16.7.06

UMA CONVERSA DE JARDIM

Uma crônica de Waldir Pedrosa Amorim

Se há algo que aprecio muito são as plantas, não importam quais. Frutíferas, ornamentais, gramíneas, avencas, hortaliças, cactos e até mesmo o verde musgo que atapeta os locais úmidos e com pouco sol.
De quem herdei este gosto? Penso que da minha mãe que cultivou por algum tempo cactos exóticos. Mais tarde, um filho meu descobriu que ela possuía o dom de recuperar plantas dadas por desenganadas, de tão mirradas que se encontravam. Passamos a deixar para recuperação com ela nossas depauperadas plantinhas com folhas amareladas e à beira da morte. Tornavam-se robustos vegetais alegres e sorridentes. Ela costumava falar que conversava com as plantas, duvidávamos, até que um dia passei a entender conversar como mais um modo de afeição.
Por onde passei e morei, conduzi comigo mudas do meu jardim da infância. Possuí plantas carnívoras, tive prazer em ver crescer o coentro oloroso em leirões, aguardei com paciência os tubérculos como a batata-doce, a macaxeira e o inhame, cultivei rosas e outras flores. Teimo em aprender algo mais com as orquídeas.
As bananeiras foram meus parceiros de guerra na infância, em quem fincávamos uma faca sobre o corpo macio. Os mamoeiros, com seus pecíolos longos e ocos me produziram efêmeras flautas e encanações para cidades de areia e devaneio.
Não imaginem que eu tenha sido criado em sítios, chácaras, fazendas ou engenhos. Apenas tive o ludismo do contato com a terra e a natureza nos quintais. Onde hoje me serve como local de trabalho, plantei um jardim na frente e outro nos fundos. Quem sabe, cuidador de gente e plantas se assemelhem, em sendo jardineiros?
O apuro de observar a necessidade da atenção, da poda, da adubação e das escoras que percorrem o caminho onde a vida tem início, meio e fim.
Hoje, numa conversa no jardim com um agrônomo de ascendência oriental, me impressionaram algumas reflexões.
Um dado número de plantas disputando a terra representa bocas carecendo de nutrientes.
O vegetal é mais propenso às doenças quando desnutrido.
Os bambus brotam à distância, necessitando a proteção de um vaso que contenha seus rizomas.
Uma espécie de bambu chinês se comporta como pessoas caladas, passam até sete anos em silencio e brotam repentinamente quando menos se espera.
Eu havia lido que os bambus mais delgados são curtos, os bambus mais largos são compridos, e ficam eretos, balançando-se suavemente quando o vento sopra sobre eles, o som provocado pelo roçar dos caniços lembra gemidos e vozes humanas.
Não cantariam as plantas?
Recordo T.S.Elliot em Four Quartets:

“Música tão profundamente escutada que
Já não a escutamos, posto que nós mesmos
somos música...”

Waldir Pedrosa Amorim

8.7.06

O Romance Memória do Fogo de Ronaldo Monte já nas Livrarias.


Primeira Mão Ronaldo Monte:

'Memória do fogo'


