29.12.06

Circuito Universitário do Conto divulga lista de autores selecionados

Depois de passar por uma comissão de seleção do Clube do Conto da Paraíba, sete textos inéditos do gênero foram escolhidos para compor a primeira publicação do Circuito Universitário do Conto (CUC), promovido pela ADUFPB, através de seu Grupo de Trabalho de Cultura. O anúncio oficial e a apresentação prévia da publicação acontecem na próxima terça-feira (19/12), a partir das 20h, no Parahyba Café.
Foram selecionados os textos “Automóveis e HIV”, de Giovanni Boaes; “A Última Prova Final” e “Nos Lábios da Professora”, de Marcos Antônio Pimentel Pequeno; “As Tantas Cordas do Sonho” e “O Dedo de Deus”, de Joana Belarmino; “Parapeitos Cariocas”, de Virgínia Gualberto; e “A Máquina do Protótipo”, de Eugênia Correia.
“Os trabalhos apresentaram um nível muito bom, com temas diversos. Esse resultado nos dá uma idéia do quanto podemos desenvolver e crescer para outras edições do Circuito”, declarou Ricardo Lucena, idealizador e coordenador do CUC.
Além dos contos selecionados, a publicação contará com uma segunda parte composta por contos de autores convidados. O primeiro volume da coletânea Circuito Universitário do Conto deverá ser lançada oficialmente em fevereiro de 2007.

Apresentação prévia dos selecionados no CUC – 1ª edição
Data: 19/12/2006 (terça-feira)
Local: Parahyba Café
Horário: 20h

CONFIRA A LISTA DOS SELECIONADOS

Eugênia Correia - “A Máquina do Protótipo”
Giovanni Boaes - “Automóveis e HIV”;
Joana Belarmino - “As Tantas Cordas do Sonho” e “O Dedo de Deus”
Marcos Antônio Pimentel Pequeno - “A Última Prova Final” e “Nos Lábios da Professora”
Virgínia Gualberto - “Parapeitos Cariocas”

24.12.06

Mensagem Natalina


Partilho com todos o encanto deste poema de Cecília Meireles, desejando sensibilidade, sabedoria e paz no ano vindouro.














Canção Mínima

No mistério do Sem-Fim

equilibra-se um planeta.


E, no planeta um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,


entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.

14.12.06

Antonio Mariano - Poeta

Negativos

A vida
não é água limpa da fonte
nas mãos em concha.

Nem o homem
mamulengo
nas mãos do destino.

O amor
não é somente
arquejos e suspiros
num entardecer cor-de-rosa.

Nem o poeta
dragão de bondade
soltando palavras pelas ventas.

________________________

Evocação de Federico García Lorca
1986 - cinquentenário de sua morte.


A 19 de agosto de 1936
Federico García Lorca gemia:
o corpo domiciliando balas
derramava um sangue não era o seu.

Não era o seu.

Era o sangue dos poetas
que se foram e dos que viriam.

A 19 de agosto de 1936
Federico García Lorca gemia:

as balas despejando um sangue
que, desabrigado,
corria para os seus poemas.

Ai do poema limpinho,
perfumado.
Ai desse pagão poema.
Ai do poema que não feda
a sangue de Federico García Lorca.

____________________________

X,Y,N

Comprender o mundo
era uma vez e sempre
de/flagar surpresas.

Me perguntar tantas vezes:
o que se passa comigo?
E a mim mesmo responder:
sei, mas não digo.


in: Guarda-chuvas esquecidos / Antonio Mariano - Rio de Janeiro; Lamparina Editora

Sobre o autor consulte o seu site em http://www.antoniomariano.com

Joaquim Cardozo


Chuva de caju

Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.

___________________________________

As Alvarengas

"Tous les chemins vont vers la ville” Verhaeren

As alvarengas!
Ei-las que vão e vem; outras paradas,
Imóveis. O ar silêncio. Azul céu, suavemente.
Na tarde sombra o velho cais do Apolo.
O sol das cinco ascende um farol no zimbório
Da Assembléia. As alvarengas!
Madalena. Deus te guie, flor de Zongue.
Negros curvando os dorsos nus
Impelem-nas ligeiras.
Vem de longe, dos campos saqueados.
Onde é tenaz a luta entre o Homem e a Terra.
Trazendo, nos bojos negros.
Para a cidade.
A ignota riqueza que o solo vencido abandona.
O latente rumor das florestas despedaçadas.


A cidade voragem.
É o Moloch, é o abismo, é a caldeira...
Além, pelo ar distante e sobre as casas.
As chaminés fumegam e o vento alonga.
O passo de parafuso.
E lentas.
Vão seguindo, negras, jogando, cansadas;
E seguindo-as também, em curvas n’água propagadas.
A dor da terra, o clamor das raízes.

______________________

Poema

Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence.

