5.11.09

ÚLTIMA TEMPORADA DO ESPETÁCULO QUEBRA-QUILOS


O COLETIVO DE TEATRO ALFENIM realiza no período de 31 DE OUTUBRO A 29 DE NOVEMBRO a última temporada do espetáculo QUEBRA-QUILOS, no TEATRO ARIANO SUASSUNA, sempre aos SÁBADOS E DOMINGOS, A PARTIR DAS 20H, para um público de 50 pessoas por apresentação.
INGRESSO: R$ 10,00 e R$ 5,00

Sob a direção do dramaturgo Márcio Marciano, o espetáculo já foi visto por mais de 6 mil pessoas em todo o Brasil desde sua primeira apresentação em 2008. De lá pra cá, participou como convidado dos principais festivais e mostras de teatro do Nordeste, a exemplo da Mostra SESC de Teatro do Cariri, Festival de Inverno de Garanhuns, Festival do Teatro Nacional de Recife e Festival de Teatro de Guaramiranga.
Em 2009, o Quebra-Quilos esteve em temporada no Teatro da Caixa Cultural de Brasília e Rio de Janeiro. Também representou a Paraíba na Mostra Latino Americana de Teatro de Grupo, realizada em São Paulo pela Cooperativa Paulista de Teatro. O Quebra-Quilos marca a criação do Coletivo Alfenim de Teatro e a atuação de Márcio Marciano no teatro paraibano. Egresso e um dos fundadores da Cia. Do Latão, Marciano traz à João Pessoa a experiência da sala de ensaio e de uma construção coletiva do texto dramatúrgico.
E é devido a isso que algumas mudanças vêm acontecendo no espetáculo desde 2007. Para os que assistiram a primeira temporada, realizada na Piollin, há várias novidades para se ver em cena com a entrada de novos atores no elenco, e consequentemente, novos tons e novas cenas compõem o Quebra-quilos hoje.
“A entrada de novos atores permitiu uma releitura mais ácida do texto. Isso se deu por alguns fatores. Primeiro, os atores que entraram: Adriano Cabral, Fernanda Ferreira e Ana Marinho já conheciam o espetáculo e trouxeram sua visão sobre as personagens”, observa Marciano e completa: “Eu diria que eles fizeram uma interpretação mais aprofundada das relações que estão em jogo porque tiveram condições de analisar a obra num primeiro momento apenas como espectadores críticos”. Marciano afirma ainda que outro fato importante a ser observado nestas mudanças é que tanto ele enquanto diretor, quanto os demais atores do elenco já tem um distanciamento maior da dramaturgia que foi criada em sala de ensaio num processo onde a encenação está ainda muito colada às improvisações. “E esse distanciamento de quase dois anos do processo de criação foi o que permitiu uma leitura mais complexa do que havíamos criado”, conclui.

SOBRE O ESPETÁCULO:

Quebra-Quilos narra a história de duas mulheres que são tangidas do campo e obrigadas a procurar abrigo numa vila do sertão paraibano, nas proximidades de Campina Grande, em fins de 1874. Existem rumores de que os quebra-quilos, sediciosos que se opõem à implantação do sistema métrico decimal, preparam-se para invadir a feira da localidade com o intuito de destruir os padrões de aferição. Tropas da Guarda Nacional estão de prontidão. Mãe e filha serão testemunhas e vítimas da violência das autoridades locais contra os matutos revoltosos, que tentam comerciar na feira o produto de suas pequenas lavouras.
Grupo reúne três gerações do Teatro Paraibano Márcio Marciano vem de uma bem sucedida experiência de dez anos na Companhia do Latão, de São Paulo. Dando continuidade ao processo de pesquisa para a criação de uma dramaturgia própria sobre assuntos brasileiros, o dramaturgo reuniu três gerações de atores paraibanos para formar o Coletivo de Teatro Alfenim.
Além dos representantes da nova geração, Daniel Porpino e Fernanda Ferreira, o grupo tem a participação de Adriano Cabral, Daniel Araújo, Ana Marinho e Verônica Souza. Completam o elenco dois nomes que são referência no teatro paraibano, Sôia Lira (“Central do Brasil”) e Zezita Matos (“O Céu de Sueli”), que comemora com o Quebra- Quilos 50 anos ininterruptos de palco. As duas atrizes se encontram em cena como mãe e filha, mulheres que, em fins do
século XIX, são obrigadas a abandonar o lugar em que vivem por determinação do proprietário das terras, um senhor de engenho às voltas com a modernização do sistema açucareiro. “Estamos no tempo da implantação do sistema métrico decimal, em meio à revolta popular contra os novos pesos e medidas. Mãe e filha serão arrastadas pela ação espontânea dos matutos alcunhados quebra-quilos, e sofrerão a seu lado a brutalidade com que as autoridades locais farão valer a ordem do Império em franca decadência”, finaliza Márcio Marciano.

