana Belarmino - “As Tantas Cordas do Sonho” e “O Dedo de Deus”
Marcos Antônio Pimentel Pequeno - “A Última Prova Final” e “Nos Lábios da Professora”
Virgínia Gualberto - “Parapeitos Cariocas”

24.12.06

Mensagem Natalina


Partilho com todos o encanto deste poema de Cecília Meireles, desejando sensibilidade, sabedoria e paz no ano vindouro.














Canção Mínima

No mistério do Sem-Fim

equilibra-se um planeta.


E, no planeta um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,


entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.

14.12.06

Antonio Mariano - Poeta

Negativos

A vida
não é água limpa da fonte
nas mãos em concha.

Nem o homem
mamulengo
nas mãos do destino.

O amor
não é somente
arquejos e suspiros
num entardecer cor-de-rosa.

Nem o poeta
dragão de bondade
soltando palavras pelas ventas.

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Evocação de Federico García Lorca
1986 - cinquentenário de sua morte.


A 19 de agosto de 1936
Federico García Lorca gemia:
o corpo domiciliando balas
derramava um sangue não era o seu.

Não era o seu.

Era o sangue dos poetas
que se foram e dos que viriam.

A 19 de agosto de 1936
Federico García Lorca gemia:

as balas despejando um sangue
que, desabrigado,
corria para os seus poemas.

Ai do poema limpinho,
perfumado.
Ai desse pagão poema.
Ai do poema que não feda
a sangue de Federico García Lorca.

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X,Y,N

Comprender o mundo
era uma vez e sempre
de/flagar surpresas.

Me perguntar tantas vezes:
o que se passa comigo?
E a mim mesmo responder:
sei, mas não digo.


in: Guarda-chuvas esquecidos / Antonio Mariano - Rio de Janeiro; Lamparina Editora

Sobre o autor consulte o seu site em http://www.antoniomariano.com

Joaquim Cardozo


Chuva de caju

Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.

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As Alvarengas

"Tous les chemins vont vers la ville” Verhaeren

As alvarengas!
Ei-las que vão e vem; outras paradas,
Imóveis. O ar silêncio. Azul céu, suavemente.
Na tarde sombra o velho cais do Apolo.
O sol das cinco ascende um farol no zimbório
Da Assembléia. As alvarengas!
Madalena. Deus te guie, flor de Zongue.
Negros curvando os dorsos nus
Impelem-nas ligeiras.
Vem de longe, dos campos saqueados.
Onde é tenaz a luta entre o Homem e a Terra.
Trazendo, nos bojos negros.
Para a cidade.
A ignota riqueza que o solo vencido abandona.
O latente rumor das florestas despedaçadas.


A cidade voragem.
É o Moloch, é o abismo, é a caldeira...
Além, pelo ar distante e sobre as casas.
As chaminés fumegam e o vento alonga.
O passo de parafuso.
E lentas.
Vão seguindo, negras, jogando, cansadas;
E seguindo-as também, em curvas n’água propagadas.
A dor da terra, o clamor das raízes.

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Poema

Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence.

Bio-Bibliografia por Maria da Paz R. Dantas

Joaquim Cardozo. Poeta, dramaturgo, engenheiro calculista. Nasceu no Recife em 26 de agosto de 1897 Grande estudioso e conhecedor da matemática, em cujo domínio penetrou com grande sensibilidade poética, inovou os métodos tradicionais do cálculo estrutural. Viabilizou, assim, a execução de obras complexas da arquitetura moderna, como as de Oscar Niemeyer. Calculou, para o arquiteto, as obras do Conjunto Pampulha, em Minas e, em Brasília, o Palácio da Alvorada, a Catedral, a cúpula do Congresso Nacional e o Itamarati, entre outras.Publicou os seguintes livros: Poemas (1947); Pequena antologia pernambucana (1948); Signo Estrelado (1960); Coronel de Macambira (1963); De uma noite de festa (1971); Poesias Completas (1971); Os anjos e os demônios de Deus (1973 );O capataz de Salema, Antonio Conselheiro, Marechal, boi de carro (1975); O interior da matéria (1976); Um livro aceso e nove canções sombrias (1981, póstumo).Faleceu em Olinda em 4 de novembro de 1978.