Bio-Bibliografia por Maria da Paz R. Dantas

Joaquim Cardozo. Poeta, dramaturgo, engenheiro calculista. Nasceu no Recife em 26 de agosto de 1897 Grande estudioso e conhecedor da matemática, em cujo domínio penetrou com grande sensibilidade poética, inovou os métodos tradicionais do cálculo estrutural. Viabilizou, assim, a execução de obras complexas da arquitetura moderna, como as de Oscar Niemeyer. Calculou, para o arquiteto, as obras do Conjunto Pampulha, em Minas e, em Brasília, o Palácio da Alvorada, a Catedral, a cúpula do Congresso Nacional e o Itamarati, entre outras.Publicou os seguintes livros: Poemas (1947); Pequena antologia pernambucana (1948); Signo Estrelado (1960); Coronel de Macambira (1963); De uma noite de festa (1971); Poesias Completas (1971); Os anjos e os demônios de Deus (1973 );O capataz de Salema, Antonio Conselheiro, Marechal, boi de carro (1975); O interior da matéria (1976); Um livro aceso e nove canções sombrias (1981, póstumo).Faleceu em Olinda em 4 de novembro de 1978.

Acesse o texto integral : http://www.revista.agulha.nom.br/jcardoso.html#bio

Reler Joaquim Cardozo

A Editora Nova Aguilar lança as obras completas do poeta Joaquim Cardozo, organizadas por Everardo Norões

Extraido de Continente Multicultural - Edição Nº72- Dezembro de 2006
http://www.continentemulticultural.com.br/

