20.12.05

Natal - Poesia de Waldir Pedrosa Amorim


foto by: Dirwal Sadrope

Natal


Para alguns, nasceu um deus menino.
Marcou a era cristã, pois Jesus Cristo, era o seu nome.
Justapôs-se ao rito,
um calendário romano
intitulado de antes dele e após ele.
Os novos anos
sempre fizeram-se sucedâneos dos passados anos,
como se sucedem os meses, as semanas, os dias, os segundos e os minutos.
Os novos homens com suas histórias,
se sucedem de modo idêntico.
E parece não haver mistério: um aniversário e um novo ano;
não fossem os valores que lhes agregaram.

Para alguns,
a data se comemora
em riqueza e festa,
sob o desejo
de que a riqueza
se redobre.

Para muitos, a identificação
de um deus maltrapilho
em seu berço de feno
apazigua a crueldade
de persistirem dormindo
ao relento
sobre berços de jornal.

Estes,
recebem as migalhas dos refestelados
uma vez ao ano,
em suas campanhas de natal sem fome.

Aqueles, promulgam
sua caridosa alma natalina.

Persistem as guerras sempre ímpias
e nunca santas.
E a sacrossanta madre igreja romana e tantas mais
enchem seus adros de fiéis
para a pregação dos seus delituosos mistérios.
Entoa-se “noite feliz” e parece que a felicidade até existe!

Alguém, em algum lugar,
vai falar que é blasfêmia o que escrevo e penso,
e tentar iludir, dizendo que a paz reside em nossos corações.
Mas meus ouvidos e minhas retinas e minhas memórias dirão
que minha blasfêmia não será em vão,
enquanto constatar nas eras que vivi, escutei, fotografei e rememorei,
que chamam de blasfêmia o que afirmo,
e de utopia o que creio,
quando imagino um mundo são,
sem hipocrisias.

Até então,
não poderei alcunhar por irmãos
nem os que aniquilam,
nem os que aniquilados são
apenas por que é natal,
este dia,
em nada superior
aos outros dias sobre a terra.

Não importa o deus de nossas profecias,
se menino ou, se não infante.
Os deuses por definição não pecam, não odeiam, não desprezam e são amor.
Algo há de ser feito por nós,
impiedosos seres
que engendramos um convívio
mais que desumano,
aberrante.

Texto : Waldir Pedrosa Amorim
Foto by Dirwal Sadrope
Natal de 2006

13.12.05

Charles Baudelaire in: As flores do Mal Ed. Nova Fronteira ,1985 - tradução: Ivan Junqueira.

O Retrato


A doença e a Morte tornam cinza todo
Aquele fogo que por nós ardeu.
Dos olhos a me olhar daquele modo,
Da boca onde meu ser se dissolveu,

Dos beijos sempre fiés a uma ordem dada,
Dos êxtases mais vivos que fulgores,
Que reta? É horrível, ó minha alma! Nada
Mais que um pálido esboço de tres cores

Que se extingue, como eu, na solitude,
E que o Tempo, sem pressa e em toda parte,
Vai roçando com asa amarga e rude...

Negro assassino da Vida e da Arte,
Jamais hás de matar-me na memória
A que foi meu prazer e minha glória!


BIBLIOGRAFIA SOBRE O AUTOR
BAUER, Roger. Baudelaire und die deutsche Romantik. Euphorion. v. 75, n. 4, p. 430-443, 1981.BÉGUIN, Albert. L'âme romantique et le rêve; Essai sur le romantisme allemand et la poésie française. Paris: Librairie Jose Corti, 1956.BOWMAN, Frank Paul. French Romanticism; Intertextual and Interdisciplinary Readings. Baltimore / London: The Johns Hopkins University Press, 1990.BAUDELAIRE, Charles. A modernidade de Baudelaire. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.BAUDELAIRE, Charles. Obras estéticas: filosofia da imaginação criadora. Petrópolis: Vozes, 1993.BONNEFOY, Yves. L'Improbable et autres essais. Paris: Gallimard, 1983.

Links relacionados:
http://www.geocities.com/floresdomal/baudelaire.html
Charles Baudelaire: site em português sobre o escritor com algumas biografias e poemas.
http://carcasse.com/revista/baudelaire/charles.htm
Carcasse: excelente artigo sobre o escritor. Acompanham alguns poemas
http://www.poetes.com/baud/
Charles Baudelaire: site francês dedicado ao escritor.

Waldir Pedrosa Amorim -


O espantalho

Atentos,
Os pássaros
Perdem o espanto
Pelo espantalho.