Quebra-Quilos - Localização histórica

Nos termos do historiador Armando Souto Maior o movimento dos “quebra-quilos” “poderia ser classificado como uma forma primitiva ou arcaica de agitação social (...) mais que um tumulto e menos que uma revolta quase articulada”. Entender as razões dessa convulsão nos estertores do Império possibilita reconhecer em que medida suas causas foram ou não superadas na atualidade. Basta abrir os jornais para percebermos que as matrizes da revolta popular que acendeu o sertão da Paraíba podem ter mudado de aspecto, mas não se alteraram em sua essência: o que dizer dos novos criminosos sociais, confundidos com criminosos comuns, que aterrorizam o cidadão seja da grande cidade, seja do recanto mais isolado do sertão? O espetáculo, entretanto, não se justificaria se almejasse exclusivamente uma formulação sociológica do problema “Quebra-quilos”. A nós interessa a matéria humana pulsante sob os acontecimentos de caráter social, ainda que ambos os aspectos, o social e o individual só possam ser identificados em sua expressão mais autêntica enquanto faces que se interpenetram dialeticamente. É do confronto entre a subjetividade e os fatores objetivos que nasce a compreensão das causas desses acontecimentos e possibilita a apreciação crítica de suas conseqüências históricas. Aí reside uma das fontes de interesse do projeto: identificar na trajetória dos indivíduos envolvidos naquele movimento a presença das contradições que marcam a história da Paraíba, de modo a perceber se e como essas trajetórias diferem ou se assemelham à nossa própria trajetória na contemporaneidade. Afinal, somos parte desse processo de formação do sujeito, não apenas paraibano como também nordestino e brasileiro. Outro aspecto relevante é o fato de o período em tela dar notícia da insatisfação popular em relação à implantação pela força do sistema métrico decimal. O modo pelo qual a mentalidade da época se relaciona com essas transformações, impostas pelo Estado por conta de sua adesão involuntária às orientações do capital internacional parece retirado das páginas dos jornais da atualidade. Esse alto teor de sugestão simbólica põe a narrativa desses fatos ocorridos em fins do século XIX na ordem do dia. Isso sem falar de outros tantos pontos de contato com a atualidade como a insatisfação devida ao aumento excessivo e irrealista dos impostos, a manipulação da boa-fé do sertanejo, tanto por parte das autoridades do governo imperial como por parte das autoridades religiosas locais e dos grandes proprietários e, principalmente, a potencial violência que transforma os alijados do mundo produtivo em criminosos sociais.


FICHA TÉCNICA:
Elenco: Adriano Cabral, Daniel Araújo, Daniel Porpino, Fernanda Ferreira, Sôia Lira (e
Ana Marinho), Verônica Souza, Zezita Matos.
Texto e direção: Márcio Marciano
Direção musical: Marco França
Cenário: Márcio Marciano
Figurinos: Maurício Germano
Iluminação: Márcio Marciano
Consultoria de encenação: Fernando Yamamoto
Produção executiva: Humberto Dias
Duração: 80 minutos.
Recomendação: Maiores de 14 anos.