Acesse o texto integral : http://www.revista.agulha.nom.br/jcardoso.html#bio

Reler Joaquim Cardozo

A Editora Nova Aguilar lança as obras completas do poeta Joaquim Cardozo, organizadas por Everardo Norões

Extraido de Continente Multicultural - Edição Nº72- Dezembro de 2006
http://www.continentemulticultural.com.br/

LITERATURA Por Artur Ataíde e Eduardo Cesar Maia

O crítico literário, ao que parece, é o neurótico por excelência. O passado, para ele, nunca está sepulto, resolvido. Exemplo concreto, entre outros, é o do nosso modernismo na lírica: quando o arranjo de nomes e obras que o constitui está prestes a ser arquivado, alguém resolve perguntar “– E Joaquim Cardozo?”, e vem a nova recaída. Com ela, novas hierarquizações e oposições, novos traços distintivos entre as várias poéticas, podem surgir, modificando o aclaramento mútuo entre as obras, bem como entre elas e a cultura em geral. A obra de Cardozo acolhe várias tendências. Nela é possível rastrear, por exemplo, a inclinação drummondiana para a poesia chã e para a forma quase sempre auto-irônica e reticente de encenar a tristeza, as paixões e outras formas de grandeza; as marcas da infância e da terra natal; a metáfora abstrata de engenheiro; a frase natural em que, inesperadamente, floresce o afeto (como em Bandeira); a aproximação à poesia popular; o surrealismo. O que há de mais inconfundível, no entanto, talvez esteja em poemas como “Arquitetura Nascente & Permanente” e “Aparição da Rosa”, em que aqueles elementos vêm formar um tecido complexo de sensações, matizações afetivas e sonhos, mas sem outro fim que não um “fruto esplêndido e vazio”: o poema pelo poema. Essa espécie impura de orfismo, além de outras experiências, é o que nos aguarda na edição das obras completas a sair em breve. Confira, a seguir, a entrevista do jornalista Eduardo Cesar Maia com Everardo Norões, organizador das Obras Completas de Joaquim Cardozo. Sabe-se que as classificações são formas de simplificar a realidade. Não obstante, como você enquadraria a obra poética de Joaquim Cardozo dentro do contexto modernista brasileiro? Na apresentação que fiz da obra de Joaquim Cardozo, que será publicada pela editora Nova Aguilar, em co-edição com a editora Massangana, mencionei que já no seu primeiro poema, “As Alvarengas”, publicado em 1924, na Revista do Norte, ele já inovara em todos os sentidos, tanto do ponto de vista do tratamento da temática regional, como na utilização de novos recursos formais. A análise desse poema foi feita pelo crítico Fernando Py, que identificou como inovações a utilização da adjetivação dos substantivos e a inversão de categorias gramaticais. De fato, toda a poesia de Joaquim Cardozo deve ser observada como resultante de um contínuo processo de renovação. Ele era um homem aberto não apenas às experiências poéticas, mas a todas as conquistas da inteligência humana. É por isso que o chamei de homem-universo. Joaquim Cardozo pode ser considerado como um de nossos últimos grandes humanistas. Em que nível se deu o contato dele com os expoentes do modernismo literário brasileiro? Em 1923, Joaquim Cardozo esteve no Rio de Janeiro durante cerca de três meses, onde assistiu à primeira exposição do pintor Di Cavalcanti. Não há registro de que tenha tido outros contatos. Depois, regressou ao Recife, reencontrou seu amigo Benedito Monteiro, estabeleceu contato com José Maria de Albuquerque e Melo (da importante Revista do Norte) e com o poeta Ascenso Ferreira, tornou-se assíduo freqüentador da Esquina Lafayette, local predileto da boêmia literária. Permaneceu no Recife até 1939, quando foi expulso durante o governo de Agamenon Magalhães. Mas Pernambuco tinha, de certa forma, seu próprio movimento “modernista”, do qual o próprio Joaquim Cardozo fazia parte, juntamente com intelectuais como Gilberto Freyre, José Maria de Albuquerque Melo, Vicente do Rego Monteiro, Cícero Dias, Ascenso Ferreira e outros. Além disso, Joaquim Cardozo era poliglota (consta que conhecia cerca de 15 línguas) e tinha acesso a revistas e livros estrangeiros, o que lhe permitia acompanhar de perto tudo o que acontecia no mundo em matéria de vanguarda. Na sua opinião, quais seriam os motivos para que a obra de J. Cardozo não esteja nos cânones oficiais brasileiros Joaquim Cardozo nunca cuidou da divulgação de sua obra poética, nem de seus trabalhos de engenheiro calculista, que não foram poucos. Quase todos os seus livros foram editados por iniciativa de terceiros. Também na arquitetura brasileira, apesar de ser bem considerado entre seus pares, o nome dele é relativamente pouco lembrado. Ora, a arquitetura moderna brasileira certamente teria dado um passo bem menor, se não tivesse contado com a genialidade de Joaquim Cardozo. No entanto, quem visita o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, observa