15.3.06

Uma Bela Crônica de Ronaldo Monte

A outra de mim

Tenho muito medo da mulher. De seus abismos, do seu silêncio. E nem era pra ter. Fui criado por minha mãe e duas tias, com duas irmãs de lambuja. Devia, pois, desde o berço, estar acostumado ao modo de ser feminino. Com suas sombras, com seus segredos. Devia estar, mas não estou. E quanto mais vivo, mais me assombro com seus mistérios, com seus bruxedos.
Tenho mulher e duas filhas, várias sobrinhas, muitas amigas. Minha casa é impregnada pela alma feminina. Passei décadas da minha vida ensinando a classes formadas por grande maioria feminina. Oitenta por cento de minha clientela também é formada por mulheres. Já era tempo, vocês hão de pensar, de não mais me espantar com o feminino. Mas isso, no meu fraco entender, é impossível.
Não depende da idade nem de qualquer atributo físico. A mulher, toda mulher, traz consigo um quinhão de estranheza que resiste a qualquer tentativa de tradução. Inclusive por elas mesmas. É esta face obscura, que nos olha do outro lado da fronteira de um país estrangeiro, que nos lança o desafio permanente da decifração. Com a decorrente ameaça de devoramento, é claro.
Desde menino guardo a imagem dessas alegres esfinges, em cochichos, rabos de olhos, meneios de cabeça, finalizados pela risada cabulosa que me tinha por alvo. Pobres de nós, os meninos, indefesos, encabulados, batendo em retirada para longe daquele exercício incipiente do maldoso mistério a que ficamos a mercê pelo resto da vida.
Com uma porção tão grande de estranheza, dá pra entender porque a mulher é alvo de tanta violência. Poucas pessoas suportam conviver com a diferença. Principalmente com essa diferença radical que o feminino representa.
Eu, que tenho por fardo a obviedade masculina, sou grato àquela que me põe cotidianamente em frente ao seu mistério. Essa outra de mim, que me ensina a conviver com meus abismos, meus mistérios.

Texto: Ronaldo Monte – Poeta e psicanalista
Foto by Dirwal Sadrope

12.3.06

Poder Escrever



Poder escrever, para mim,
é poder dançar, ouvindo a música tocar dentro da alma.
É percorrer os salões da mente e do coração.
É apresentar, nas linhas, o espetáculo da vida,
que se desenrola, ora com calma,
ou em silêncio, até!...
ora com estardalhaço,
ou com fogos de artifício, até!
É tornar visível o sentimento que passeia dentro do ser.
E assim...
poder deixar que se contemple,
que se quase apalpe o que só a alma, o coração, ou mesmo, o corpo encerrava.
É correr o interior dos outros sem sequer tocar em sua corrente sangüínea.
É poder chorar sobre o papel sem molhá-lo.
É colocar o sorriso nas letras, nas palavras que se formam, que se juntam.
É viajar.
É vencer distâncias, matéria e tempo.
É transcorrer o espaço, sem o uso do tele-transporte.
Escrever é flutuar.
É fazer deslizar o corpo, sentindo-se embalado, e quem sabe... inebriado.
É imprimir, nas linhas, o seu nome, o seu jeito, a sua história,
como numa alquimia que, realmente, pode trazer o reluzente ouro.
Escrever é desenhar,
é figurar.
É sorver delicioso vinho.
É fluir.
É poder sair da gaiola,
é voar alto,
é sonhar alto,
é fazer alto.

Texto de: Emília Maria Matias Acioli- João Pessoa – PB.
Publicado com permissão da autora em 12/03/06
Foto by Dirwal Sadrope