3.11.09

Poerner chega aos 70 no fundo da noite do Leme


O escritor e jornalista Arthur Poerner resolveu comemorar a chegada aos 70 anos, cantando o seu bairro.
Leme: viagem no tempo ao fundo da noite será lançado, com coquetel, no próximo dia 9 de novembro, segunda-feira, a partir das 19h, na Fiorentina, à Av. Atlântica, 458 (2543-8395), a cantina que foi, durante décadas, o principal ponto de encontro dos artistas e intelectuais no Rio de Janeiro. O livro é uma versão atualizada, ilustrada e bastante ampliada da primeira edição, publicada em 1998, sob o patrocínio do RioArte, pela Relume Dumará, na coleção Cantos do Rio, que reuniu bairros e escritores como, entre outros, Lagoa (Carlos Heitor Cony), Vila Isabel (Aldir Blanc) e Cosme Velho (Cícero Sandroni). Arthur Poerner, além de escritor e jornalista, é letrista (parcerias com Baden Powell, Candeia e João do Vale) e professor de Jornalismo aposentado na UERJ. Tornou-se nacionalmente conhecido, nos anos 60, no intransigente combate – sempre por artigos jornalísticos, livros e palestras – à ditadura militar, o que lhe rendeu processos políticos, prisão, nove anos de exílio e, com apenas 26 anos, o título de mais jovem brasileiro a ter os direitos políticos suspensos por decreto presidencial, do marechal Castelo Branco. A BOOKLINK reeditou dois dos seus livros mais conhecidos: a 5ª edição de O poder jovem: história da participação política dos estudantes brasileiros e a 3ª edição brasileira do romance Nas profundas do inferno, baseado nas lembranças das torturas a que eram submetidos os presos políticos no quartel da Polícia do Exército da Rua Barão de Mesquita, no Rio, onde funcionava o DOI-Codi. O Leme expõe a face boêmia desse autor e militante político. A um bairro autenticamente carioca como o Leme não poderiam faltar características morfológicas da cidade como o morro e o asfalto, devidamente representados na apresentação do livro pelo escritor e jornalista Cícero Sandroni, que ali residiu durante 12 anos, e pelo compositor Álvaro Maciel, diretor de Cultura da Associação de Moradores do Morro da Babilônia. Leme: viagem no tempo ao fundo da noite128p. – ISBN 85-7729-085-7

13.10.09

UM NOVO HINO


Heitor Rosa

Os hinos nacionais foram compostos, sob encomenda, por ardentes patriotas ou adaptados de um poema nacionalista. Assim, essas letras procuram exaltar e estimular o patriotismo, cantadas numa melodia de caráter marcial.
Quando se faz a leitura dos hinos de países dos diversos continentes (consegui ler apenas 48), observa-se que quase todos tem formas e palavras semelhantes. Geralmente despertam o espírito guerreiro e, portanto, incitam à valentia e heroísmo, seguindo-se elogios às belezas e virtudes do país. A proposta é de matar ou morrer quando a pátria for ultrajada, invadida ou perigar a liberdade.
Como guerra é guerra, os poemas são justificáveis, e o hino deve ter (de preferência) uma melodia alla marcia, que faça vibrar e emocionar. A emoção fica por conta do momento, ocasião e do número de participantes, porém raramente estão combinados bons poemas com boa música e vice-versa.
Outro elemento comum às patrióticas letras é o seu tamanho quilométrico. Inicialmente, tive a falsa impressão de que o “comprimento” do poema era diretamente proporcional ao atraso do país, mas há exceções, como em tudo nesse mundo. Os poetas bélicos são incapazes de exprimirem um forte sentimento e exortação pátrios, em poucas estrofres e curtos versos.É verdade que foram escritos em outros séculos, conforme a moda literária da época;da mesma forma como foram compostos os hinos. Mas o certo é que, pelo tamanho da obra, muitas letras devem ser aprendidas em criança, para estarem decoradas até à adolescência.
Alguns exemplos da América do Sul mostram a relação apavorante número de estrofes/ versos: Venezuela (3/29), Peru (7/56),Colômbia (11/58), Chile (6/48), Bolívia (4/36), Argentina (9/126). Paraguai (7/56),Brasil (11/48). A Venezuela parece sóbria, mas cada estrofe é repetida uma, duas ou quatro vezes (ou mais se o Chavez decidir). Por outro lado as nações européias e os Estados Unidos são intermediárias entre as sul-americanas e as asiáticas: Alemanha (1/8), Estados Unidos (4/32), Inglaterra (5/35) , Portugal (6/39), à exceção da França (7/68). Este país, à parte a boa melodia, tem um poema longo como um sul-americano e violento como se fora escrito por Átila; é uma carnificina só. Os asiáticos fazem-nos inveja pela sobriedade e pacificidade — China ( 1/10) , Rússia (4/16) , sendo do Japão (1/6) o hino mais curto e mais carinhoso .
Todos eles, como já disse, com algumas exceções, cantam lutas e vitórias, amor e ódio, sangue e morte, e, portanto, deveriam ser cantados ou executados nas ocasiões de confronto bélico e não em momentos de paz, confraternização, solenidades culturais ou em enfrentamentos esportivos. Não há razão para cantar a guerra nas atividades pacíficas.
Como não se deve mexer em símbolos tradicionais, por que não compor novos, belos e curtos poemas que exaltem a paz, o amor, a beleza de um povo ou país e que sejam cantados em melodias bem feitas e bonitas, ambos, poema e música, acessíveis ao entendimento e ouvidos da grande massa?
O Brasil pode ter uma nova chance e ser pioneiro na mudança. Embora nosso hino não seja tão belicoso, mas também manda seus filhos para a guerra. Um novo hino, para ocasiões pacíficas, além das qualidades já citadas, teria a vantagem de não cantar “palavrões desusados”, que o povão não entende, como lábaro, florão, clava forte,garrido e escrito na ordem direta com uma ou duas estrofes; os versos seriam livres, para não mais se repetir as cansativas terminações em “ il” e outras rimas menos poéticas. Cantado ou tocado em cerca de três minutos, sem ritornellos ou refrões. Ó pátria amada. Ah. Ia me esquecendo. Para o novo hino fica proibido a Fafá de Belém cantar a capella, ou qualquer alteração por arranjador aventureiro ou malabarista vocal. Chega o que já fizeram com a protofonia do Guarani, pisoteada na Voz do Brasil como um fundo musical para pajelança.
Só em caso de guerra, como um jogo contra a Argentina, aí sim, cantaríamos o velho e tradicional virudum.