CONTO DE RONALDO MONTE

O Baú do Anão
Ronaldo Monte

Como todo anão, Meia-légua era esquisito. Tinha dias que não ensaiava. Passava o tempo todo de cara fechada, sentado no seu baú. Um dia em que ele estava no picadeiro levando uma carreira do palhaço, o trapezista, por absoluta falta do que fazer enquanto esperava que armassem a rede, abriu o baú de Meia-légua e se espantou. O baú vazio.
Terminada a função da noite, o trapezista veio se chegando para junto do baú com o seu dono em cima. Escuta, Meia-légua, você vai me desculpar, mas eu morria de curiosidade de saber o que você guardava com tanto ciúme dentro desse baú. Hoje eu não agüentei e abri. Foi ilusão minha, ou não tem nada mesmo dentro dele?
Ao contrário do que o trapezista esperava, Meia-légua não ficou com raiva. Continuou olhando para o nada e disse com a voz rouca de tanto gritar no picadeiro: este baú é para me enterrarem, quando eu morrer. Só o dono do circo sabe disso. Agora que você também sabe, acho que também deve cuidar do meu enterro.
Mas eu nunca vi enterro de anão. O que eu sei é que nunca ninguém viu um anão morrer. Dizem que eles se encantam, somem no meio da mata ou dentro do mar.
Eu também nunca vi um enterro de anão. Na minha família só eu sou assim. E os anões dos outros circos nunca morrem quando estou por perto. Só sei de uma coisa. Eu estou perto de morrer. E quando eu morrer, quero ser enterrado neste baú.
Outro dia, outra noite. O respeitável público dobra-se de rir vendo o anão com as calças caídas correndo do palhaço. De repente, Meia-légua cai e o palhaço quase tropeça nele. Dá uma cutucada com o bico longo do sapato no pé da barriga de Meia-légua e diz sem que a platéia possa ouvir: levanta, anão filho da puta. A bandinha ataca uma marcha ligeira e o palhaço sai arrastando pelas pernas o corpo de Meia-légua para detrás da cortina, sob as risadas e as palmas dos pagantes.
Isso é hora desse anão morrer, resmunga o dono do circo. A gente tem que levantar a lona agora de noite. Amanhã já tem estréia na cidade vizinha. O trapezista então teve uma idéia. Depois do circo desarmado, a gente dá um dinheiro a esses dois ajudantes para eles cuidarem do enterro do Meia-légua.
Dito e feito. Com a tralha arrumada nos dois caminhões, a trupe do Gran Circo Gitano faz uma oração em volta do corpo de Meia-légua ainda deitado no chão com quatro velas em volta. Amém. Era a hora do trapezista e do dono do circo botarem Meia-légua no baú.
Como se previa, mesmo para um anão, o baú era pequeno. Tiveram que botar Meia-légua meio de lado, com as pernas encolhidas, mais ou menos na posição em que vivia na barriga da sua mãe. Entregaram aos ajudantes o dinheiro que achavam suficiente para o enterro e treparam nos caminhões para comer poeira.
O dia já tinha amanhecido. O cemitério deve estar aberto. Os ajudantes saíram carregando o baú, cada um segurando uma alça, trocando de mão de vez em quando. Nunca imaginaram que um anão fosse tão pesado.
Quando os homens chegaram no pé do morro onde ficava o cemitério, decidiram parar para descansar. Descansar e tomar umas lapadas para recobrar as forças. Para isto já existia uma barraca às ordens. Botaram o baú em cima de uma mesa e se sentaram na outra. Pediram duas doses de cana. Que duas doses que nada. O dinheiro do dono do circo dava para bem mais. Desce logo um tubo, pra não dar muito trabalho.
E assim foi um tubo, depois outro e mais outro, até que perderam a conta. Perderam a conta dos tubos e perderam a lembrança do que estavam fazendo ali. Até que veio o dono da barraca e disse que ia fechar. Eles não discutiram. Ainda sobrava dinheiro, podiam muito bem beber num lugar mais decente, onde tivesse mulher. Passar bem.
O homem fechou a barraca e já ia apagar a luz quando viu o baú em cima da mesa. Agora pronto. Daqui a pouco esses cachaceiros vão voltar pra buscar essa merda. É melhor eu ver o que tem dentro. Pode ser alguma coisa que possa se estragar.
Soltou a trava, levantou a tampa, apurou a vista. O baú vazio.
*

José Saramago - Os Poemas Possíveis - 4a Edição Editorial Caminho Portugal.

Demissão

Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais que andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos se dependentes.

Fraternidade

A qual de nós engano quando irmão
Nestes versos te chamo?
Não são irmãs as folhas que do chão
Olham outras no ramo.
Melhor é aceitar a solidão.
Viver iradamente como o cão
Que remorde o açamo.


Mitologia

Os deuses, noutros tempos, eram nossos
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.

Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito imortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.

Entre o céu e a terra, presidindo
Aos amores de humanos e divinos,
O sorriso de Apolo refulgia.

Quando castos os deuses se tornaram,
O grande Pã morreu, e órfão dele,
Os homens não souberam e pecaram.

Natal

Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:
É dia de Natal. Nada acontece.