LITERATURA Por Artur Ataíde e Eduardo Cesar Maia

O crítico literário, ao que parece, é o neurótico por excelência. O passado, para ele, nunca está sepulto, resolvido. Exemplo concreto, entre outros, é o do nosso modernismo na lírica: quando o arranjo de nomes e obras que o constitui está prestes a ser arquivado, alguém resolve perguntar “– E Joaquim Cardozo?”, e vem a nova recaída. Com ela, novas hierarquizações e oposições, novos traços distintivos entre as várias poéticas, podem surgir, modificando o aclaramento mútuo entre as obras, bem como entre elas e a cultura em geral. A obra de Cardozo acolhe várias tendências. Nela é possível rastrear, por exemplo, a inclinação drummondiana para a poesia chã e para a forma quase sempre auto-irônica e reticente de encenar a tristeza, as paixões e outras formas de grandeza; as marcas da infância e da terra natal; a metáfora abstrata de engenheiro; a frase natural em que, inesperadamente, floresce o afeto (como em Bandeira); a aproximação à poesia popular; o surrealismo. O que há de mais inconfundível, no entanto, talvez esteja em poemas como “Arquitetura Nascente & Permanente” e “Aparição da Rosa”, em que aqueles elementos vêm formar um tecido complexo de sensações, matizações afetivas e sonhos, mas sem outro fim que não um “fruto esplêndido e vazio”: o poema pelo poema. Essa espécie impura de orfismo, além de outras experiências, é o que nos aguarda na edição das obras completas a sair em breve. Confira, a seguir, a entrevista do jornalista Eduardo Cesar Maia com Everardo Norões, organizador das Obras Completas de Joaquim Cardozo. Sabe-se que as classificações são formas de simplificar a realidade. Não obstante, como você enquadraria a obra poética de Joaquim Cardozo dentro do contexto modernista brasileiro? Na apresentação que fiz da obra de Joaquim Cardozo, que será publicada pela editora Nova Aguilar, em co-edição com a editora Massangana, mencionei que já no seu primeiro poema, “As Alvarengas”, publicado em 1924, na Revista do Norte, ele já inovara em todos os sentidos, tanto do ponto de vista do tratamento da temática regional, como na utilização de novos recursos formais. A análise desse poema foi feita pelo crítico Fernando Py, que identificou como inovações a utilização da adjetivação dos substantivos e a inversão de categorias gramaticais. De fato, toda a poesia de Joaquim Cardozo deve ser observada como resultante de um contínuo processo de renovação. Ele era um homem aberto não apenas às experiências poéticas, mas a todas as conquistas da inteligência humana. É por isso que o chamei de homem-universo. Joaquim Cardozo pode ser considerado como um de nossos últimos grandes humanistas. Em que nível se deu o contato dele com os expoentes do modernismo literário brasileiro? Em 1923, Joaquim Cardozo esteve no Rio de Janeiro durante cerca de três meses, onde assistiu à primeira exposição do pintor Di Cavalcanti. Não há registro de que tenha tido outros contatos. Depois, regressou ao Recife, reencontrou seu amigo Benedito Monteiro, estabeleceu contato com José Maria de Albuquerque e Melo (da importante Revista do Norte) e com o poeta Ascenso Ferreira, tornou-se assíduo freqüentador da Esquina Lafayette, local predileto da boêmia literária. Permaneceu no Recife até 1939, quando foi expulso durante o governo de Agamenon Magalhães. Mas Pernambuco tinha, de certa forma, seu próprio movimento “modernista”, do qual o próprio Joaquim Cardozo fazia parte, juntamente com intelectuais como Gilberto Freyre, José Maria de Albuquerque Melo, Vicente do Rego Monteiro, Cícero Dias, Ascenso Ferreira e outros. Além disso, Joaquim Cardozo era poliglota (consta que conhecia cerca de 15 línguas) e tinha acesso a revistas e livros estrangeiros, o que lhe permitia acompanhar de perto tudo o que acontecia no mundo em matéria de vanguarda. Na sua opinião, quais seriam os motivos para que a obra de J. Cardozo não esteja nos cânones oficiais brasileiros Joaquim Cardozo nunca cuidou da divulgação de sua obra poética, nem de seus trabalhos de engenheiro calculista, que não foram poucos. Quase todos os seus livros foram editados por iniciativa de terceiros. Também na arquitetura brasileira, apesar de ser bem considerado entre seus pares, o nome dele é relativamente pouco lembrado. Ora, a arquitetura moderna brasileira certamente teria dado um passo bem menor, se não tivesse contado com a genialidade de Joaquim Cardozo. No entanto, quem visita o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, observa que seu nome é pouco citado nos créditos. Para pessoas como ele, o reconhecimento nunca é imediato. Além disso, obras de vanguarda, como as obras de autoria de Joaquim Cardozo, na poesia como na matemática, às vezes precisam de tempo para serem assimiladas pelas novas gerações. Como Cardozo concebia a relação entre poesia e matemática? Era dessa relação que derivava seu rigor poético? O rigor característico da matemática está presente em toda a obra de Joaquim Cardozo. A relação entre a Física e a Poesia é um dos aspectos de seu longo poema “Trivium”. A ligação entre sua Poesia e a Matemática provavelmente ainda será objeto de pesquisas mais profundas. Para que isso aconteça, seria oportuno reunir a biblioteca de Joaquim Cardozo, que ele, em vida, doou à Universidade Federal de Pernambuco, cujos livros estão hoje dispersos entre as bibliotecas dos vários departamentos da Universidade. É importante essa reunião para a compreensão do conhecimento de Joaquim Cardozo, porque em sua obra é impossível dissociar Matemática, Poesia, Filosofia, Teatro ou Lingüística. Joaquim Cardozo publicou um único conto, “Brassásvola”. Qual o valor dessa pequena obra e de que forma ela se relaciona com o resto da sua produção artística? “Brassávola” foi seu único conto publicado. Mas foi possível reunir 12 contos escritos por Joaquim Cardozo. Existe uma relação entre o conto “Brassávola”, e os outros contos de Joaquim Cardozo, com a sua poesia. É o que considero a conjugação do onírico e do real numa equação poética perfeita, que é uma das características fundamentais de sua obra. Por exemplo, o “trem”, personagem central de seu “longo e lento poema sobre o destino e situação espiritual da espécie humana”, como escreveu Maria da Paz Ribeiro Dantas sobre “Trivium”, é o mesmo trem da narrativa “Na Estação”. A leitura de suas narrativas ajuda a compreender o sentido de sua poesia. Em Joaquim Cardozo tudo se completa. A relação entre Cardozo e Oscar Niemeyer foi descrita pelo jurista Evandro Lins e Silva como uma simbiose perfeita, “um encontro entre o Rio Negro e o Solimões”. Quais foram os frutos desse encontro? Os maiores frutos do encontro entre Niemeyer e Joaquim Cardozo são o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, e Brasília. Joaquim Cardozo considerava Pampulha o segundo grande movimento da arquitetura moderna brasileira. De fato, é a partir do êxito do projeto de Pampulha que a equipe de Niemeyer foi solicitada, pelo então presidente Juscelino, a conceber Brasília. No entanto, antes de conhecer Niemeyer, Joaquim Cardozo já havia participado do primeiro movimento da arquitetura moderna no Brasil, na década de 30, ocorrido em Pernambuco. Esse movimento tinha à frente o arquiteto Luís Nunes e dele também fazia parte Burle-Marx, que projetou quase todos os grandes jardins do Recife. Joaquim Cardozo esteve presente em todas as etapas importantes da arquitetura moderna do Brasil. Qual a participação de Joaquim Cardozo no projeto de Brasília Entre os projetos mais complexos que calculou podem ser citados os edifícios do Congresso e da Catedral de Brasília. O ensaio do professor e arquiteto pernambucano Geraldo Santana, intitulado Presença de Joaquim Cardozo na Arquitetura Brasileira, inserido na fortuna crítica da obra de Joaquim Cardozo, que será brevemente lançada, é uma brilhante exposição sobre a importância de sua participação na construção de Brasília e em outros projetos importantes. Como Cardozo lidou com o episódio do desabamento no Pavilhão da Gameleira (do qual foi calculista) que matou muitos operários, em fevereiro de 1971, em Minas Gerais? Sobre o episódio da Gameleira, o depoimento mais comovente sobre Joaquim Cardozo é o de Evandro Lins e Silva, que foi seu advogado no processo e era um dos juristas mais brilhantes do Brasil. Ele escreveu que o destino o unira a Joaquim Cardozo numa hora de ansiedade, tormentos e aflições. Joaquim Cardozo, segundo ele, era homem sem malícia, frágil, que não estava preparado para enfrentar “a perfídia e a astúcia de adversários sem escrúpulos, nos embates desgastantes de um procedimento legal”. O episódio da Gameleira foi, sem dúvida, o início do fim do grande poeta. Paradoxalmente, concorreu, também, para formar em torno de Joaquim Cardozo e de sua obra uma espécie de corrente que acabou por tornar ainda mais vivo o seu legado de homem-universo: corrente da qual fizeram parte Pelópidas Silveira, Paulo Cardozo, Geraldo Santana, Audálio Alves, Paulo Bruscky, Maria da Paz Ribeiro Dantas, Maria do Carmo Pontes Lyra, José Mário Rodrigues, César Leal, João Denys Araújo Leite e Fernando Py, entre outros. (Leia a entrevista na íntegra, na edição nº 72 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas)


Artur Ataíde e Eduardo Cesar Maia são jornalistas.