"Memória do fogo" (Objetiva, 128 páginas, R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o
terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou "O vôo da guará
vermelha", de Maria Valéria Rezende, e "Voláteis", de Paulo Scott. A coleção
pretende, nas palavras escolhidas pela editora, "buscar a qualidade
literária fora do eixo Rio/São Paulo".
O ponto de partida é lá um tanto questionável: as idéias de centro e periferia andam embaralhadas pela internet, e a velha convicção de que existe um mundão de talento inexplorado fora do "eixo" anda cada vez mais parecida com um mito. Mesmo assim o
resultado da coleção tem sido mais que animador.
"Memória do fogo" não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Vale a pena embarcar na viagem porque Ronaldo Monte, nascido em 1947, psicanalista alagoano radicado em João Pessoa, tem voz própria e um admirável domínio da linguagem. Qualidades incomuns dentro ou fora dos eixos.
Foi então que viu pela primeira vez o que nunca queria ter visto. Via as pessoas por dentro. Não as suas carnes, não as suas tripas, não seus esqueletos, nem o azul das veias carregadas do vermelho de seu sangue. Via o que não sabia dizer. Não era bem uma luz, nem parecia uma cor, lembrava a visão de um som, o granulado de um cheiro. Era mais uma impressão, como se a
marca da alma do outro fizesse uma marca na sua própria alma. E esse não saber dizer era o que mais o agoniava. O povo fez uma roda em volta dele. Todo mundo parava para ver o menino de
olhos arregalados, olhando assustado para cada rosto, com o que via por trás de cada rosto. Que é que está vendo, menino, me olhando desse jeito? Estou vendo uma mancha escura no lugar do seu coração. A senhora deve ter muita raiva de alguém. Deve ser de algum homem que lhe deixou. O povo começou a rir. Todo mundo sabia que aquela mulher tinha sido deixada há muito tempo por um noivo que foi embora com outra. A mulher teve raiva e saiu apressada, amaldiçoando o menino. O menino é adivinho, o menino é adivinho, a notícia se espalhou de ponta a ponta da rua. A roda aumentou, o círculo em volta dele ficou mais apertado. Sua respiração foi ficando mais difícil. Para não morrer sufocado, começou a olhar para cada pessoa e a dizer, com a voz engrolada, não mais o que via, e sim o que sentia na cara e no corpo dos outros. O senhor roubou seu irmão, esse aqui deu na cara da mãe, essa aqui se perdeu com o patrão, esse outro não pensa em mulher, essa outra matou um anjinho... E as pessoas adivinhadas saíam correndo e dizendo nomes feios com o menino. As pessoas desconfiadas do que poderiam ouvir cuidaram de sair dali antes que a verdade de dentro lhes fosse atirada na cara, na frente dos outros.

texto de Sérgio Rodrigues publicado no site: http://todoprosa.nominimo.com.br

O lançamento do livro em João Pessoa será no dia 21 de julho no Espaço Cultural Zarinha.

A POESIA DE RICARDO ANÍSIO

Crianças

No homem mora a tragédia grega
Desgraças de matizes pardos
Onde o mundo é puro abismo
E a oração é de degredo

O homem matou sua criança
Ao descrer das fadas
Depois saltou dos astros
E descoloriu o arco-íris

No homem hoje habita um símio!

Crianças são pára-raios do caos
Anjos armados de chocolates
Nelas sobrevive a pureza
Estão absolvidas. Até crescerem!

Assim como as flores
Quanto mais viçosas ficarem
Mais ceifadas serão
Em nome do amor!

No homem hoje habita um espinho!

