16.1.17

Walt Whitman


Walt Whitman
(Huntington, 31 de maio de 1819 – Camden, 26 de março de 1892)

"Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem
mais fundo em minha alma"

Vida

Sempre a indesencorajada alma do homem
resoluta indo à luta.
(Os contingentes anteriores falharam?
Pois mandaremos novos contingentes
e outros mais novos.)
Sempre o cerrado mistério
de todas as idades deste mundo
antigas ou recentes;
sempre os ávidos olhos, hurras, palmas
de boas-vindas, o ruidoso aplauso;
sempre a alma insatisfeita,
curiosa e por fim não convencida,
lutando hoje como sempre,
batalhando como sempre. 

Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas


Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles. 

Leaves of Grass; Folhas da Erva - antologia, seleção e tradução de José Agostinho Batista - Assírio e Alvin Editora, Lisboa, 2003.

24.12.16

OBTUSO TEMPO NUNCA RELIGIOSO

OBTUSO TEMPO NUNCA RELIGIOSO

Natal-Ano-Novo
Aporta,
Invade,
Inunda; não sabemos de que?

Tal, outro dia fosse,
A etiqueta comezinha
Dos sorrisos e da igualdade.
Não seria escárnio?

A evacuação cinematográfica recessiva,
Escatológica
Em todas acepções,
Era após Era

Crepita pelas avenidas e vielas.

A dejeção pútrida
Do homo desvelejante
Na nau obscena
Da desumanidade.

Importa
Pervade
Afoga
Quem é multidão.

Waldir Pedrosa Amorim

João Pessoa, 24 de dezembro de 2016

8.12.16

Amizade

AMIZADE

Ao amigo Derval Magalhães.

Amizade
É liga que não ata,
lenitivo
que não consome.

É resina.
Brota
do puro lenho
graça da convivência.

Ocorre sutil, livre,
ouvidos, acolhedores,
boca sincera,
olhos contemplativos,
sentidos inexpugnáveis.

Amizade,
não é contingência parental,
nem qualquer outra,
sob a qual,
classifiquem-se os porquês,
dos traços de união,
hifens e ligames.

O estado de amigo,
não é contratual,
prescinde de quase tudo:
tempo lógico,
dialético,
geográfico,
existencial...

Amizade é um amor distinto,
dos encontrados pela vida.
Não requer defini-lo, emoldura-lo.

Poucos os amigos?
−Acontece o que devia acontecer.

Perdi um amigo para a morte?
−Entristeço-me, choro, enluto-me.
Mas inda assim,
me permanece presente.

Nunca findarei de explorar
o que me significou.


Para inexistência física,
parece que perdemos,
o verdadeiro amigo,
que não perdemos.


Waldir Pedrosa Amorim, Em João Pessoa 08/12/16

12.10.15

Criança




Criança


Rua antiga
Que não morre.

Descortino
não dorme.

Num átimo, uma engenhoca,
faz-se folguedo e
brinco.

Quando não,
tem-se as palavras.

Um dia longo
Se encurta numa
travessura e
inaugura
a rua nova.

Os netos
apimentam
o coração.
A gente não se atenta 
sexagenário.

E a Rua Antiga
permanece.


Waldir segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Dia da Criança