13.10.06

Poemas de Waldir Pedrosa Amorim

POEMA DE ONTEM

Estou triste.
Hoje o ódio do pivete
andrajoso
que encontrei na rua,
junto com o cinismo do político
enfatiotado
que encontrei no jornal,
inscreveram um anti-poema
no meu dia.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele



HOMEM

Mau o homem
quando primitivo
– por feição -
quando civilizado
- por cinismo –

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

PARTICULARIDADE

De sede
ou de afogamento...
morrem os loucos,
os por demais conectados:
escassa água,
ou um oceano.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

DECANTAÇÃO

Decantado,
meu corpo é quarto de arrepios
e se abastece de tédios.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

LUA

Baços olhos ardem.
No efêmero e molhado chão,
há imensidão no espelho: uma lua,
despencando clarão.

Volátil é a vida
volúveis os olhos
Na alma,
volúpia desmedida.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

O POEMA

Não custa repeti-lo
até
desaprendê-lo,
senti-lo.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

RUMINAÇÃO

Mastigo,
as presas que vêm de mim
as certezas
que de mim virão
as proezas
que de mim
se afastarão
e as migalhas
que nunca
ficarão.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

APENAS

Meu corpo,
acostumado a viver,
ousa solicitar
licença
ao jazer.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

DEPRIMIDA

Minha alma, artesã de tristezas
e melancolias
confecciona sazonalmente
o cenário debilitado
onde amargo
a consciência do tempo
em meus lençóis.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

O TEMPO


É lógico
ilógica a eternidade

e nós,
loucos mansos.

Não nos adianta blasfemar
contra a simetria cósmica.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

CONGRUÊNCIA


Os princípios
norteiam
os objetivos

Os objetivos,

como noite e dia
ladeiam
os princípios.

Os princípios,

cíclicos,
se apascentam
de principiarem.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

ACABRUNHADO

Acabrunhado,
desalentava-se na noite
entristecia-se nas alvoradas.
Não era tristeza-tristeza.
Era moléstia medonha,
maior que o propósito, que o impulso.

Não era mudança do querer.
Era desquerer pesado e forte.
Era obliteração do viver.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

DESPENCADO


Pálido,
esquálido,
depauperado.
Dentro de si
ruíam os sóis e as estrelas,
o dia e a noite,
os ventos e as tempestades.
Definhava a volição,
esturricava a alma.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

SINAIS

Não eram manchas,
nem tatuagens eram.
Eram mapas de dor
gravados n’alma.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

INDELÉVEIS

As tatuagens,
não eram cicatrizes.
Eram gravuras,
eram caleidoscópios.

As cicatrizes,
tatuagens não eram.
Eram marcas, ícones,
vestígios de dor

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele

16.7.06

UMA CONVERSA DE JARDIM

Uma crônica de Waldir Pedrosa Amorim

Se há algo que aprecio muito são as plantas, não importam quais. Frutíferas, ornamentais, gramíneas, avencas, hortaliças, cactos e até mesmo o verde musgo que atapeta os locais úmidos e com pouco sol.
De quem herdei este gosto? Penso que da minha mãe que cultivou por algum tempo cactos exóticos. Mais tarde, um filho meu descobriu que ela possuía o dom de recuperar plantas dadas por desenganadas, de tão mirradas que se encontravam. Passamos a deixar para recuperação com ela nossas depauperadas plantinhas com folhas amareladas e à beira da morte. Tornavam-se robustos vegetais alegres e sorridentes. Ela costumava falar que conversava com as plantas, duvidávamos, até que um dia passei a entender conversar como mais um modo de afeição.
Por onde passei e morei, conduzi comigo mudas do meu jardim da infância. Possuí plantas carnívoras, tive prazer em ver crescer o coentro oloroso em leirões, aguardei com paciência os tubérculos como a batata-doce, a macaxeira e o inhame, cultivei rosas e outras flores. Teimo em aprender algo mais com as orquídeas.
As bananeiras foram meus parceiros de guerra na infância, em quem fincávamos uma faca sobre o corpo macio. Os mamoeiros, com seus pecíolos longos e ocos me produziram efêmeras flautas e encanações para cidades de areia e devaneio.
Não imaginem que eu tenha sido criado em sítios, chácaras, fazendas ou engenhos. Apenas tive o ludismo do contato com a terra e a natureza nos quintais. Onde hoje me serve como local de trabalho, plantei um jardim na frente e outro nos fundos. Quem sabe, cuidador de gente e plantas se assemelhem, em sendo jardineiros?
O apuro de observar a necessidade da atenção, da poda, da adubação e das escoras que percorrem o caminho onde a vida tem início, meio e fim.
Hoje, numa conversa no jardim com um agrônomo de ascendência oriental, me impressionaram algumas reflexões.
Um dado número de plantas disputando a terra representa bocas carecendo de nutrientes.
O vegetal é mais propenso às doenças quando desnutrido.
Os bambus brotam à distância, necessitando a proteção de um vaso que contenha seus rizomas.
Uma espécie de bambu chinês se comporta como pessoas caladas, passam até sete anos em silencio e brotam repentinamente quando menos se espera.
Eu havia lido que os bambus mais delgados são curtos, os bambus mais largos são compridos, e ficam eretos, balançando-se suavemente quando o vento sopra sobre eles, o som provocado pelo roçar dos caniços lembra gemidos e vozes humanas.
Não cantariam as plantas?
Recordo T.S.Elliot em Four Quartets:

“Música tão profundamente escutada que
Já não a escutamos, posto que nós mesmos
somos música...”

Waldir Pedrosa Amorim

8.7.06

O Romance Memória do Fogo de Ronaldo Monte já nas Livrarias.


Primeira Mão Ronaldo Monte:

'Memória do fogo'


"Memória do fogo" (Objetiva, 128 páginas, R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o
terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou "O vôo da guará
vermelha", de Maria Valéria Rezende, e "Voláteis", de Paulo Scott. A coleção
pretende, nas palavras escolhidas pela editora, "buscar a qualidade
literária fora do eixo Rio/São Paulo".
O ponto de partida é lá um tanto questionável: as idéias de centro e periferia andam embaralhadas pela internet, e a velha convicção de que existe um mundão de talento inexplorado fora do "eixo" anda cada vez mais parecida com um mito. Mesmo assim o
resultado da coleção tem sido mais que animador.
"Memória do fogo" não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Vale a pena embarcar na viagem porque Ronaldo Monte, nascido em 1947, psicanalista alagoano radicado em João Pessoa, tem voz própria e um admirável domínio da linguagem. Qualidades incomuns dentro ou fora dos eixos.
Foi então que viu pela primeira vez o que nunca queria ter visto. Via as pessoas por dentro. Não as suas carnes, não as suas tripas, não seus esqueletos, nem o azul das veias carregadas do vermelho de seu sangue. Via o que não sabia dizer. Não era bem uma luz, nem parecia uma cor, lembrava a visão de um som, o granulado de um cheiro. Era mais uma impressão, como se a
marca da alma do outro fizesse uma marca na sua própria alma. E esse não saber dizer era o que mais o agoniava. O povo fez uma roda em volta dele. Todo mundo parava para ver o menino de
olhos arregalados, olhando assustado para cada rosto, com o que via por trás de cada rosto. Que é que está vendo, menino, me olhando desse jeito? Estou vendo uma mancha escura no lugar do seu coração. A senhora deve ter muita raiva de alguém. Deve ser de algum homem que lhe deixou. O povo começou a rir. Todo mundo sabia que aquela mulher tinha sido deixada há muito tempo por um noivo que foi embora com outra. A mulher teve raiva e saiu apressada, amaldiçoando o menino. O menino é adivinho, o menino é adivinho, a notícia se espalhou de ponta a ponta da rua. A roda aumentou, o círculo em volta dele ficou mais apertado. Sua respiração foi ficando mais difícil. Para não morrer sufocado, começou a olhar para cada pessoa e a dizer, com a voz engrolada, não mais o que via, e sim o que sentia na cara e no corpo dos outros. O senhor roubou seu irmão, esse aqui deu na cara da mãe, essa aqui se perdeu com o patrão, esse outro não pensa em mulher, essa outra matou um anjinho... E as pessoas adivinhadas saíam correndo e dizendo nomes feios com o menino. As pessoas desconfiadas do que poderiam ouvir cuidaram de sair dali antes que a verdade de dentro lhes fosse atirada na cara, na frente dos outros.

texto de Sérgio Rodrigues publicado no site: http://todoprosa.nominimo.com.br

O lançamento do livro em João Pessoa será no dia 21 de julho no Espaço Cultural Zarinha.

A POESIA DE RICARDO ANÍSIO

Crianças

No homem mora a tragédia grega
Desgraças de matizes pardos
Onde o mundo é puro abismo
E a oração é de degredo

O homem matou sua criança
Ao descrer das fadas
Depois saltou dos astros
E descoloriu o arco-íris

No homem hoje habita um símio!

Crianças são pára-raios do caos
Anjos armados de chocolates
Nelas sobrevive a pureza
Estão absolvidas. Até crescerem!

Assim como as flores
Quanto mais viçosas ficarem
Mais ceifadas serão
Em nome do amor!

No homem hoje habita um espinho!