que seu nome é pouco citado nos créditos. Para pessoas como ele, o reconhecimento nunca é imediato. Além disso, obras de vanguarda, como as obras de autoria de Joaquim Cardozo, na poesia como na matemática, às vezes precisam de tempo para serem assimiladas pelas novas gerações. Como Cardozo concebia a relação entre poesia e matemática? Era dessa relação que derivava seu rigor poético? O rigor característico da matemática está presente em toda a obra de Joaquim Cardozo. A relação entre a Física e a Poesia é um dos aspectos de seu longo poema “Trivium”. A ligação entre sua Poesia e a Matemática provavelmente ainda será objeto de pesquisas mais profundas. Para que isso aconteça, seria oportuno reunir a biblioteca de Joaquim Cardozo, que ele, em vida, doou à Universidade Federal de Pernambuco, cujos livros estão hoje dispersos entre as bibliotecas dos vários departamentos da Universidade. É importante essa reunião para a compreensão do conhecimento de Joaquim Cardozo, porque em sua obra é impossível dissociar Matemática, Poesia, Filosofia, Teatro ou Lingüística. Joaquim Cardozo publicou um único conto, “Brassásvola”. Qual o valor dessa pequena obra e de que forma ela se relaciona com o resto da sua produção artística? “Brassávola” foi seu único conto publicado. Mas foi possível reunir 12 contos escritos por Joaquim Cardozo. Existe uma relação entre o conto “Brassávola”, e os outros contos de Joaquim Cardozo, com a sua poesia. É o que considero a conjugação do onírico e do real numa equação poética perfeita, que é uma das características fundamentais de sua obra. Por exemplo, o “trem”, personagem central de seu “longo e lento poema sobre o destino e situação espiritual da espécie humana”, como escreveu Maria da Paz Ribeiro Dantas sobre “Trivium”, é o mesmo trem da narrativa “Na Estação”. A leitura de suas narrativas ajuda a compreender o sentido de sua poesia. Em Joaquim Cardozo tudo se completa. A relação entre Cardozo e Oscar Niemeyer foi descrita pelo jurista Evandro Lins e Silva como uma simbiose perfeita, “um encontro entre o Rio Negro e o Solimões”. Quais foram os frutos desse encontro? Os maiores frutos do encontro entre Niemeyer e Joaquim Cardozo são o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, e Brasília. Joaquim Cardozo considerava Pampulha o segundo grande movimento da arquitetura moderna brasileira. De fato, é a partir do êxito do projeto de Pampulha que a equipe de Niemeyer foi solicitada, pelo então presidente Juscelino, a conceber Brasília. No entanto, antes de conhecer Niemeyer, Joaquim Cardozo já havia participado do primeiro movimento da arquitetura moderna no Brasil, na década de 30, ocorrido em Pernambuco. Esse movimento tinha à frente o arquiteto Luís Nunes e dele também fazia parte Burle-Marx, que projetou quase todos os grandes jardins do Recife. Joaquim Cardozo esteve presente em todas as etapas importantes da arquitetura moderna do Brasil. Qual a participação de Joaquim Cardozo no projeto de Brasília Entre os projetos mais complexos que calculou podem ser citados os edifícios do Congresso e da Catedral de Brasília. O ensaio do professor e arquiteto pernambucano Geraldo Santana, intitulado Presença de Joaquim Cardozo na Arquitetura Brasileira, inserido na fortuna crítica da obra de Joaquim Cardozo, que será brevemente lançada, é uma brilhante exposição sobre a importância de sua participação na construção de Brasília e em outros projetos importantes. Como Cardozo lidou com o episódio do desabamento no Pavilhão da Gameleira (do qual foi calculista) que matou muitos operários, em fevereiro de 1971, em Minas Gerais? Sobre o episódio da Gameleira, o depoimento mais comovente sobre Joaquim Cardozo é o de Evandro Lins e Silva, que foi seu advogado no processo e era um dos juristas mais brilhantes do Brasil. Ele escreveu que o destino o unira a Joaquim Cardozo numa hora de ansiedade, tormentos e aflições. Joaquim Cardozo, segundo ele, era homem sem malícia, frágil, que não estava preparado para enfrentar “a perfídia e a astúcia de adversários sem escrúpulos, nos embates desgastantes de um procedimento legal”. O episódio da Gameleira foi, sem dúvida, o início do fim do grande poeta. Paradoxalmente, concorreu, também, para formar em torno de Joaquim Cardozo e de sua obra uma espécie de corrente que acabou por tornar ainda mais vivo o seu legado de homem-universo: corrente da qual fizeram parte Pelópidas Silveira, Paulo Cardozo, Geraldo Santana, Audálio Alves, Paulo Bruscky, Maria da Paz Ribeiro Dantas, Maria do Carmo Pontes Lyra, José Mário Rodrigues, César Leal, João Denys Araújo Leite e Fernando Py, entre outros. (Leia a entrevista na íntegra, na edição nº 72 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas)


Artur Ataíde e Eduardo Cesar Maia são jornalistas.