Ricardo Anísio, é jornalista, poeta e crítico musical -

A ARIDEZ DO MEIO DO MUNDO


Naquela pequena cidade no meio do mundo, de características duras como as pedras e o piçarro árido de seu solo, do cacto carnudo e da caatinga menos rude que em outras plagas, a vida da púbere Rosinha florava. Florescia junto aos botões de seus pequenos seios, com a rala penugem do seu púbis e a primeira menstruação que lhe conferia competência de mulher pronta à procriação e ao sexo.
Tez morena, pele aveludada, ancas largas, coxas torneadas, joelhos recobertos pela adiposidade mínima e necessária para encobrir harmoniosamente a ossatura daquela dobradiça, que prosseguia abaixo em pernas simetricamente arredondadas, panturrilhas boleadas com arcos suaves a terminarem em proporcionalidade com os tornozelos, tendo por terminação harmoniosa os pequenos pés.
Estes configuravam algumas características de sua posição social, a começar por diferir dos pés das mulheres abastadas, que mesmo não tendo a formosura e o viço que possuía Rosinha, os tinham tratados com esmero, amaciados pelas pedicuras. Os delas, avessos ao chão, solas finas e bem cuidadas, pés de princesas habituados às pelicas e aos saltos altos. Os da menina-moça eram acostumados à nudez destemida e pisavam sem medo o pó de calcário do chão e a virgindade do solo quente ou frio. Eles tinham a intimidade antiga entre pedregulho e a queratina abundante de suas plantas. Não eram fidalgos comportados em sapatos acolchoados e por isso mesmo, não eram compridos e lânguidos, senão pequenos e espalhados. Roliços e curtos.
Os olhos vivos cor de mel ou de rapadura, viam a vida com alegria e desbravamento. Os cabelos cacheados lembravam o mel escuro, mel de furo, mel de engenho, atingiam a sua cintura que era recortada como um pilão. Ícones esvoaçantes, eram tratados com esmero e lavados com sabão de coco e água de raspa de juá. Jamais haviam sido cortados, desde que sua mãe fizera-a pagar uma promessa por ter sobrevivido de uma pneumonia dupla em idade tenra. Eram eram flâmulas de liberdade, tal e qual o capinzal abanado pelo vento frio das noites de São João.
Bento, jovem esguio como um caniço, mimetizava a vara que aguilhoava os bois usados na tração dos carros dos engenhos e fazendas. Franzino, sem excessos de adiposidade, músculos bem definidos pelo exercício diário na fazenda onde trabalhava, ora cuidando do gado, ora cortando capim, ora limpando os estábulos, ora correndo a cavalo.
Era o homem de confiança do patrão e pau para toda obra. Calmo, voz arrastada e de pouca conversa. Criado desde menino no mesmo povoado de Rosinha, se embeiçou por ela e com ela se casou. Fora amor de arrancar toco nas noites e madrugadas de recém casados. E Rosinha queria Bento todas as horas do dia. Rosinha gostava de ser possuída por Bento, ficar e ser pertencida. Quanto mais, melhor! É bom que dói, ela dizia para Bento.
Rosinha era livre pra posse, enquanto Bento dono tinha. Tinha o dono do seu sono, do seu suor e agonia. Tinha o dono do seu soldo que sustentava Rosinha. E quanto mais se esforçava mais seu patrão lhe exigia. Até mesmo parecia que seu patrão andava com ciúmes de Rosinha. Bento não agüentou a barra e fraquejou com Rosinha. Dormia nas dependências da fazenda várias noites por semana. Voltava pra casa amuado e cabisbaixo e não transava com Rosinha. Bento, dizia ela, depois que você me acostumou eu não consigo viver sem transar com você nem um dia. Eu já estou ficando doida. E Bento nem respondia.
Foram meses jejuando que passaram Bento e Rosinha. E o patrão sem jejum, com apetite voraz, promoveu Bento ao cargo de capataz. E Bento pensava no patrão e mal pensava em Rosinha. Esta confidenciava pras amigas que o que mais gostava na vida era de fazer sexo, mesmo que fosse sem Bento, pensava que gostaria. E um dia se entregou na primeira oportunidade na mesma cama de Bento.
Foram meses de loucura e de medo, daquele sexo proibido. Parecia mesmo que a sina tinha dado a Rosinha a sexualidade fogosa de uma ninfeta com o medo misturado ao gosto, o gosto misturado à necessidade, a necessidade misturada com prazer ou outra coisa sem nome, tal e qual a carência daquele chão seco que rachava quando não chovia.
E veio-lhe a idéia de liberdade, de sentir de novo os pés descalços e os cabelos esvoaçantes como flâmulas ao vento. E a vontade de Bento que não aparecia há quinze dias.
Lavou seus cabelos com água de juá e sabão de coco e aguardou Bento por seis dias. Negou-se aos folguedos da alcova com o forasteiro que a perseguia até ceder-lhe a mais uma noite de fogueira incendiada, quando Bento rebenta casa a dentro e o amante foge lívido pela porta da cozinha. Despida de tudo e vestida de coragem, enfrenta Bento lhe dizendo que estava fazendo o que ele queria que fizesse ao abandoná-la destituída do amor que lhe ensinara a provar pela primeira vez.
Uma peixeira lhe desfigura o corpo e arrebata-lhe a vida que tomba rubra no chão de barro batido. Bento preso e de mãos ensangüentadas e calejosas é no outro dia solto pelo patrão que continua agora mais do que nunca sendo o seu dono. E a aridez prossegue naquela cidade no meio do mundo. Bento foi convencido que Rosinha era apenas uma mulher morredeira e o seu dono alguém a quem ele devia para sempre a sua liberdade.

Waldir Pedrosa Amorim (médico e poeta, publicou: Cantos da Vida de Amar. Poemas e Solilóquios, Amor que Sai do Casulo poemas e O Avesso da Pele. poemas.)