Ricardo Anísio, é jornalista, poeta e crítico musical -

A ARIDEZ DO MEIO DO MUNDO


Naquela pequena cidade no meio do mundo, de características duras como as pedras e o piçarro árido de seu solo, do cacto carnudo e da caatinga menos rude que em outras plagas, a vida da púbere Rosinha florava. Florescia junto aos botões de seus pequenos seios, com a rala penugem do seu púbis e a primeira menstruação que lhe conferia competência de mulher pronta à procriação e ao sexo.
Tez morena, pele aveludada, ancas largas, coxas torneadas, joelhos recobertos pela adiposidade mínima e necessária para encobrir harmoniosamente a ossatura daquela dobradiça, que prosseguia abaixo em pernas simetricamente arredondadas, panturrilhas boleadas com arcos suaves a terminarem em proporcionalidade com os tornozelos, tendo por terminação harmoniosa os pequenos pés.
Estes configuravam algumas características de sua posição social, a começar por diferir dos pés das mulheres abastadas, que mesmo não tendo a formosura e o viço que possuía Rosinha, os tinham tratados com esmero, amaciados pelas pedicuras. Os delas, avessos ao chão, solas finas e bem cuidadas, pés de princesas habituados às pelicas e aos saltos altos. Os da menina-moça eram acostumados à nudez destemida e pisavam sem medo o pó de calcário do chão e a virgindade do solo quente ou frio. Eles tinham a intimidade antiga entre pedregulho e a queratina abundante de suas plantas. Não eram fidalgos comportados em sapatos acolchoados e por isso mesmo, não eram compridos e lânguidos, senão pequenos e espalhados. Roliços e curtos.
Os olhos vivos cor de mel ou de rapadura, viam a vida com alegria e desbravamento. Os cabelos cacheados lembravam o mel escuro, mel de furo, mel de engenho, atingiam a sua cintura que era recortada como um pilão. Ícones esvoaçantes, eram tratados com esmero e lavados com sabão de coco e água de raspa de juá. Jamais haviam sido cortados, desde que sua mãe fizera-a pagar uma promessa por ter sobrevivido de uma pneumonia dupla em idade tenra. Eram eram flâmulas de liberdade, tal e qual o capinzal abanado pelo vento frio das noites de São João.
Bento, jovem esguio como um caniço, mimetizava a vara que aguilhoava os bois usados na tração dos carros dos engenhos e fazendas. Franzino, sem excessos de adiposidade, músculos bem definidos pelo exercício diário na fazenda onde trabalhava, ora cuidando do gado, ora cortando capim, ora limpando os estábulos, ora correndo a cavalo.
Era o homem de confiança do patrão e pau para toda obra. Calmo, voz arrastada e de pouca conversa. Criado desde menino no mesmo povoado de Rosinha, se embeiçou por ela e com ela se casou. Fora amor de arrancar toco nas noites e madrugadas de recém casados. E Rosinha queria Bento todas as horas do dia. Rosinha gostava de ser possuída por Bento, ficar e ser pertencida. Quanto mais, melhor! É bom que dói, ela dizia para Bento.
Rosinha era livre pra posse, enquanto Bento dono tinha. Tinha o dono do seu sono, do seu suor e agonia. Tinha o dono do seu soldo que sustentava Rosinha. E quanto mais se esforçava mais seu patrão lhe exigia. Até mesmo parecia que seu patrão andava com ciúmes de Rosinha. Bento não agüentou a barra e fraquejou com Rosinha. Dormia nas dependências da fazenda várias noites por semana. Voltava pra casa amuado e cabisbaixo e não transava com Rosinha. Bento, dizia ela, depois que você me acostumou eu não consigo viver sem transar com você nem um dia. Eu já estou ficando doida. E Bento nem respondia.
Foram meses jejuando que passaram Bento e Rosinha. E o patrão sem jejum, com apetite voraz, promoveu Bento ao cargo de capataz. E Bento pensava no patrão e mal pensava em Rosinha. Esta confidenciava pras amigas que o que mais gostava na vida era de fazer sexo, mesmo que fosse sem Bento, pensava que gostaria. E um dia se entregou na primeira oportunidade na mesma cama de Bento.
Foram meses de loucura e de medo, daquele sexo proibido. Parecia mesmo que a sina tinha dado a Rosinha a sexualidade fogosa de uma ninfeta com o medo misturado ao gosto, o gosto misturado à necessidade, a necessidade misturada com prazer ou outra coisa sem nome, tal e qual a carência daquele chão seco que rachava quando não chovia.
E veio-lhe a idéia de liberdade, de sentir de novo os pés descalços e os cabelos esvoaçantes como flâmulas ao vento. E a vontade de Bento que não aparecia há quinze dias.
Lavou seus cabelos com água de juá e sabão de coco e aguardou Bento por seis dias. Negou-se aos folguedos da alcova com o forasteiro que a perseguia até ceder-lhe a mais uma noite de fogueira incendiada, quando Bento rebenta casa a dentro e o amante foge lívido pela porta da cozinha. Despida de tudo e vestida de coragem, enfrenta Bento lhe dizendo que estava fazendo o que ele queria que fizesse ao abandoná-la destituída do amor que lhe ensinara a provar pela primeira vez.
Uma peixeira lhe desfigura o corpo e arrebata-lhe a vida que tomba rubra no chão de barro batido. Bento preso e de mãos ensangüentadas e calejosas é no outro dia solto pelo patrão que continua agora mais do que nunca sendo o seu dono. E a aridez prossegue naquela cidade no meio do mundo. Bento foi convencido que Rosinha era apenas uma mulher morredeira e o seu dono alguém a quem ele devia para sempre a sua liberdade.