14.9.09

Antônio Mariano no Café em Verso & Prosa

Dia 15, terça-feira, a partir das 20 horas, no Empório Café, em Tambaú - João Pessoa PB.

Texto de Lau Siqueira

Os anos 90 afirmaram a renovação da cena literária contemporânea aqui na Paraíba. Alguns dos expoentes da geração que começou a publicar nesse período, hoje despontam entre os nomes mais expressivos da Poesia contemporânea brasileira. Antônio Mariano é um dos principais expoentes dessa geração, atuando tanto na poesia quanto na ficção, com a mesma precisão e competência. Por outro lado, desde o projeto editorial Trema, um empreendimento que agitou a vida literária desse período, destaca-se como um dos principais articuladores da literatura nordestina. O projeto editorial Trema, por exemplo, possibilitou a publicação de poetas como Fransued do Vale, Magno Meira, José Rodrigues e Lau Siqueira, aqui na Paraíba. Acabou, também, extrapolando os limites do estado ao publicar o carioca Rodrigo de Sousa Leão. Antes disso, a biografia do poeta Antônio Mariano contou com uma passagem brilhante pelo grupo Oficina Literária, que juntamente com Tota Arcela e outros artistas, agitou culturalmente a Cidade das Acácias. Atualmente o poeta desenvolve um dos projetos literários de maior prestígio no Nordeste, O Tome Prosa, Tome Poesia. Um evento que já contou com a participação de nomes expressivos da literatura brasileira, como Sérgio de Castro Pinto, Jomard Muniz de Britto e Marco Luchesi, entre tantos outros. É também o atual editor da revista Correio das Artes, suplemento literário do Jornal A União.

Nascido em João Pessoa, em 1964, o poeta conquista com méritos próprios o seu ingresso na rica história literária da terra de José Lins do Rego e Augusto dos Anjos. Com apenas 20 anos, vencia o I Concurso de Poesia do SESC DA PARAÍBA. De lá para cá, acumulam-se feitos que fizeram de Antônio Mariano um dos nomes mais respeitados da literatura brasileira contemporânea. Seu primeiro livro, O gozo insólito, data de 1991 e o segundo, Te odeio com doçura, de 1995. Ambos pela Editora Scortecci, de São Paulo. Entre os anos de 2000 e 2005, escreveu uma coluna no caderno de cultura de A União, abordando aspectos da literatura brasileira e os seus novos autores. Publicou seus poemas em veículos importantes como o Correio das Artes, Suplemento Literário de Minas Gerais, Livro da Tribo.

O ano de 2005 ficou definitivamente marcado na biografia do poeta. Sua obra despertou o interesse da Editora Lamparina, do Rio de Janeiro, que apostou em Antônio Mariano, publicando e distribuindo nacionalmente seu belo “Guarda Chuvas Esquecidos”. Assim, o poeta viu sua obra derrubando os muros do praticamente intransponível (apesar de altamente lucrativo) mercado editorial brasileiro. E com um gênero que, apesar de ser dos mais lidos, ainda é extremamente cruel com os novos autores. A biografia literária de Antônio Mariano conta com a apreciação positiva de nomes importantes da crítica literária, como Hildeberto Barbosa Filho, Nelly Novaes Coelho e de um dos poetas mais significativos da literatura de Língua Portuguesa, José Paulo Paes, que se notabilizou também como tradutor. Para o poeta gaúcho, Fabrício Carpinejar, “Antônio Mariano revela-se na extravagância e nas impurezas, no suor secreto das sobrancelhas, na investigação, na investigação passional das falhas, desilusões e desacertos do cotidiano”. Por isso mesmo se mostra como um poeta das sutilezas, da experimentação permanente e da precisão de linguagem.