Crônica de Waldir Pedrosa Amorim sobre a Seleção Brasileira

A COLISÃO ASTRAL SUBSTITUI A CONJUNÇÃO ASTRAL


Sempre julguei que não fossem excludentes o trabalho, o profissionalismo, a competência e a ludicidade ao exercê-los, mas mutuamente benéficos e necessários ao exercício de qualquer atividade social. As relações sociais se adaptam a cada dia num cenário competitivo, baseado em méritos e valores individuais. A subespecialidade é enaltecida como modo de intervenção sobre a complexidade dos desafios ditos impossíveis de serem dominados por uma única pessoa. O pensamento é baseado em que o excepcional conhecimento da parte prescinde da noção do todo. Admite-se que o todo é mais eficientemente montado como se fora um enorme puzzle ou quebra-cabeças. Cada peça reconhece apenas o seu espaço.
Tolo engano. Nem mesmo a natureza mineral, vegetal ou cósmica acatam na sua essência esta dinâmica. A natureza humana com maior razão abomina a insípida repetição de só apertar parafusos numa linha de montagem, como já denunciava Chaplin no seu sensacional Tempos Modernos. Expressão dos conteúdos da alma e da natureza humanas, as artes, desde as mais priscas eras nos relembram esta realidade. A essência da harmonia é a dissonância que não se desprende da consonância, do todo. Subespecialidade é necessária nos dias atuais, quando emana do conhecimento amplo.
E onde reside a ludicidade, permitam-me o neologismo? Onde o brincar, ter satisfação, envolvimento, construir vínculos para que o olhar enxergue liames indissociáveis e inexpugnáveis? Onde apreender o que se passa ao redor, até o lugar onde os sentidos alcançam e a alma reivindica? Possuímos uma delicada vaidade e um sentido de prazer que se temperam positivamente e contagiantemente na motivação do fazer. A qualquer gênero da atividade humana isto se aplica.
Quanto demanda a uma orquestra sinfônica arregimentar talentos? E a cada talento, passar por uma formação plural, posteriormente especializada, para se inserir em sucessivos ensaios que atendam a inteireza de uma orquestra tocando?
Quanto ao maestro, este rege com o conhecimento aprofundado de música e de regência. Na orquestra rege pessoas que são músicos e entende delas, como daquela música no seu contexto pleno. Explora ao máximo a percepção mais sutil que o ouvido pode conferir ao seu cérebro. Recebe instantaneamente respostas das memórias (experiências anteriores) e se concentra junto aos demais no seu ofício. Todos se dedicam a uma função final na qual empregaram tempo, vontade, deleite e sacrifício. A cada nova apresentação, necessitam recomeçar um novo tenaz e prazeroso esmero.
Hoje é o dia posterior à derrota da seleção brasileira frente à seleção francesa nas quartas de final da copa do mundo.
O que decepciona muito mais que a derrota não é o fato de termos sido suplantados, pois afinal de contas um dia se perde e outro se ganha em qualquer competição desportiva.
O que nos desola é constatarmos numa terra celeiro de jogadores saídos em sua maioria dos campos de pelada, gente humilde que meritoriamente galga a fama, serem bafejados pelo sopro deformador de estrelas e pela empáfia dos afortunados, esquecendo-se da responsabilidade com o torcedor que contribuiu para projetá-lo. Onde o belo futebol imprevisível ao competidor? Onde o profissionalismo e a posição nos campos podem aniquilar a alma, o conjunto e a dedicação que sempre nos caracterizou? Retrocedemos?
Não, apenas não nos demos conta de que o futebol divertimento, arte, conjunto e profissionalismo não se constrói buscando modificar almas contingencialmente impregnadas pelo individualismo que é filho da incultura, da pobreza e dos interesses midiáticos e empresariais.
Pelos inúmeros campos de pelada e de clubes deste país existem os filhos de uma herdade brasileira de jogadores de futebol com falta de opção na vida. Estes continuam brincando com a bola e sonhando com a Copa. Mas os patrocinadores seduzem os técnicos a escalarem um amontoado de estrelas que não consentem ser denominadas como uma constelação brasileira de futebol. E cada qual se sente especialista em meio palmo de chão com assento cativo em uma posição imune à paixão.
O maestro? O treinador? Ah! Este tem que vir do gosto pelo futebol, pelo saber esportivo, pelo amor à nossa cultura, pela humildade, inteireza e respeito à alegria do seu povo. Antes de tudo, tem que ter independência e sintetizar unidades em totalidades organizadas. Admitem-se os patuás, bruxarias, para serem apenas praticados fechados a sete portas e sete chaves, de boca calada.
Porém, concordo que ainda é cedo para podermos comparar maestros e músicos com jogadores em uma nação ainda pouco exigente com o saber e com a ética. Quem sabe, valha o desabafo, pois o futebol no Brasil ainda toca tão amplamente e ocupa tanto espaço de discussão, horas paralisadas de trabalho, tempo de lazer, momentos de comoção, união e horas na mídia que qualquer outro problema de nossa querida terra, com tanta coisa a construir.

Waldir Pedrosa Amorim
domingo, 2 de julho de 2006.