Waldir Pedrosa Amorim (médico e poeta, publicou: Cantos da Vida de Amar. Poemas e Solilóquios, Amor que Sai do Casulo poemas e O Avesso da Pele. poemas.)

Crônica de Waldir Pedrosa Amorim sobre a Seleção Brasileira

A COLISÃO ASTRAL SUBSTITUI A CONJUNÇÃO ASTRAL


Sempre julguei que não fossem excludentes o trabalho, o profissionalismo, a competência e a ludicidade ao exercê-los, mas mutuamente benéficos e necessários ao exercício de qualquer atividade social. As relações sociais se adaptam a cada dia num cenário competitivo, baseado em méritos e valores individuais. A subespecialidade é enaltecida como modo de intervenção sobre a complexidade dos desafios ditos impossíveis de serem dominados por uma única pessoa. O pensamento é baseado em que o excepcional conhecimento da parte prescinde da noção do todo. Admite-se que o todo é mais eficientemente montado como se fora um enorme puzzle ou quebra-cabeças. Cada peça reconhece apenas o seu espaço.
Tolo engano. Nem mesmo a natureza mineral, vegetal ou cósmica acatam na sua essência esta dinâmica. A natureza humana com maior razão abomina a insípida repetição de só apertar parafusos numa linha de montagem, como já denunciava Chaplin no seu sensacional Tempos Modernos. Expressão dos conteúdos da alma e da natureza humanas, as artes, desde as mais priscas eras nos relembram esta realidade. A essência da harmonia é a dissonância que não se desprende da consonância, do todo. Subespecialidade é necessária nos dias atuais, quando emana do conhecimento amplo.
E onde reside a ludicidade, permitam-me o neologismo? Onde o brincar, ter satisfação, envolvimento, construir vínculos para que o olhar enxergue liames indissociáveis e inexpugnáveis? Onde apreender o que se passa ao redor, até o lugar onde os sentidos alcançam e a alma reivindica? Possuímos uma delicada vaidade e um sentido de prazer que se temperam positivamente e contagiantemente na motivação do fazer. A qualquer gênero da atividade humana isto se aplica.
Quanto demanda a uma orquestra sinfônica arregimentar talentos? E a cada talento, passar por uma formação plural, posteriormente especializada, para se inserir em sucessivos ensaios que atendam a inteireza de uma orquestra tocando?
Quanto ao maestro, este rege com o conhecimento aprofundado de música e de regência. Na orquestra rege pessoas que são músicos e entende delas, como daquela música no seu contexto pleno. Explora ao máximo a percepção mais sutil que o ouvido pode conferir ao seu cérebro. Recebe instantaneamente respostas das memórias (experiências anteriores) e se concentra junto aos demais no seu ofício. Todos se dedicam a uma função final na qual empregaram tempo, vontade, deleite e sacrifício. A cada nova apresentação, necessitam recomeçar um novo tenaz e prazeroso esmero.
Hoje é o dia posterior à derrota da seleção brasileira frente à seleção francesa nas quartas de final da copa do mundo.
O que decepciona muito mais que a derrota não é o fato de termos sido suplantados, pois afinal de contas um dia se perde e outro se ganha em qualquer competição desportiva.
O que nos desola é constatarmos numa terra celeiro de jogadores saídos em sua maioria dos campos de pelada, gente humilde que meritoriamente galga a fama, serem bafejados pelo sopro deformador de estrelas e pela empáfia dos afortunados, esquecendo-se da responsabilidade com o torcedor que contribuiu para projetá-lo. Onde o belo futebol imprevisível ao competidor? Onde o profissionalismo e a posição nos campos podem aniquilar a alma, o conjunto e a dedicação que sempre nos caracterizou? Retrocedemos?
Não, apenas não nos demos conta de que o futebol divertimento, arte, conjunto e profissionalismo não se constrói buscando modificar almas contingencialmente impregnadas pelo individualismo que é filho da incultura, da pobreza e dos interesses midiáticos e empresariais.
Pelos inúmeros campos de pelada e de clubes deste país existem os filhos de uma herdade brasileira de jogadores de futebol com falta de opção na vida. Estes continuam brincando com a bola e sonhando com a Copa. Mas os patrocinadores seduzem os técnicos a escalarem um amontoado de estrelas que não consentem ser denominadas como uma constelação brasileira de futebol. E cada qual se sente especialista em meio palmo de chão com assento cativo em uma posição imune à paixão.
O maestro? O treinador? Ah! Este tem que vir do gosto pelo futebol, pelo saber esportivo, pelo amor à nossa cultura, pela humildade, inteireza e respeito à alegria do seu povo. Antes de tudo, tem que ter independência e sintetizar unidades em totalidades organizadas. Admitem-se os patuás, bruxarias, para serem apenas praticados fechados a sete portas e sete chaves, de boca calada.
Porém, concordo que ainda é cedo para podermos comparar maestros e músicos com jogadores em uma nação ainda pouco exigente com o saber e com a ética. Quem sabe, valha o desabafo, pois o futebol no Brasil ainda toca tão amplamente e ocupa tanto espaço de discussão, horas paralisadas de trabalho, tempo de lazer, momentos de comoção, união e horas na mídia que qualquer outro problema de nossa querida terra, com tanta coisa a construir.