No prefácio do livro Guarda Chuvas Esquecidos, o rigoroso poeta, crítico e tradutor paulistano, Cláudio Daniel é extremamente preciso em sua análise: “Mariano expõe em sua fala uma gama variada de matizes, mesclando o erudito e o popular, o sensual e o cerebral, o sério e o jocoso, sem a ilusão de obter o acabado ou perfeito, mas com o sentido ético (e estético) de buscar, sempre, ir além de si mesmo, de seu próprio dito. Esse jogo consciente com as próprias limitações e possibilidades é que define o verdadeiro poeta, aquele que ousa e arrisca, para afirmar o discurso do avesso, na contramão do fácil e do flácido (...)”. Antônio Mariano no conjunto de sua obra revela-se, sobretudo, dono de um lirismo incomum nos nossos dias. Um lirismo que extrapola suas próprias possibilidades ao escancarar-se para uma experimentação de linguagem que nada mais é que a colheita de Antônio Mariano no aprendizado com os grandes mestres da literatura. Afinal, acima de tudo o poeta revela-se um leitor afiado dos clássicos e das vanguardas, sem preconceitos estéticos de espécie alguma. Disso tudo surge uma literatura que confere ao leitor a gratificação de se portar como agente de uma interatividade fundamental para a afirmação da boa literatura através dos tempos. Desta forma, neste dia 15, terça-feira, sob a coordenação da atriz e performista paraibana Suzy Lopes, teremos uma noite agradabilíssima com a presença da poesia deste grande poeta, investido na pele do cidadão digno que é Antônio Mariano. O empório Café fica localizado na Rua Coração de Jesus, 129, por trás da Ferinha de Artesanato de Tambaú.

9.7.09

DIVULGAÇÃO DE CURSO DE ARTES CÊNICAS DO TEATRO FAAP


http://www.faap.br/teatro/oficina_teatro/personna_jul2009.htm


Maiores informações: http://cursopersonna.blogspot.com

Amigos, estaremos (Eu e Nanna) dando um curso na FAAP para profissionais que se interessem em usar as ferramentas do teatro e da construção de personagens para aprimorar sua comunicação. É um formato novo de trabalho onde unimos nossa expertise em psicologia, artes e nossa vivência com o mercado corporativo. O curso vinha sendo realizado in company com muito sucesso. É a primeira vez que abrimos para interessados em geral. Estamos certos de que será uma nova experiência enriquecedora para todos. Por favor, nos ajudem a divulgar. Um forte abraço.


Informações e Inscrições
Núcleo de Artes Cênicas do Teatro da FAAP
3662-7232 / 7235 - E-mail: teatro.crurso@faap.br
Rua Alagoas, 903 – Higienópolis - SP

26.5.09

Ao amigo Barreto

É definitivo
por isso sofremos
imensamente.
Somos seres postergadores.
Com certeza,
guardamos na algibeira
muitos planos de eternidade;
repentinamente
fura a algibeira...
Mas, puxa!
Faltou retribuir
aquele jantar
ao meu amigo,
dizer-lhe mais algumas vezes:
o tenho como um dos prediletos escritores
da língua portuguesa.

Imergir
na sua escrita,
é poder apreciar o cimento
do vocábulo matemático,
adequado ao serviço
do catador de cotidianos:
Barreto ou Geraldo Maciel.



Waldir Pedrosa
terça-feira, 26 de maio de 2009

29.4.09

A ESCRITORA E POETA CIDA PEDROSA LANÇA NOVO LIVRO: AS FILHAS DE LILITH - DIA 20 DE MAIO - LIVRARIA CULTURA - PAÇO ALFÂNDEGA - RECIFE