Waldir Pedrosa Amorim
domingo, 2 de julho de 2006.

11.6.06

Acervo de Emoções de Helena de Lucena Beltrão.

Sobre a poetisa, escreve Waldice M. Porto:

"A poesia de Helena nos revela uma alma sensivel e apaixonada, de inspiração espontânea, de raríssima pureza de sentimento, traduzida nos versos plenos de ternura, deixando-se descobrir em toda a sua trajetória existencial, contida em cristalino manancial poético. Nesses arroubamentos da musa inspiração, pinta diversas formas e imagens policromadas, emergidas ora, impetuosas, ora obscurecidas, quase exángues ora sublimada exaltação, do cerne mais profundo da sua identidade de escol."

Para dar gosto de conhecer este bom acervo de emoções, um pouco da poetisa no seu Aeronave do Sonho, escrito em 16 de agosto de 1994 :

Para viver toda a minha fantasia,
esta que me envolve, vez em quando,
vesti-me com requintes de alegria,
em trajes de cetim, lilás e branco.

Embarquei na aeronave que subia
em busca do ideal, nos vastos planos.
A nave ora planava, ora descia,
ante o impacto do riso ou dos enganos.

As cores do cenário eram sutis...
embaixo, o mar; verde das pastagens;
nos céus a harmonia do matiz.

Retornei desse vôo imaginário,
guardando num registro, o sumário,
onde vejo-me a rir, quase feliz.

15.3.06

Uma Bela Crônica de Ronaldo Monte

A outra de mim

Tenho muito medo da mulher. De seus abismos, do seu silêncio. E nem era pra ter. Fui criado por minha mãe e duas tias, com duas irmãs de lambuja. Devia, pois, desde o berço, estar acostumado ao modo de ser feminino. Com suas sombras, com seus segredos. Devia estar, mas não estou. E quanto mais vivo, mais me assombro com seus mistérios, com seus bruxedos.
Tenho mulher e duas filhas, várias sobrinhas, muitas amigas. Minha casa é impregnada pela alma feminina. Passei décadas da minha vida ensinando a classes formadas por grande maioria feminina. Oitenta por cento de minha clientela também é formada por mulheres. Já era tempo, vocês hão de pensar, de não mais me espantar com o feminino. Mas isso, no meu fraco entender, é impossível.
Não depende da idade nem de qualquer atributo físico. A mulher, toda mulher, traz consigo um quinhão de estranheza que resiste a qualquer tentativa de tradução. Inclusive por elas mesmas. É esta face obscura, que nos olha do outro lado da fronteira de um país estrangeiro, que nos lança o desafio permanente da decifração. Com a decorrente ameaça de devoramento, é claro.
Desde menino guardo a imagem dessas alegres esfinges, em cochichos, rabos de olhos, meneios de cabeça, finalizados pela risada cabulosa que me tinha por alvo. Pobres de nós, os meninos, indefesos, encabulados, batendo em retirada para longe daquele exercício incipiente do maldoso mistério a que ficamos a mercê pelo resto da vida.
Com uma porção tão grande de estranheza, dá pra entender porque a mulher é alvo de tanta violência. Poucas pessoas suportam conviver com a diferença. Principalmente com essa diferença radical que o feminino representa.
Eu, que tenho por fardo a obviedade masculina, sou grato àquela que me põe cotidianamente em frente ao seu mistério. Essa outra de mim, que me ensina a conviver com meus abismos, meus mistérios.

Texto: Ronaldo Monte – Poeta e psicanalista
Foto by Dirwal Sadrope

12.3.06

Poder Escrever



Poder escrever, para mim,
é poder dançar, ouvindo a música tocar dentro da alma.
É percorrer os salões da mente e do coração.
É apresentar, nas linhas, o espetáculo da vida,
que se desenrola, ora com calma,
ou em silêncio, até!...
ora com estardalhaço,
ou com fogos de artifício, até!
É tornar visível o sentimento que passeia dentro do ser.
E assim...
poder deixar que se contemple,
que se quase apalpe o que só a alma, o coração, ou mesmo, o corpo encerrava.
É correr o interior dos outros sem sequer tocar em sua corrente sangüínea.
É poder chorar sobre o papel sem molhá-lo.
É colocar o sorriso nas letras, nas palavras que se formam, que se juntam.
É viajar.
É vencer distâncias, matéria e tempo.
É transcorrer o espaço, sem o uso do tele-transporte.
Escrever é flutuar.
É fazer deslizar o corpo, sentindo-se embalado, e quem sabe... inebriado.
É imprimir, nas linhas, o seu nome, o seu jeito, a sua história,
como numa alquimia que, realmente, pode trazer o reluzente ouro.
Escrever é desenhar,
é figurar.
É sorver delicioso vinho.
É fluir.
É poder sair da gaiola,
é voar alto,
é sonhar alto,
é fazer alto.

Texto de: Emília Maria Matias Acioli- João Pessoa – PB.
Publicado com permissão da autora em 12/03/06
Foto by Dirwal Sadrope