31.12.08

CARTA DE NATAL






Por: Heitor Rosa


Senhor, hoje é manhã de Natal. Vê as ruas quietas e silenciosas , como se de repente o mundo tivesse encontrado a paz ; como se por encanto homens e máquinas fizessem uma trégua e permitissem à cidade respirar calma e serenamente.
Mas Tu sabes a razão deste silencio.
Êle é fruto do cansaço do dia anterior, da maratona impiedosa imposta pela necessidade de comprar presentes, dos onibus cheios que despejam nas avenidas milhares de seres humanos à procura do objeto da gincana. Não há espaço nas ruas, tomadas pelos carros guiados por motoristas tensos, apressados, desiludidos, nervosos, intolerantes , frustrados, gritando sua revolta num hino de ódio a este dia que a todos põe insanos. Garotos maltrapilhos no meio das ruas, estendem suas caixinhas para receberem uma moeda, desviando a atenção do motorista, constrangendo-o e incomodando o trânsito. Onde ir, onde estacionar, onde comprar, o que comprar...uma corrida contra o relógio. É a Guerra do Fim do Mundo, pode pensar qualquer um, menos Tu. O tempo continua a passar sem que ninguém possa detê-lo, aumentando a ansiedade de todos para o encontro da ceia, improrrogável e obrigatória. Multidões inteiras atacam como hordas famintas tudo o que é posto à vista, e compram tudo o que se possa comer, como se estivessem a cumprir suas últimas vontades ou estivessem recolhendo todos os alimentos para prevenir-se dos tempos de privação que virão. É a Guerrra do Fim do Mundo, podem pensar todos menos Tú. Homens atarefados em conduzir nos braços, nos carros ou de qualquer outra maneira, pesados animais e frutas para o festim que se aproxima. Mulheres suarentas cortam, temperam, assam, manipulam em alvas bacias ou pesadas gamelas os mais tradicionais e deliciosos segredos da volúpia gastronômica. Ainda há que embrulhar centenas de presentes, muitos dos quais deverão ser distribuidos ainda nessa tarde, antes da reunião familiar, convocando-se para isso o melhor trenó a gasolina e um irritado condutor, que saiba todos os endereços e os atinja com a maior velocidade possível . Volta-se correndo para casa, agora com mais urgência. A cidade começa demonstrar sinais de cansaço. Aproxima-se a ceia da família. Que se encham os sacos de presentes para todos os presentes. O local da comemoração vai aos poucos se enchendo de pessoas vestidas para a ocasião, perfumadas, maquiadas , cansadas e contrariadas. Vinde, bebamos todos! Foi dada a largada. O uisque, a cerveja, o mais novo vinho, o mais velho vinho, o champagne, o chapinha, a pinga, a sidra, todos bem-vindos e deglutidos. O perú, seu parente clonado - o chester, a galinha, a galinhada, o leitão, o bacalhau, o pernil ,todos oferecidos no altar da nossa gula suprema . Doces e tortas e tudo o mais que puder contribuir para nosso regime de engorda em apenas uma sessão. A seguir a troca presentes, ou melhor, a entrega dos troféus duramente conquistados no corpo-a-corpo das lojas entupidas de selvagens aves de rapina, gladiadores e lutadores de sumô. Mas todos eles foram derrotados, e eis o presente. Feliz Natal, não sei se serve mas amanhã você troca. Feliz Natal, desculpe mas só tinha esta cor. Feliz Natal, espero que você goste. Feliz Natal para você também, adorei esta bengala, agora já posso quebrar a perna ,há,há. Hora de recolher os troféus, enchendo-se novamente os sacos de plástico; o mesmo volume ou um pouquinho maior do que antes, talvez mais pesado...deve ser aquele pequeno torno que você ganhou, supostamente destinado ao seu espaçoso escritório . Não fosse pelos presentes todos diriam que foi uma reunião de reveillon. Num canto isolado ou num quarto fechado, a televisão transmite para as paredes a Missa do Galo, cujo destino depende do alcance da mão ao controle remoto; é melhor não assisti-la, pois este não é um ambiente adequado à solenidades religiosas.
Assim, alimentados, bebidos, presenteados e sonolentos, todos se reagrupam em suas respectivas equipes e partem para festejar com os outros parentes e amigos que, já quase embriagados e semi-sonolentos esperam a chegada daqueles sem os quais não se pode começar a festa. E assim, repete-se todo o ritual. Abraços, comer e beber ou beber e comer, entrega dos troféus, recebimento de troféus, enchimento dos sacos de guardar troféus, despedidas. Que tenham todos uma santa digestão. Mais bebidos, mais comidos, mais gordos e mais sonolentos, com mais sacos de pacotes, vão todos para suas casas . Deixa-se para o outro dia o recolher do lixo natalino, formado de caixas, papéis de presente e sacos de plástico. Exaustos, todos deixarão suas roupas em qualquer lugar do chão, e cairão inertes sobre o nunca antes tão delicioso colchão no qual serão recompensados por um sono imediato e prolongado, como prêmio por sua árdua e insana luta contra o dragão do Natal.
E assim comemorou-se o Teu nascimento. Comemoração encomendada para o nascimento do mais prodigioso menino-marketing jamais imaginado, o messias do comércio, aquele que além de multiplicar pão e peixe, multiplica as vendas, dólares, lojas, shoppings ; dá a todos a oportunidade de faturar muito mais ou pelo menos um pouco , da Tiffany´s ao camelódromo , aos som das harpas paraguaias e dos jingle-bells . O maior fenômeno de franchaising jamais imaginado, usando como representante e testa-de -ferro um gordo velhinho de longas barbas brancas com um surrado uniforme vermelho. Muitas crianças acham até que Tu és o filho do bom-velhinho ; deviam pensar que Tu serias no mínimo o neto, mas a mídia também sabe fazer milagres. Comemoramos o Teu nascimento nas cores verde e vermelha; o verde simboliza a árvore de Natal, o pinheirinho da neve, que todos se obrigam a ter num canto nobre da sala, não importa se colocado num clima tropical ; o vermelho representa as vestes de Papai-Noel que anuncia o Teu nascimento e a liquidação do Ponto Frio. Assim, deves abençoar a toalha de mesa natalina, os enfeites das portas e todos os demais objetos feitos nessas cores, verde e vermelho, que anunciam a festa que vamos ter.
Há anos Estás nesta manjedoura com os braços eternamente abertos, inerte e contemplativo, por demais crescido para um recém nascido,enquanto teu usurpador ágil, juvenil, parecendo ele a criança festejada, vem de pára-quedas ou de helicóptero, recebe a cidade para si e distribui milhares de presentes sob os olhares hipocritamente humildes do governador ou prefeito; ei-lo acolá, cantando e badalando o seu inseparável sino, no centro de uma rica, perfumada e profusamente iluminada vitrine; ei-lo ali, na encalorada avenida saudando a todos em nome das Casas Bahia.
Eu sei que Tu me viste fazendo muitas destas coisas; envergonhado não consegui olhar-Te. Procurei imaginar-me como um robô programado para cumprir todas as etapas do natal moderno, pois não é possível modificar o modismo disfarçado de tradição e comportar-se de maneira diferente . Mas espero que também tenhas visto que dentro do robô havia um coração, que constrangido e pesaroso, dizia-Te entre suas batidas: Desculpa-me por não Te convidar para a festa que não é tua ; far-Te-ei uma homenagem no silêncio do meu quarto.

Heitor Rosa é contista, romancista e médico. Entre outros tem as seguintes obras literárias publicadas :
1.
ROSA, H. . Memórias de um cirurgião-barbeiro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. v. 1. 208 p.
2.
ROSA, H. . O Enigma da Quinta Sinfonia. São Paulo: Escrituras, 2000. v. 1. 128 p.
3.
ROSA, H. . Os ossos do coronel Azambuja. Ribeirão Preto: Fábrica do Livro, 1998. v. 1. 160 p.

6.11.08

A MOÇA DO PASSAREDO

A moça andava sobre pássaros, daqui para lá, de lá para cá. A moça era bonita, tinha riso de ternura, olhos de amêndoas encabuladas, cabelos da cor do melaço, nem curtos nem longos, lisos e escorridos. Sua boca combinava como os olhos, que combinavam com o nariz e as maçãs da face. Acho até que não tinha face, pois quem tem uma pode ter duas faces e, ela, parecia ter uma só, de tão bonita que era; por isso ela tinha rosto, expressão. Sua expressão era a soma do que diziam seus olhos, a boca, o nariz, os cabelos e as maçãs da face. Mas ela tinha pescoço comprido, que percebia-se quando prendia os cabelos; ombros esguios, peitos salientes, nem grande nem pequenos, bunda recheada, pernas torneadas e pés delicados, vestidos em um sapato bem baixinho, de couro macio.
Voar com pássaros era o seu trabalho, pois como todo mundo, precisava trabalhar para ganhar dinheiro, para se sustentar e realizar o que gostava. Mas estava na face, ou melhor dizendo na cara, nesta também não, na expressão, que ela parecia gostar daquele trabalho. Quando agente quer saber algo sobre o que alguém nem falou, é só dar uma olhada na expressão e saber o que os olhos, a boca, o nariz, os cabelos e as maçãs da face se reuniram para dizer. Não é tão fácil assim, mas treinando aprendemos a entender o que falam as pessoas quando estão caladas.
A moça trabalhava na barriga dos pássaros de metal. Dentro deles cabiam trinta cadeiras e trinta pessoas sentadas para voar. Gente séria, carrancuda, que de trinta em trinta, iam para aqui e acolá.
Uma coisa interessante era ver que os pássaros de metal não batiam asas, ficavam com elas sempre abertas parecendo um urubu ou uma gaivota planando pelo ar. Eles também não cantam! Quando vão voar, duas barriguinhas que estão embaixo das asas começam a fazer um barulho feito um aspirador de pó.
Dois homens sentados no bico, com chapéu de general, são os únicos que podem olhar o céu pelos óculos do pássaro de metal. Eles não deixam a moça sentar no lugar deles. Ela entra e pede para sentar e eles não deixam, então ela volta. Ela vai lá novamente e diz que dará comidinhas se eles deixarem ela sentar um pouquinho só, e nada. Então ela sai dando comidinhas para as trinta pessoas sentadas e nenhuma deixa ela sentar na janela.
Eu me apaixonei pela moça e fiquei olhando para ela e ela olhando para mim. Quando eu fui descer, olhei para ela bem muito. Desci uma escadinha, sentei no ônibus e continuei olhando e vendo que ela me olhava.
Ela então me soltou um beijo e um adeus. Eu larguei a minha mala, desci do ônibus, correndo, subi a escada, abracei-a, dei-lhe um beijo na boca e depois perguntei-lhe: quer casar comigo? E ela quis.

Waldir Pedrosa

11.8.08

SE PERDOEM… É DIA DOS PAIS.

Waldir Pedrosa Amorim

Descobri com a ajuda de outros e auxílio da reflexão, ser bem mais difícil perdoar a si próprio, que perdoar a quem quer que seja.
Não falo aprendi, porque, vez por outra percebo que tropeço sobre as minhas pernas. Quando olho, lá estou implacável comigo.
Diante do relacionamento humano e com os seres sencientes, vislumbramos a compaixão, o tentar enxergar sob a perspectiva do outro, como uma plataforma a ser construída com esmero, estudo e meditação. Nada tão importante, afinal moramos de empréstimo e por tempo determinado num universo no qual deixaremos descendentes. Ademais, somos seres reflexivos, capazes de explorar e obter consciência do passado, presente e das perspectivas futuras da nossa civilização.
Sem dúvida a compaixão confecciona no indivíduo a ética humanista tão desejada para o viver em sociedade e para o usufruto da natureza.
Não podemos afirmar que vivemos um mundo compassivo, tampouco um mundo interior propenso a acatar as peculiaridades e circunstâncias individuais.
Verificamos que nenhuma das religiões pune quem cometeu um ato de desprezo a si, ao contrário o incentiva, seja como forma de autoconhecimento, de purgação ou remissão dos pecados.
Somos seres em dívida, em obrigação moral contraída pelo favor ou através do bem recebido da divindade, da família, da sociedade, da fragilidade imposta pela nossa condição de dependência ao nascer e desenvolver-se, ou do nosso superego, montado diante das nossas vivências.
Neste último caso, vale dizer: somos eternos e implacáveis devedores de nós. Nestas circunstâncias, nos cabe repassar a nossa história pessoal e identificarmos quantas exigências e culpas fictícias, ou melhor, dizendo, com outros significados, carregamos.
Certa vez atendi um cidadão exemplar, bom profissional, extremamente ético, honesto, com uma família equilibrada que lhe dispensava grande respeito e estima. Tinha o diagnóstico de uma doença fatal, incurável, do qual estava consciente. Sua tristeza maior era a culpa que carregava por julgar-se incompetente por não haver amealhado um patamar de bens materiais (semelhante ao dos seus pares, que, considerava de sucesso) para deixar à sua família.
Ao conversarmos, descobrimos ser o seu legado material proporcional ao que poderia atingir um homem integro, inteligente e trabalhador. Esquecera do legado imaterial que construíra. O paradigma que representava para a família e sociedade, a capacidade para conduzir os seus, orientando-os e sabendo partilhar os seus princípios e valores. Sua competência era muito maior do que a média de muitos, em mesmas circunstâncias. Ninguém deseja morrer, mas poderia morrer sem dívidas ou culpa.
Sabemos que a instituição do dia dos pais, das mães, dos namorados, da criança e assim por diante, visa antes de tudo o incentivo ao consumo. Porém, como seres carentes que também somos, terminam por transmitir este caráter de homenagem, avaliação dos papéis e méritos. Por sua vez, são utilizados pela mídia que os transmuta em dividendos econômicos.
Uma meditação e um desejo para este dia:
Que no dia dos pais estes rememorem e comemorem a importância que exercem e as que já exerceram, para o desenvolvimento dos seus filhos e da sociedade. Que se esqueçam culpas, remorso, sensação de que sempre poderiam ter feito melhor.
O melhor é o que é realizado com a intenção amorosa de edificar.